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Meteorologia

Os santos que mandam na chuva

Alice Inês Silva Merheb

Pesquisa em Ponte Nova

Três são os santos invocados para acalmar as tormentas: Santa Clara, Santa Bárbara e São Jerônimo, crenças herdadas dos portugueses.

Nada na história da vida de São Jerônimo parece ligá-lo à meteorologia. O motivo de sua invocação parece obscuro. Mas a tradição nos veio de Portugal e serviu para sincretizá-lo aos candomblés nagôs a Xangô, o mais poderoso dos orixás, senhor dos raios e dos trovões. Aparece sempre ligado a Santa Bárbara nas fórmulas propiciatórias.

Duas versões de seu martírio permitem ao povo conferir a Santa Bárbara poderes sobre os temporais. A primeira diz que a virgem foi degolada pelo próprio pai, o rei Dioscuro, pela obstinação em permanecer cristã. Tão logo o seu sacrifício, revoltava-se o céu e um raio fulmina de imediato aquele que a matara. Outra lenda fala-nos que Santa Bárbara teria sido obrigada pelo procônsul romano a mostrar-se despida em praça pública. Atendendo às suas preces, o céu corbriu-se de nuvens e o forte nevoeiro permitiu que sua nudez ficasse oculta aos olhos do povo. Câmara Cascudo ressalta entre os dados analógicos (raio, nevoeiro) o nome de seu pai, de expressiva sonoridade: Dio-Scuro. É sincretizada a Iansã, a temível iabá dos ventos e tempestades, esposa de Xangô.

Esta invocação tem poder sobre os relâmpagos:

"São Jerônimo, Santa Bárbara virgem!"

Uma variante nos foi ensinada assim:

"Eles têm muitos significados de vento, mas eu não sei. Agora do relampo eu sei as palavras: 'São Jerônimo, Santa Bárbara vigi!"

E completou: "'Eles que vigiam nós'.

Interessante é que, de pronto, pareceu-nos a mesma fórmula invocatória, até ser acrescentada a explicação adicional. Não se trata do substantivo "virgem", como aparece na primeira invocação. Aqui é o verbo vigia onde houver o deslocamento da sílaba tônica para a anterior (sístole). Observe-se também a forma "relampo", português arcaico e espanhol antigo, informa mestre Antenor Nascentes". (Câmara Cascudo)

E por causa do nome:

"Queimar capim santa bárbara faz parar de chover"

* * *

Santa Clara, na tradição portuguesa, tem poder de trazer bom tempo, por analogia de seu nome com o verbo clarear.

Santa Clara clareou
São Domingos iluminou

Pede-se a ela o fim das tormentas, fazendo-se oferendas. Esta oferenda pode ser um ovo, que se coloca no muro. Em Portugal, dissipam-se os nevoeiros expondo-se ao tempo objetos brancos. Poderíamos também observar a analogia Santa Clara - clara de ovo.

Outros substituem o ovo no muro por sabão que ofertam dizendo:

"Toma, Santa Clara, pra você lavar sua roupa."

Ou joga-se o sabão no telhado rezando:

Santa Clara traz o sol
Pra enxugar nosso lençol

A explicação para essa simpatia talvez esteja na lenda relatada por Hildegardes Viana (Festas se santos e santos festejados. Livraria Progresso) que é o corrente na Bahia:

"Nos meus velhos tempos de menina, ouvia contar que Santana era velhinha decrépita, tão decrépita que molhava os lençõis como qualquer neném. A santa fica enregelada, sem poder se levantar, tiritante, tentando se embiocar nas roupas úmidas. Ficava a pobrezinha mortinha de frio, esperando que Santa Clara chegasse em agosto e o tempo melhorasse. Quando a santa chegava, lhe dava um caldinho quente. Santana ganhava forças nas pernas e dependurava os lençóis ao vento. Então havia mais quentura. E quantos friorentos sofressem de decrepitude ou reumatismo rezavam para maior glória da caluniada mãe de Maria, para que tivesse força de se levantar e enxugar as panaradas molhadas, para que pondo a roupa a secar acabasse com aquele tormento."

Talvez seja por isso que Santa Clara ganhe tanto sabão: quem enxuga roupa deve forçosamente lavá-la também.

Não ouvimos aqui o povo explicar o frio úmido de julho pela velhice da Senhora Santana. Esquecida ou escoteira, da lenda persistiu apenas:

Santa Clara traz o sol
Pra enxugar nosso lençol

 

(Merheb, Alice Inês Silva. "Os santos que mandam na chuva". Jornal do Povo. Ponte Nova, 01 e 15 de julho de 1973)

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