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Tema do Mês

Fevereiro 2008 - Ano X - nº 109

Sumário

O samba carioca não nasceu no morro; conferência de Almirante no Primeiro Congresso Brasileiro de Folclore

O carnaval e o impressionismo

É samba, sinhá

Falando de samba

Mário de Andrade e o samba carioca

A música popular dos vice-reis do estado da Guanabara

 

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Samba

O carnaval e o impressionismo

João Ribeiro

Não tenho opinião alguma acerca do carnaval que passa por ser uma das festas características do Rio de Janeiro. Sei que é uma tradição clássica da longínqua estirpe das bacanais romanas ou do delírio dionisíaco dos helenos, na época jovial das colheitas.

Para mim, a importância do carnaval deve ser estudada por uma comissão, que é o endereço de todas as coisas importunas e adiáveis.

Até que a comissão dê o seu ajuizado parecer, podemos falar sem arriscados compromissos.

Verifico neste momento estar o escritor francês a traçar a biografia e o romance de um grande pintor do século que findou, Eduardo Manet, o chefe e o esteta do "impressionismo".

E o biógrafo nos faz uma revelação surpreendente, é que o "impressionismo" deriva do carnaval do Rio de Janeiro.

Por aqui andou, e era muito jovem o célebre artista. Não teria mais que dezesseis anos de idade e viu o carnaval carioca que o desmoronou como numa estrada de Damasco.

Fulminado pelo espetáculo da vida luxuriante e licenciosa das negras, das mulatas e até mesmo de algumas senhoras brancas, pôde ele achar nessa congérie de sensualismos incontidos as notas cruéis e vibrantes do seu "impressionismo".

Descobriu ritmos ignorados luz e cores que o espectro lhe negava nos climas friorentos do norte europeu.

Renovou portanto, todas as suas noções de ambiente e todas as vibrações de mais pitoresco exotismo que os românticos punham acima de tudo o "exotismo") e criou a sua grande escola de pintura que revolucionou a arte do seu tempo.

Ora, o escritor francês Albert Flament está publicando a biografia e romance do grande artista, à maneira desse gênero de literatura que já produziu uma obra-prima em La vie de Shelley, de Maurois.

É ele quem, nos capítulos de Révue de Paris, segundo a interessante nota de T. L., que leio no Estado de São Paulo, nos surpreende agradavelmente com essa inesperada eficiência do carnaval.

Tem pois, a comissão a que acima aludi de lançar a crédito dos nossos blocos e préstitos o benefício de uma arte que é ainda nova e talvez eterna.

Falta a esse ambiente o entrudo diluvial que desapareceu com as seringas, e os limões de cera, mal substituídos pelas bisnagas de éter.

(Ribeiro, João. "O carnaval e o impressionismo". Para Todos. Rio de Janeiro, fevereiro de 1957)

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