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Tema do Mês

Fevereiro 2011 - Ano XIII - nº 144

O assunto é carnaval
Folias de carnaval na Ilha
Morto o carnaval recifense?
A propósito do Maracatu Leão Coroado
Carnaval sem Pás Douradas
Pequena história (contada e cantada) da grande festa do povo
A rua é do povo

 

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Carnaval

Folias de carnaval na Ilha

A. Seixas Neto

A modinha carnavalesca "Oi, palhaço o que é? É ladrão de muié" ainda que não seja tão velha a ponto de se tornar folclórica, é uma síntese dos dias do reinado momístico.

Outra síntese é o Zé Pereira. "Oi viva o Zé Pereira, oi viva o carnaval". Ambas as modinhas chegaram aqui na Ilha por volta do início do século: depois, algumas vezes reformuladas, tomavam estrutura musical diversa. Sua origem: o Rio de Janeiro. O rei Momo e o Zé Pereira são, inegavelmente, tomados às descrições das festas dos mendigos da cité de Paris, tão bem narradas por Victor Hugo no livro Nossa Senhora de Paris.

E como o Rio de Janeiro viveu a belle epoque, onde tudo era francesismo, o seu Zé Pereira renovava o bufão parisiense. Já o palhaço é um disfarce do dom Juan; as colombinas e os pierrôs relembram de perto a corte do rei Sol, onde a máscara recortada sobre os olhos era o tom elegante. A composição Máscara negra do carnaval passado nada tem de novo, pois, retorna às cortes francesas.

Mas deixemos isso de lado e vejamos o carnaval ilhéu, que foi sendo formado por notícias e apresentações que aqui faziam os filhos da Ilha que viajavam ou estranhos que aqui aportavam. E isto aos poucos, num tempo em que não havia rádios, jornais, aviões; tudo era lerdo como o navio de vela.

Os primeiros carnavais do Desterro eram realizados religiosamente nos três dias, com limões de cheiro, bisnagas de água de flor de laranjas, e desfiles de pessoas fantasiadas à moda lisboeta. Os bailes de máscaras eram o luxo, a fina flor social, no Paço.

Depois, chegaram os folhetins franceses, as peças francesas e as fantasias. Os mascarados sujos eram evidentemente da pobreza imitando os grão-senhores; enquanto aqueles se divertiam, estes, máscaras de papel ou trapo grudado à cara faziam das suas pelas ruas. Mas por trás da máscara do palhaço ocultava-se o dom Juan e cidadão que se fantasiava de palhaço era vigiado por maridos, noivos, namorados... a modinha carnavalesca diz tudo.

Depois, como no Rio de Janeiro, o Zé Pereira servia para o nacional lascar o português, em rixa que vinha de longe; aqui não deixavam por menos; um Zé Pereira teria necessariamente grandes bigodões dos vinhateiros do Douro e pança de ricaço d'além-mar. Era a verve; era a sátira. Aqui, dizem as crônicas, houve bons Zés Pereira e famosos palhaços.

Um dia, com mais tempo, falaremos deles mais tarde, a literatura francesa foi perdendo terreno e a belle epoque perdendo a aceitação; o carnaval foi mudando; na verdade, o carnaval é o melhor retrato psicológico duma época, dum século, dum povo. Em outra crônica, apreciaremos os palhaços, os pierrôs, os dominós, os arlequins e colombinas, em suas formas da belle epoque e nas suas formas ilhoas.

Na verdade, o ilhéu, longe da corte, recebia as inovações e, de poucas posses e raro contato com a nobreza, ia adaptando as coisas a seu modo, o que acabava por criar, com o correr dos anos, um tipo local próprio. Depois há que ver, de paralelo, a psicologia das fantasias... e ficará meridianamente claro que nada mudou na essência, somente na forma. Falaremos disto nas próximas crônicas.

(Seixas Neto, A. "Folias de carnaval na Ilha". O Estado. Florianópolis, 14 de fevereiro de 1971)

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