Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


O GUZERÁ

Em São José de Campestre
Pertinho de Tangará
Havia um touro da peste
Não gostava de "currá"
Do cercado o gado vinha
Ele ficava por lá
Não voltava o Ventania

Mais parecia ingrizia
A tal situação
E o touro resistia
As ordens do patrão
Que resolveu um dia
Por um fim nessa questão

Do touro queria cria
E ele tinha que fazer
No enfeitado curral
Para todo mundo ver
Pois ali naquele pau
Gastou dinheiro a valer

Era caro pra danado
O famoso guzerá
Poderia ser capado
Ou até mesmo morrer
Se não fosse ali trepar
Perderia seu viver

O bicho sabendo disso
Pôs-se logo a pensar
Não assumi compromisso
Mas me fiz apaixonar
Por uma vaca que é um viço
As outras deixo pra lá

Como aqui o meu capim
Não quero dele a ração
Não saio desse cercado
Gamei pela Aipim
E não sou de traição
Mas não quero ser castrado
Sou bicho de opinião

A coisa virou notícia
Naquela região
Delegado de polícia
Fazia investigação
Mas quem vive também pensa
E assim pensou o patrão
Uma grande recompensa
Resolve de vez a questão

Quem o tirar do cercado
E o trouxer para cá
Seja solto ou amarrado
Um milhão irá ganhar
Pois quero ver o danado
Se recusar a transar

Chamou o padre e o delegado
O primeiro o batiza
O outro vai lhe algemar
Até um outro o exorciza
Mas sou eu quem vai capar

O touro sabendo disso
Pegou a Aipim
E no mato se embrenhou
Isso não é papo pra mim
E logo a vaca emprenhou
E o patrão com rebuliço
O fato não aceitou

Não quero o bicho inteiro
Contrato até um doutor
Gasto todo dinheiro
Se necessário o for
Mas vou rir por derradeiro
Não sinto nada de dor

Não vou usar a torquês
Vou é bater no seu ovo
Comigo ele não tem vez
E digo isso pro povo
Curta Aipim viuvez
E arranje um touro novo

O touro de tudo sabendo
Pois ali tinha fuxico
Parece patrão ta querendo
É usar do furico
Vou meter não me arrependo
A metade em seu rabicho

E se disso ele gostar
Não é meu o compromisso
E se ele engordar
Nada tenho a haver com isso
Vá pra Praça do Ferreira
Lá na terra do Alencar
A risada derradeira
Sou eu quem vai ter que dar

A disputa assim crescia
Já notícia de Pasquim
E logo depois nascia
O bezerro de Aipim
Cujo pai o Ventania
Não comia só capim

Um dia tarde da noite
O patrão foi se banhar
E de repente um açoite
O fez todo arrepiar
Não é motivo pra mote
Mas ali no seu cangote
O touro tava a fungar

A moral dessa história
Não se dá para inventar
Mas que touro tem memória
Não há de se duvidar
É uma coisa ilusória
Pois você não estava lá

Mas não sou eu o patrão
Que o queria capar
Deixo pra ti meu irmão
Podes vir e aproveitar
Um pedaço do rincão
Se isto lhe agradar


João Rodrigues Barbosa Filho
Natal, RN


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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Jangada Brasil é uma revista mensal, exclusivamente online,
dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.