Entrada da quaresma
O carnaval, originário da Europa, demorou a se fixar no país. O que havia antes era o entrudo, corrupto de introitus, que marcava a entrada da quaresma com uma licença festiva recebida de Portugal. Caracterizava-se pela comezaina de carne abarrotamento preventivo da antecipada compensação do duro jejum e à rígida compostura quaresmal, escreve o historiador paulista Afonso A. de Freitas. Nesse entrudo, explica Luiz Edmundo, eram uso a que ninguém fugia os grandes banquetes, as formidáveis "pançadas", tal qual se fazia no reino. A principal expressão do entrudo, explica Luiz Edmundo, eram o jogo de água, com laranjinhas ou limões feitos de cera e cheios de água perfumada, seringas de luta e até mesmo baldes ou regadores quando haviam terminado as elegantes laranjinhas. Ao lado do carnaval, o entrudo subsiste em muitas regiões do país, na forma de jogo de água.
Varias procedências
O ciclo do carnaval não apresenta a esperada unidade nos seus componentes mais característicos. Revela-se mais pela justa posição de usos e costumes de várias procedências. Na Idade Média, possuía maior sistematização, o que talvez decorra da intervenção das organizações de jovens, ainda há pouco bem nítida na Europa Latina, sob a forma de grupos de coleta, cortejos mascarados, condução de manequins com julgamento e suplício. E curiosamente com um aspecto jurídico, com os jovens a se erigirem em distribuidores de justiça.
Sociedade especial
As alegrias e licenças carnavalescas não constituíram, no início, expressões e conquistas de todo um povo e sim de uma parte da coletividade. De uma verdadeira sociedade especial, segundo normas que foram obrigatórias, sendo idênticas. Lembra Afonso A. de Freitas, que o carnaval paulista começou nas sociedades familiares e que somente aos poucos ganhou todo o povo. Em 1866, porém, havia perdido inteiramente o recato e a compostura e as meninas, que primeiro mantiveram o espírito do carnaval, em São Paulo, resignaram-se assistir através das rótulas a vitória das mulheres públicas.
Troca de sexo
Os processos de disfarce são comuns no período carnavalesco. Por vezes, contentam-se os foliões brasileiros como os europeus a pintar o rosto com graxa, fuligem ou farinha. Há também o costume de fingir a troca de sexo, o que é tradição da Europa e, não como julgam uma decadência moral de nossa gente. Lá como aqui, moços vestem a indumentária das irmãs e estas a deles saindo à rua como falsas mulheres ou homens. Disfarce frequente é ainda o do indivíduo se ocultando sob uma pele de animal ou de uma carcaça que mais o identifica ao original.
Índios de mentira
É comum entre nós o aparecimento de homens disfarçados em índios, com arcos e flechas, tal como acontecia no velho carnaval europeu. E estes índios, talvez se relacionem a uma tradição do século XV, que parece haver sido lançada na Europa pela corte da França, a qual costumava organizar festas com indígenas e mesmo jovens fantasiados de índios. Isto deu origem à moda do Suavage ou Homme du Bois que se difundiu e transformou-se nos grupos que, durante séculos, nas suas fantasias de penas, acompanharam os manequins do carnaval francês.
Assuadas ou charivaris
No carnaval francês também se observam como aqui as assuadas ou charivaris, de indiscutível função original exorcista, Jean Poueigh no livro O folclore dos países d´Oc, descreve essa manifestação carnavalesca, como conjuntos instrumentais e de berraria, dissonantes, onde se vêem caçarola, frigideiras e utensílios diversos, além da própria matraca. Estes grupos com a mesma violência na execução dos instrumentos, aparecem em nossas ruas neste período, não apenas para fazer assuada, mas participando de cordões, escolas e ranchos, e, sublinha-se, com frigideiras e tudo.