A região de Aparecida do Norte foi povoada inicialmente por pescadores e ainda hoje muitos continuam na mesma labuta, às margens do Paraíba. São piraquaras simples e bons, honestos e trabalhadores, resignados e piedosos, que conhecem as manhas das águas e dos peixes, procurando superá-las com habilidade e destreza. Para isso, dispõem de perícia, de pertences que fabricam com as próprias mãos e de uma paciência como poucos possuem neste mundo de Deus. Nada os atemoriza, nem a noite escura, nem as tempestades. Só a rede vazia os entristece.
Vivem eles na atmosfera da magia e, religiosos que sejam, se movem entre crendices e superstições.
Entre as suas lendas — lendas para nós, para eles mitos, pois lhes determinam o comportamento — a mais conhecida é a do corpo seco, duende que vive na mata densa e fechada, à margem esquerda do Paraíba, lugar pitoresco denominado Caaparabá.
Várias foram as histórias que ouvi de pescadores, velhos ou jovens, sobre o corpo seco — "a coisa mais horrorosa, horrive, que se pode vê", como me afirmou Eduardo Rodrigues, que tem 65 anos e nunca mentiu e só fala a verdade.
Na sua linguagem simples, o velho Eduardo me descreveu fielmente o que é o corpo seco, mantendo os característicos essenciais a todas as descrições que outros já me tinham feito. "É sempre o corpo de pessoa ruim, principarmente quem martratô ou desresoeitô pai e mãe. É um corpo tão sem graça que nem a terra não qué. Rejeita. Então o corpo seca. A ropa gruda que fica rente co'a pele. Uma situação só. As unha cresce. A pacoera e as tripa fica tudo numa bolota só. E chacoaia de todo lado. Quando chega o tempo de revirá a sepurtura pra desocupá lugá é que descobrem isso. Então o coveiro avisa o padre do lugá que tem um corpo seco. Então o padre trata de vê quem tem corage e escolhe dois home. Faz suas rezas, seus benzimento forte, mas só de noite então, ali pela meia-noite, nem antes nem depois, um dos home [vira] pro companheiro que tá de costa, co os braço erguido pra trás. E ele fica nesta pusição assim, costa com costa, nem o corpo seco óia pra frente nem quem carrega óia pra trás. Daí caminha os dois home até o mato e ao corpo seco tem que sê jogado de costas, mar joga já tem que saí andando e sem oiá pra trás, se oiá ele munta cavalo e vem. Lá no mato, despois que o pessoá vem simbora, le mesmo por si se esconde. Fica encostado num pau, toma conta dum capoeirão inteirinho. Pois foi o que acunteceu cumigo quando um dia fui lenhá. Chegue no capoeirão dele e isso ninguém tem orde de fazê. Premero, pra avisá a gente da presença dele, ele dá uma tontura na gente; Se teimá, daí ele tira a idéia. Ninguém tem força de arregisti. Ele, eu não vi, só ouvi os estralos no mato, mas quem viu contô, é da artura duma pessoa mesmo, no lugá do zóio tem dois vuracão. Uma cara medonha de feio..."
O capoeirão do corpo seco
A lenda é assim conhecida nesta região, mas os casos que contam e as histórias que surgem variam grandemente; uns, amedrontados, largam no capoeirão a lenha que colheram e os peixes que pegaram e fogem espavoridos; outros, com uma coragem que talvez lhes advenha depois de passado o susto, que os "estralos no mato" metem medo de verdade, incentam suas histórias e se tornam conhecidos como destemerosos, valentes e ousados. Mas... só na prosa mesmo, que caminho pequeno, estradinha à toa, atalho de todo o dia, quando corrido com pernas bambas se transforma em uma légua sem fim...
Pelas redondezas da cidade está o Caaparapá, onde a galharia cerra tanto lá no alto que em certos pontos, não se avista o céu. Enormes aranhas tecem suas teias fortes entre os ramos onde florescem orquídeas das mais belas. A mata se estende por onze alqueires, chegando quase à beira do rio, cujas águas entram por um valão e formam uma lagoa enorme, quase transformando o Caaparapá numa grande ilha. O lagoão é bonito e cheio de árvores que nasceram não se sabe quando, pois que os avós contam que seus avós contavam.
Mas desde quando o Caaparapá se tornou capoeirão do corpo seco, todo mundo sabe, porque ainda vivem alguns dos que o conheceram em vida, lá pelos fins do século XIX, antes de condenado a cumprir sina e sabiam que, "embora não aparecesse divulgado para ninguém", sempre aparecia à gente dele, vinha à casa do filho, pedindo para cortar-lhe as unhas e fazer-lhe a barba e pedindo coisas também: roupa, chapéu, calçado, que ele precisa de tudo que a gente usa também. E contam, que de todos os seus, era o Pissidone quem mais o presenteava, por ser quem mais tinha dó do coitado. Daí o Pissidone ir ao Caaparapá e colocar tudo perto de uma árvore grande que nunca acabava. O chapéu era de pirizinho e muitos sabiam da altura do corpo seco porque viam os sinais de suas passadas e os estralos lá em cima, onde o chapeuzinho roçava.
Condenado ao capoeirão, dele nunca podendo retirar-se, tem como seu tudo quanto nele se encontra: as árvores do chão, os pássaros do ar e os peixes das águas. Quem vai lenhar e se embrenha na mata, ou volta abobado ou larga o feixinho e sai correndo, quando não passa a noite toda como que encantado, sem poder arredar pé do lugar; quem vai pescar e se distrai na beira da água, quase morre de susto quando ouve a voz soturno: "largue o peixe aí..." E caçador que enverede pelos trilhos apertados à procura do paturi, do frango d'água, não sabe mais voltar, precisa rezar o Creio em Deus Padre. Assim é o corpo seco, dono de quanto tenha vida em seu domicílio e de nada querendo se separar.
Um acordo com o duende
Porém, tudo depende de jeito, como disse o nosso velho amigo Agapito Pamplona da Corte Real Espíndola, piraquara de 64 anos, sempre lidando com redes e remos, e canoas e botes. Agapito me disse que ia contar um caso para provar que o "sujeito" (não gosta de falar "corpo seco", tem medo...) não é tão ruim assim como se diz, vai do modo de se lidar com ele, porque com bom trato até nós somos bons, mas que nos queiram tirar as coisas à força... E aqui a história que ouvi de um acordo feito entre Agapito e o corpo seco do Caaparapá, com amplos poderes para a pescaria no lagoão, pelo tempo que lhe aprouvesse pescar.
"Tava uma miséria de peixe aqui na Parecida e não tinha peixe nenhum. O Gerardo (filho dele) foi e disse: "cumé, pai, bamo venturá? Bamo no Caaparapá pra nóis pescá", que lá tinha muito peixe. Então eu disse: "cumé que nóis bamo fazê... Sá? eu vou pensá um modo e nóis bamo lá pescá". Mandei ele comprá uma vela na venda, meia garrafinha de cachaça e saí com ele, de tardezinha, regulando no primeiro dia de pesca mais de oito hora. Fomo cedo nesse dia. Cheguemo na lagoa, custô pra nóis travessá, quase que a água dava pra molhá nóis. Lagoá funda. Eu levei junto co'a vela um vidrinho de cachaça com guiné e arruda também. Deixei ele na bera do poço e a rede e fui lá pro pé da figueira. "Óia, nóis bamo pescá agora neste poço, mas eu quero que me ajude porque nós não conhece o poço. Depois da pescaria nóis mata o bicho". Eu disse assim. Não tinha ninguém. Cheguemo na boca do poço, demo suas redada e saiu carga de peixe que quase não pidemo carregá. Saímo no caminho. O Gerardo disse pra mim: "Ê pai, cumé agora pra nós travessá a lagoa?" O peso era muto. Eu fui disse assim: não é nada, rapaiz, o amigo aqui ajuda nóis passá pra lá e carrega o peixe". Eu peguei a rede, pus nas costa e ele ergueu o balaio de peixe na cacunda. Eu disse: "siga na frente que eu vou atrais". Ele embarcô na lagoa e eu também. Ele co'a carga de peixe, não chegô a batê água no joeio. E eu, co'a rede e a água deu só no tornozelo do pé. Um tremedá temeroso que dava para cobrir um home se escapasse. Cheguemo pra cá da lagoa, larguemo a rede, o peixe, e eu disse pro Gerardo: "bamo tomá uma pinguinha". Eu deu o vinho prele, ele bebeu um gole e me deu o vidro, e eu bebi também e virei o vidro pro lado da lagoa e disse: "Isso é vosso". Não vi buia de nada e quando peguei a oiá o vidro já estava sequinho. Tornei a pôr a rede nas costa e ele ergueu o jacá de peixe. E eu disse: "Bão, amanhã nóis vortamo, pode ir embora, obrigado, Deus que ajude, pode ser sempre assim e bamo embora vendê o peixe". E assim seguimo. Pesquemo mês e meio dessa maneira assim. Úrtima veiz, cheguei no poço, sortemo a rede, enganchou num aramaço colosso de arame farpado. O Gerardo respondeu: "E, pai, perdemo a rede". Eu disse: "não é nada". Eu vi uma buinha que vinha vindo pro mato e nesse dia nóis não tinha levado a vela nem a pinga. Aí eu disse: "isso é arte desse sujeito, ele ficô com raiva, mas tem razão, porque nóis fomo curpado. Trato é trato". E falei pro Gerardo: "afaste pra trais e estique a rede"; E chamei: "ó, amigo, você conhece a arte de sair daqui, me sorte a rede, que nois no pode pescá". Deu um xaquaio muito grande na rede e sortou. Nóis puxemo, enrolemo e eu disse: "agora nóis num pesca mais hoje. Bamo embora". Daí o Gerardo disse assim: "eu vô tirá aquele arame, pai, tirá pra fora, deixá limpo". Entrô no poço, foi tirando aqueles pacote de arame farpado, cruzeta de pau, tuso feito, e muntuô em cima do guapesa. Daí saímo pra vim embora, ele sai atrais dele, co'o a rede. Quando passemo em frente a figueira, o sujeito avançô a mão na rede e soquetrô pra tirá a rede de mim. E eu expriquei pra ele: "Hoje nóis não queremo pescá mais, fica pra amanhã, amanhã nóis vorta". E não pesquemo. Notro dia, o Gerardo, que é muito curioso, saiu bem cedo e foi lá zoiá o arame pra aproveitá argum e não achô nada... Continuemo a pescaria quando nóis quisemo, nada estorvô nóis, num tinha enrosco, num tinha nada. E terminô nisso aí..."
Câmara Cascudo registrou o mito em São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Nordeste e diz ser da tradição portuguesa. Aliás, almas penadas, com suas aparições proteiformes, correm por toda parte. Existe também em vários lugares do Brasil uma outra lenda, de que quem bate em pai ou mãe fica com a mão seca, cujo tema central é o mesmo portanto. Não sei, porém, se se corporifica em forma lendária ou aparece apenas em crendice, embora o povo não acredite nunca em abstrato, acredita porque lhe citam provas que a tradição conserva intangíveis.