Não tenho opinião alguma acerca do carnaval que passa por ser uma das festas características do Rio de Janeiro. Sei que é uma tradição clássica da longínqua estirpe das bacanais romanas ou do delírio dionisíaco dos helenos, na época jovial das colheitas.
Para mim, a importância do carnaval deve ser estudada por uma comissão, que é o endereço de todas as coisas importunas e adiáveis.
Até que a comissão dê o seu ajuizado parecer, podemos falar sem arriscados compromissos.
Verifico neste momento estar o escritor francês a traçar a biografia e o romance de um grande pintor do século que findou, Eduardo Manet, o chefe e o esteta do "impressionismo".
E o biógrafo nos faz uma revelação surpreendente, é que o "impressionismo" deriva do carnaval do Rio de Janeiro.
Por aqui andou, e era muito jovem o célebre artista. Não teria mais que dezesseis anos de idade e viu o carnaval carioca que o desmoronou como numa estrada de Damasco.
Fulminado pelo espetáculo da vida luxuriante e licenciosa das negras, das mulatas e até mesmo de algumas senhoras brancas, pôde ele achar nessa congérie de sensualismos incontidos as notas cruéis e vibrantes do seu "impressionismo".
Descobriu ritmos ignorados luz e cores que o espectro lhe negava nos climas friorentos do norte europeu.
Renovou portanto, todas as suas noções de ambiente e todas as vibrações de mais pitoresco exotismo que os românticos punham acima de tudo o "exotismo") e criou a sua grande escola de pintura que revolucionou a arte do seu tempo.
Ora, o escritor francês Albert Flament está publicando a biografia e romance do grande artista, à maneira desse gênero de literatura que já produziu uma obra-prima em La vie de Shelley, de Maurois.
É ele quem, nos capítulos de Révue de Paris, segundo a interessante nota de T. L., que leio no Estado de São Paulo, nos surpreende agradavelmente com essa inesperada eficiência do carnaval.
Tem pois, a comissão a que acima aludi de lançar a crédito dos nossos blocos e préstitos o benefício de uma arte que é ainda nova e talvez eterna.
Falta a esse ambiente o entrudo diluvial que desapareceu com as seringas, e os limões de cera, mal substituídos pelas bisnagas de éter.
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