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Tema do Mês

Fevereiro 2009 - Ano XI - nº 121

Sumário

Do entrudo ao carnaval

Entrudo: Era assim que os nossos avós brincavam

Entrudo

Negas da Costa de Quebrangulo

Marchas e sambas de carnaval

Os maracatus de Capiba

Rio de Janeiro em versos de samba

 

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Carnaval

Entrudo: Era assim que os nossos avós brincavam

Até o imperador caía na farra nos três dias — Como Denis descreveu o que chamou de "época que merece reflexão" — "As moças brasileiras têm gênio melancólico e vivem retiradas; mas nesta época parecem mudar de índole", escreveu o francês em uma das obras da coleção L'Univers — Um limão de cheiro vitríolo deu o golpe de misericórdia ao antecessor do lança-perfume.

 

De todas as usanças carnavalescas, a mais nociva foi o entrudo, degenerescência, talvez, das fórmulas purificadoras dos velhos cerimoniais do Levítico, adotadas pelo cristianismo e assimiladas por toda a Europa. Outros julgam que tenha sido importado da Índia pelos navegadores portugueses que o teriam trazido para o Brasil.

A palavra entrudo é uma corrupção de introitus, introdução das cerimônias litúrgicas que têm lugar na quarta-feira de cinzas.

Descrição de Denis

Em 1863, Didot, editor francês, resolveu editar L'Univers, coleção ilustrada de memórias sobre a vida de todos os povos do mundo. Ferdinand Denis, membro da comissão artística que veio ao Brasil no governo de dom João VI, escreveu sobre o Brasil em 376 páginas.

Dele é a descrição do entrudo:

"Como todos os povos habitantes dos trópicos nas épocas de regozijo anual, os brasileiros se entregam sem constrangimento à mais viva alegria, e época alguma merece mais essa reflexão do que a do entrudo.

Esta espécie de carnaval, na qual os ovos de cera desempenham papel principal, começa na segunda-feira de carnaval e vai até a quarta-feira de cinzas. Nesse período de loucura, um amigo me levou a pagar visita, e, desde as primeiras saudações, fomos acolhidos por saraivadas de ovos amarelos e verdes, impiedosamente lançados em nosso rosto por todas as jovens e bonitas senhoras da família. Fomos, então, convidados a chegar às sacadas das janelas e vimos quantos enchiam as ruas, ou fugindo de projétil ou à espreita de vítima. Ao surgir alguém, era no mesmo instante assaltado de todas as direções, e num minuto inundado por torrentes de água; o chapéu da vítima, alvo de milhares de ovos amarelos e verdes. Se, na ausência de agressor, o inundado, por desgraça, se lembrava de parar um instante para livrar o chapéu da saraivada de cera e água, oculta atrás da janela de andar superior, uma senhorita, perdendo o juízo, chegava com uma bacia de água, para atirá-la à cabeça nua do inundado. Ao buscar direção oposta, recebia nova carga e, se fugia para o meio da rua, é provável que duplo dilúvio o encharcasse.

Nas lojas e atrás das portas dos aposentos, homens se escondiam com seringas e avantajadas gamelas contendo vários litros de água, atirando-a sem cessar, reciprocamente, visando ao rosto e ao ventre, e isso com tanto ardor, que a rua, por fim, ficava inundada de ponta a ponta, como se fosse prolongamento da baía. As moças brasileiras têm gênio melancólico e vivem retiradas, mas, nesta época, parecem mudar completamente de índole e, durante três dias, sua gravidade, sua natural timidez se apagam em risadas sem fim.

Algumas vezes, pessoas inundadas a valer e alvo de tamanha quantidade de ovos de cera parecem asfixiadas. A espaços, a farinha entrava em jogo, e um balde dessa substância colorante, caindo sobre o indivíduo, parecia revesti-lo de crosta. Procuravam particularmente para isto negros e mulatos, que, gratificados com tão estranho ornato, ofereciam espetáculo grotesco. O teatro, nesta quadra, vive aberto, e a diversão por nós descrita ali se exalta entre a platéia e camarotes.

O sistema de inundação é levado a tal extremo, que um órgão da imprensa se queixava a sério, manifestando receio de ver esgotadas as fontes. Segundo o redator, os habitantes do Rio de Janeiro, pelo adoidado consumo de água, ver-se-iam privados de uma das coisas mais necessárias à vida, circunstância à qual, aliás, a falta de água sentida pouco tempo antes não deixava de dar probabilidade.

Os estrangeiros, tão numerosos na cidade, parecem escolhidos especialmente para alvo do entrudo; e estes não podem fugir a isto, e a coisa chegou a tal ponto, que o intendente de polícia julgou dever publicar edito, no qual, depois de haver declarado os jogos do entrudo motivo de conflitos e ferimentos graves, por serem tais jogos frequentemente empregados contra a vontade dos indivíduos, advertiu serem diversões semelhantes proibidas nas ruas e no teatro, não podendo mais vigorar em sociedade civilizada. Com efeito, soldados armados foram distribuídos por todos os quarteirões da cidade. Mas a 'sociedade civilizada do Rio de Janeiro', não fez caso algum da ordem, manteve como outrora o divertimento nacional e, francamente, isso era de esperar, o próprio imperador abrindo exemplo. Sabia-se empenhado no folguedo, com seus filhos e seus amigos, enquanto dura o entrudo".

Entre quatro e seis

O máximo do entrudo era entre quatro e seis horas da tarde. De todos os lados só se ouvia o pregão:

Ai vai! Aí vai!
Laranjinha de primô
Compre, Iaiá, laranjinha
Pra entrudá seu amô...

Em 1853, depois que um noivo abandonado jogou um limão de cheiro cheio de vitríolo no rosto da amada, veio a proibição, assinada pelo senhor doutor desembargador Siqueira, chefe da polícia. Pena para o transgressor: quatro a doze mil réis ou dois a oito dias de prisão – para branco; cem açoites, se preto ou mulato.]

Mesmo com a proibição, o entrudo ainda sobreviveu alguns anos. Os limões foram disfarçados em pistolas, relógios e outras coisas – antecedendo o lança-perfume. E cantava-se:

Quem entrudá seu amô
É sinal de intimidade
Iaiá entruda a Ioiô
Para lhe ter amizade

Tentou-se, mais tarde, substituir o entrudo pela batalha de flores, mas estas eram caras e poucas.

("Entrudo: Era assim que os nossos avós brincavam". Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 1957)

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