Em seu clássico livro, Festas e tradições populares do Brasil, Melo Morais Filho dedica um longo capítulo (o terceiro) ao carnaval no Rio de Janeiro. Na terceira edição desta obra informativa (Rio de Janeiro, Briguiet, 1946, p.27-45), há notas interessantes, apostas ao texto pelo mestre do nosso folclore, Luís da Câmara Cascudo.
À página 29, informa Melo Morais que "o carnaval do Rio de Janeiro começou após a proibição do jogo do entrudo pelo desembargador Siqueira, único dos nossos chefes de polícia de quem a tradição repete o nome com segurança e respeito".
Em nota a esse tópico, transcreve Câmara Cascudo o que escreveu, em fevereiro de 1901, Américo Fluminense, na revista Kosmos, onde se lê que: ""A polícia empregou energia perseguindo os entusiastas desse divertimento (o entrudo). Os primeiros resultados dessa perseguição apareceram em 1854, cujo carnaval correu animadíssimo, vendo-se pelas ruas cariocas carruagens com famílias fantasiadas, muitas máscaras avulsas e alguns montando cavalos ajaezados. Dois anos depois, em 1856, o chefe de polícia, dr. Alexandre Joaquim de Siqueira, conseguia reprimir o entrudo".
Há outro informe de Cascudo quanto à data dessa extinção, colhido em Max Fleiuss: "... a 28 de fevereiro de 1851 (...) se aboliu o entrudo grosseiro do tempo colonial, substituído por passeata carnavalesca, com carros alegóricos e máscaras a cavalo em carruagens".
A nota do eminente folclorista de Natal vai mais longe, transcrevendo a portaria que, em 1853, por determinação da referida autoridade, "marca oficialmente o início da campanha vitoriosa": "Fica proibido o jogo do entrudo; qualquer pessoa que jogar incorrerá na pena de quatro a doze mil réis; e não tendo com que satisfazer, sofrerá de dois a oito dias de prisão. Sendo escravo, sofrerá oito dias de cadeia, caso o seu senhor não o mandar castigar no calabouço com cem açoites, devendo uns e outros infratores serem conduzidos pelas rondas policiais à presença do juiz para julgar às vistas das partes ou testemunhas que presenciaram a infração. As laranjas de entrudo que forem encontradas pelas ruas ou estradas serão inutilizadas pelos encarregados das rondas fiscais. Aos fiscais com seus guardas fica pertencendo (...) e o cumprimento desta portaria. Rio de Janeiro, (?) de fevereiro de 1853) Mendes da Costa, fiscal da freguesia da Candelária".
Coincide, até certo ponto, a informação de Max Fleiuss com o que escreveu Machado de Assis numa crônica de 12 de fevereiro de 1893 (A Semana, Ed. Jackson, v.1, p.228): "Os meus patrícios iam ter um bom carnaval – velha festa que está a fazer quarenta anos, se já os não fez. Nasceu um pouco por decreto, para dar cabo do entrudo, costume velho, datado da colônia e vindo da metrópole".
Logo a seguir, Machado nos diz o que era e como era o velho entrudo: "Não pensem os rapazes de vinte e dois anos que o entrudo era alguma cousa semelhante às tentativas de ressurreição, empreendidas com bisnagas. Eram tinas d'água, postas na rua ou nos corredores, dentro das quais metiam à força um cidadão todo – chapéu, dignidade e botas. Eram seringas de lata, eram limões de cera. Davam-se batalhas porfiadas de casa a casa, entre a rua e as janelas, não contando as bacias d'água despejadas à traição. Mais de uma tuberculose caminhou em três dias o espaço de três meses. Quando menos, nasciam as constipações e bronquites, rouquidões e tosses, e era a vez dos boticários, porque, naqueles tempos infantes e rudes, os farmacêuticos eram ainda boticários".
É verdade que havia "episódios de amor que vinham com o entrudo". E um desses relata Machado de Assis: "O limão de cera, que de longe podia escalavrar um olho, tinha um ofício mais próximo e inteiramente secreto. Servia de molhar o peito das moças: era esmigalhado nele pela mão do próprio namorado, maciamente, amorosamente, interminavelmente..."
Voltando às notas de Câmara Cascudo, saberemos que o entrudo, embora "exilado da Corte, viveu otimamente até os primeiros anos do século XX pelas províncias. Laranjinhas, farinha do reino (trigo), pós de sapato (?), aos banhos coletivos e brutos, nos três dias irresponsáveis e delirantes. Na cidade de São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte, em 1886, toda a população se molhou, ruidosamente, num entrudo que ficou famoso. Nem o reverendo vigário, cônego Gregório Ferreira de Lustosa, escapou..."
E aqui no Espírito Santo?
Seria interessante rebuscar os arquivos e os jornais da época a fim de apurar como se passou do entrudo ao carnaval em terras capixabas.