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Tema do Mês

Fevereiro 2009 - Ano XI - nº 121

Sumário

Do entrudo ao carnaval

Entrudo: Era assim que os nossos avós brincavam

Entrudo

Negas da Costa de Quebrangulo

Marchas e sambas de carnaval

Os maracatus de Capiba

Rio de Janeiro em versos de samba

 

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Carnaval

Marchas e sambas de carnaval

Guilherme Santos Neves

O assunto de hoje há de parecer a muitos – mais de gramática e outras polícias do que propriamente de folclore.

De fato, o caturra gramatical e o censor moralista encontrariam material copioso para trilarem o seu apito vigilante, frente aos solecismos e às baboseiras desmoralizantes que eivam a maior parte das letras das composições carnavalescas. Qualquer gato pingado se mete a compor as "mal traçadas" letras de um samba folião. E as tolices sentimentais dessas músicas e as sensaborias e chalaças sem pé nem cabeça, e as piadas encharcadas de gíria de duplo sentido que infestam a versalhada momesca, tudo isso se canta e recanta até à exaustão, antes, durante e depois do frenético tríduo de Momo.

Mas – essa música de carnaval não será folclore?

Sim, leitor folião. É folclore essa música de carnaval. A letra, porém, essa não!

Tem a palavra um vero mestre no assunto – Mário de Andrade.

Em artigo que lançou num dos jornais do Rio de Janeiro, sob o título "A música e a canção populares no Brasil" (tenho o recorte, infelizmente sem indicação de fonte nem de data), dizia, em certo trecho, o eminente e curto folclorista de São Paulo:

"Assim, não teremos cientificamente se chamará de 'canção popular'. Mas seria absurdo concluir por isso que não possuímos música popular! Tanto no campo como na cidade florescem com enorme abundância canções e danças que apresentam todos os caracteres que a ciência exige para determinar a validade folclórica de cada uma (dessas) manifestações. Essas melodias nascem e morrem com rapidez, é verdade, o povo não as conserva na memória. Mas se o documentário musical em si não é conservado, ele se cria sempre dentro de certas combinações instrumentais, contém sempre certo número de constâncias melódicas, motivos rítmicos, tendências tonais, jeitos de cadenciar, que todos são já tradicionais, já perfeitamente anônimos e autóctones, às vezes peculiares e sempre característicos do brasileiro. Não é tal canção determinada que é permanente, mas tudo aquilo de que ela é construída. A melodia em seis ou dez anos poderá obliterar-se na memória popular, mas os seus elementos constitutivos permanecem usuais no povo, e com todos os requisitos, aparências e fraquezas do 'tradicional'.

Foi talvez pensando assim que outro mestre do folclore nacional – Câmara Cascudo – ressaltou certa vez (cito de memória) sua afeição e apego ao samba e sua aversão às letras dos sambas...

Passando a vista (mera curiosidade) pela letra das marchinhas e sambas deste carnaval de 1957, notei o evidente propósito de lhes darem feição folclórica. Não sei que diabo deu nessa gente, mas o fato é que, na letra de grande porção de sambas e marchas para esta folia brava, se encaixam – muitas vezes à força – provérbios, ditos e frases-feitas, e outras formas ou expressões nitidamente folclóricas:

Vai a prova:

Não é só de pão
Que o homem vive

Macaco velho
Não mete a mão em cumbuca

Cão que ladra não morde
Não morde só sabe é ladrar

Sofri que não foi brinquedo
Gato escaldado de água fria tem medo

Vai com jeito, vai
Senão um dia a casa cai

Sem dinheiro e sem cabelo
Eu só posso arranjar
Ai, ai, ai
Ai, ai, ai
Sarna para me coçar

Ladrão que rouba ladrão
Diz o velho ditado
Tem cem anos de perdão

O peixe morre pela boca
Fala, fala, falador

Se você não for, eu vou
Nem que chova canivete

Homem sem mulher
Vai de vento em popa
Com mulher em casa
É fogo na roupa

Às vezes, num mesmo samba, dois provérbios se embutem. Veja-se o Chinelo velho:

Há sempre um chinelo velho
Pra quem tem um pé descalço
O primeiro amor, meu senhor
Também pode ser falso
Não me desespero
Sempre resta uma esperança
Eu fumando espero
Quem espera sempre alcança

Mas, são apenas provérbios e expressões populares. Também a poesia folclórica se mescla, desvirtuada, aos sambas e marchas carnavalescas.

Há evidente influência do conhecido coreto mineiro Peixe vivo, na marcha Tua companhia:

Sem a tua
Sem a tua
Sem a tua companhia

Também velha cantiguinha do folclore infantil transparece na letra e música do samba Quem gosta de mim:

Quem gosta de mim
é ela
Quem gosta dela
sou eu

Por veze, é uma trova do povo que se deturpa, encaixada em feixe de gírias. Na Marcha do pixe, se entoa:

Mulher quando se ajunta
Pra pixar a vida alheia
Começa na lua nova
E acaba na lua cheia

Noutras composições há referências a jogos e brincos infantis, como no caso da marcha O tempo bom:

Bento que bento – frade
Na boca do forno – forno
Tirai um pão – essa não

E depois:

Pão pão pão
Era leite era pão
Sapatinho branco
Meia de algodão

Não sabemos até que ponto esses encaixes poderão ser benéficos ou nocivos ao verdadeiro folclore. Naturalmente, o aproveitamento – bem ou malfeito – de provérbios nas cantigas de carnaval – a eles dará incremento maior, pela difusão e reiteração tresloucada entre os foliões. Será uma espécie de frenesi coletivo, durante o qual milhões de bocas estarão, por este Brasil a fora, deitando provérbios e ditos populares. Passada a fúria momesca, certamente essas expressões permanecerão, por muito tempo ainda, e até em forma cantada e melódica, a funcionar mais nitidamente na fala viva de todos.

Quanto às deturpações de cantiguinhas infantis – ou estas cedem lugar às marchas e sambas, ou a melodia de amas se mesclará às outras, numa simbiose estranha, capaz de criar variantes.

Pode também dar-se o caso de – esquecidas – como é natural e de praxe – as cantigas de carnaval, sejam elas, mais tarde, trazidas à tona da memória de muitos, e recantadas, todas vez que à lembrança vierem as cantiguinhas do folclore infantil, embora – como diz o samba, repetindo verdade proverbial:

Águas passadas
não movem moinho
Eu não posso viver sem teu carinho
Volta, volta
Estou cansado de viver sozinho...

(Neves, Guilherme Santos. "Marchas e sambas de carnaval". A Gazeta, Vitória, 03 de março de 1957)

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