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- I -Uai, o que é folclore? É tudo que dá na gente, principalmente quando não se
quer complicar muito e confia no que foi feito antes para não ter que inventar a moda
outra vez. A casa da gente é folclore. É tomar chá para dor disso e daquilo, comprar
colher de pau para fazer doce, pegar ramo de alecrim - que foi plantado na jardineira -
para temperar. Folclore é a nossa cozinha e a cozinheira. É combinar pipoca com filme,
quando se vai ao cinema ou fica em frente à televisão. É fazer o sinal da cruz quando
passa em frente de igreja e cemitério, dizer que à noite os gatos são pardos, esperar
para ouvir o apito do vigia na madrugada. A gente vai e dorme um pouco mais sossegado.
Taí um jeito que é folclore, mas tem outros modos. Todo mundo conhece simpatia,
benzedeira para tomar passe, costurar o pé, dar susto para curar soluço. E dá-lhe reza,
salmo e vela para saldar promessa. Mas ninguém gosta de contar: folclore é parte de
nosso segredo.
- II -
Coisa das coisas que mais me atrai é folclore feito linguagem, voz e verbo, palavra e
ação. Tem que ver pessoa que é livro e ouvir livro que tem jeito de falar rimado e até
mesmo estropiado. Aquela cadência que a correção não apaga, nem a letra turva...
"Até quando a lua vira sol!" estava escrito no parachoque de um caminhão e me
deixou pensando: quem foi que pintou a frase? E tem tantas imagens nos contos e nos
causos, nas lendas, parlendas e lengalengas, no rimance, na roda e na lorota - que é de
verdade. Foi ouvindo que conheci, lendo e escrevendo que aprendi a colecionar sons e
idéias, de lá pra cá.
Peter O'Sagae
31 anos
São Paulo, SP |
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| A. Carlos -
Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho. |
| JPVeiga - A linhagem da
Cobra Grande |
| Nara Limeira - Entre o
chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão. |
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