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Tema do Mês

Maio 2009 - Ano XI - nº 124

Sumário

Mãe do ouro

O mito da mãe da lua

O marido da mãe-d'água

A mãe de São Pedro

Praga de mãe

Mãe preta

 

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Mãe

Mãe preta

Ruth Guimarães

Mãe preta, cantada pelos poetas, trouxe para a formação da sociedade brasileira, com o seu leite de luar, o laço amorável dos seus braços e a doçura de um coração onde coube tanto amor. E porque mãe preta foi acima de tudo amor, a forma perfeita de compreensão, quem dela se lembra, esquece-lhe o pigmento escuro, a humildade da condição de escrava e portanto de coisa, de objeto de uso, de animal doméstico, esquece-lhe a ignorância, a origem obscura, o ser aplastrada, resignada, sofredora, relegada à última escala da dignidade humana, para simplesmente amá-la. E tudo está dito. Que melhor reconhecimento encontraríamos do que esse?

Para entendermos bem o papel da mãe preta, certamente é necessário que saibamos alguma coisa da estrutura da sociedade colonial e patriarcal do Brasil de há um século e de há dois séculos.

A própria estrutura econômica do regime escravocrata trazia como conseqüência o ócio e a volúpia dos senhores. O negro subjugado se acomodava aos apetites e à corrupção da raça dominadora. Tão certo é que mais em paz se vive conformando-se com os defeitos do próximo e lisonjeando-lhe os vícios, que mantendo uma linha íntegra de conduta. E que linha íntegra poderiam manter os pobres negros, sujeitos ao tronco e ao bacalhau, às humilhações, à indiferença e à perversidade, ou a essa bondade morna e arrastada que não tem objetivo e se limita a não fazer o mal, que se limita a deixar correr o barco, e que dói mais do que a maldade? Que podiam eles senão conformar-se?

Casava o clima com o ócio, esse clima pegajento, quente, que tira do brasileiro todo o ânimo para um esforço contínuo, e esse ócio vindo de uma riqueza ganha sem trabalho, e o resultado era uma luxúria desenfreada, que fazia derivar para o sexo todas as disposições latentes e latejantes do organismo jovem. No escurão da senzala cevaram-se todos os apetites. No negro escravo desrecalcou-se muita sinhá e muito sinhô. O sadismo, o masoquismo e a volúpia campearam livremente nesses casarões coloniais, de fachada tão austera, de rótulas pudicamente cerradas, de mulheres embiocadas e que saíam para a rua somente ao irem à missa.

Em conseqüência dos ócios da senhora, que se abanava calorentamente na sua rede, as crianças da casa ficavam aos cuidados das amas-de-leite, e de outras escravas de bons sentimentos e mais dedicadas.

E foi assim que do escurão da senzala brotou a flor mais bela que poderia surgir de semelhante esterqueira: a mãe preta, representando o amor materno, no que ele tem de mais belo, de mais puro, de mais desinteressado, de redentor e de santo: o sacrifício sem limites, e a dedicação sem recompensa.

Ó imensa ternura da mãe de criação, que aleitou o menino com seu leite branco apojando nos seios fartos, e deu-lhe junto a imensa ternura condescendente, plácida, limpa, enorme, de que só mãe preta foi capaz.

Aleitou como ao seu, amou como ao seu, ou talvez mais, aos filhos de empréstimo. Dedicou-lhe as noites de vigília e os cuidados. Era uma criança vinda da raça inimiga, que a espezinhava e brutalizava, mas que importava? Que culpa teve a criança que aconchegava nos braços, branquinha como o açúcar, de boquinha gulosa e olhos empapuçados de sono e fartura? Eram dois desamparos: a negra escrava sem apoio, o nenê tão inerme, tão desservido pela indiferença da mãe que o pusera no mundo! Crescendo o menino, não se afastava dele a negra babá. Era ela quem o lavava, quem lhe costurava ao pescoço o bentinho com as orações contra o mau-olhado e o quebranto. Era quem o alimentava depois de desmamado, amassando nas mãos, em forma de bolinho, o virado de feijão. Era quem o punha no berço, cantando cantigas de ninar, muito lentas, muito fundas, muito densas, e muito resmungadas, com uma voz meio rouca do fundo do peito, mas muito terna e muito doce:

Drome nenê
que a cuca já 'i vem
papai foi na roça
mamãe logo vem.

E era quem lhe contava histórias, na mesma voz resmungada, resingona, do fundo do peito, falando de assombração, de boitatá, de negros velhos com seu surrão para carregar as crianças malcriadas. Para o menino brasileiro, a noite se povoou de bichos-papões, de saci-pererê e de tutu-marambá, mulas-sem-cabeça, e de uma entidade terrível, misteriosa que era simplesmente o bicho. Sombras adensando as sombras, mas onde se destacava, luminosa como uma estrela, bela como um anjo de luz, inesperada, incansável, como a providência, a feia, a espapaçada, a ignorante mãe preta.

Sua voz espancava os terrores e afugentava os duendes:

druma ioiô!

Esse amor, esse dar-se, esse enternecer-se, esse abrandar-se, trouxe conseqüências de todo em todo imprevistas. Abrandou-se a língua, abrandaram-se os costumes, abrandou-se o caráter daqueles férreos homens de antanho, duros e inflexíveis, feitos de pedra, de aço, de impiedade. Do contato do menino da casa-grande com a negra mãe preta da senzala, a intimidade foi-se estabelecendo em bases suaves, e nunca mais que branco sinhô tinha ojeriza do negro, ojeriza do bodum do negro, da beiçola do negro, da cara feia e chata do negro, do cabelo duro, encarapinhado do negro, do andar de macaco do negro, do óleo da pele do negro. Acostumado ao aconchego da negra babá, aos brinquedos com o moleque, com quem ia crescendo junto, o filho do branco se deliciava nos seus primeiros contatos sensuais com a negrinha ou a mulatinha da fazenda, durinha e saborosa nos seus treze, catorze anos em flor.

Partindo da mãe preta, preto e branco se confraternizaram. Não ficaram como gente hostil, irreconciliável, nem nos fortuitos contatos sensuais clandestinos.

Às vezes, mãe preta ficava sendo a dona absoluta da casa-grande, não somente por indolência da sinhá, mas por sua morte. Era costume na sociedade patriarcal casar-se a moça muito cedo. Meninas de doze e treze anos, que ainda deviam estar brincando com bonecas, ninavam já o primeiro filho. Muitas delas morriam de parto e esse primeiro filho era criado pelas amas, pela mãe preta, de leite abundante e saúde rija, coração grande e fortes braços maternais.

Naturalmente essas pretas que vinham da senzala para o serviço da casa, e eram as mucamas, as negrinhas de recado, as babás, eram as negras mais finas, mais escolhidas, de sentimentos melhores, de bom caráter e de boa saúde, asseadas e dignas, de boa formação moral e religiosa. E que fossem bonitonas e agradáveis de se verem. E risonhas, eram tão risonhas essas escravas de dentro de casa, apegadas aos meninos e à família!

"Quem meus filhos beija, minha boca adoça", diz o popular adágio. A mãe preta, segundo tradição desmentida, foi tratada com todas as honras, mas sobretudo, amada. Mas sobretudo, tratada como gente, de igual para igual, esquecida a sua condição de egressa da senzala. O menino, o seu "menino", que seria mais tarde doutor, estadista do Império, que estaria entre o grandes, dela se lembraria com benevolência e carinho. Lembrar-se-ia com saudade. A ela aludiram com ternura, depois de adultos, depois de famosos, homens duros como José Bonifácio, homens combativos como Sílvio Romero, homens da estatura de Joaquim Nabuco. Dela se falou sempre com acentos do mais comovido reconhecimento. Nem uma voz destoante, que dissesse de rompantes das suaves negras, mães de empréstimo, porém, todas as vozes foram acordes em celebrar sua doçura, sua conformidade, sua conformação, seu amor imenso. Ai, milagre do amor, forma perfeita de conhecimento, sabedoria que mãe preta encontrou por si, recebendo no aconchego dos braços, o ioiozinho inocente dos crimes, que contra ela perpetrava a frio a outra raça. Ai, milagre do amor que é o primeiro e único mandamento das mães, pois a mãe que ama perfeitamente é por si perfeita e encontra, sem nenhum outro guia, o caminho para a frente e para o alto.

(Guimarães, Ruth. As mães na lenda e na história. São Paulo, Cultrix, 1960, p.169-173)

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