Ano 3 - Setembro 2001 - nº 37

Ilustração Marcos Jardim


Este texto é parte integrante da minha dissertação de mestrado que desenvolvo atualmente na UFPB, dentro da linha de pesquisa "Memória e produção cultural", da área de Literatura Brasileira, cuja orientação está a cargo da professora Dra. Maria Ignez Novaes Ayala.

Nesta pesquisa, pretendo discutir a representação feminina no forró.

O forró pode ser definido como um fenômeno musical originado no nordeste do Brasil, e que buscou sua matéria prima nas danças e ritmos populares comuns àquele espaço geográfico. Sofreu inúmeras (e quase indecifráveis) alterações até chegar ao que, hoje, conhecemos como forró.

Nara Limeira



ENTRE O CHÃO E O CHINELO: O CHIADO EM DANÇA E PERCUSSÃO

A temática do forró é diversa. Cantar os lugares, com a descrição de suas belezas geográficas; homenagear familiares, amigos e mulheres; cantar a saudade de um tempo como a infância ou a mocidade, e ainda, o trabalho, as profissões e suas desventuras; e finalmente, o amor. Este com especial atenção é decantado de modo sofrido, nostálgico, mas também humorístico e malicioso. Muitas vezes serve de crônica do seu tempo, embora no forró, comumente, a temática varie em torno da questão regional e da identidade cultural nordestina.

Partindo desta variedade, percebemos que falar da música, dos instrumentos musicais, dos compositores, do ofício do músico, dos "causos" de festas e noitadas são assuntos recorrentes utilizados pelos compositores do Nordeste.

Seguindo o percurso da festa, foi neste caminho, entre o terreiro e a sala de reboco, que encontramos um som específico emitido através do contato do calçado (geralmente chinela de couro), durante a dança no chão de barro batido. Deste som, resultam várias citações onomatópicas
[1] no forró.

O que não passaria de um detalhe é ressaltado constantemente pelos compositores e intérpretes, tornando-se de tal modo significativo que adentra a temática do forró e integra o repertório de vários grupos e intérpretes, servindo de adereço à percussão e juntando-se a esta para resultar numa massa sonora peculiar – alegremente enfeitada pelo som do chinelo. Sem dúvida, um recurso rítmico alternativo de sensibilidade acentuada em que o canto, a dança, o ritmo, a forma e o conteúdo complementam-se em torno da temática regional.

Mostraremos alguns exemplos deste exercício, dentre vários outros encontrados, de onde poderemos perceber o resultado estético deste recurso. O primeiro recado é o de Jackson do Pandeiro
[2], com a canção "Na base da chinela", de autoria dele e Rosil Cavalcanti, de 1962. Foi regravada várias vezes durante a carreira de Jackson, tendo sido a última em 1980, no LP "Jackson do Pandeiro - São João autêntico". Conhecemos também uma versão mais recente, de Elba Ramalho, no disco "Leão do norte", de 1996.

NA BASE DA CHINELA

Eu fui dançar um baile
Na casa da Gabriela
Nunca vi coisa tão boa
Foi na base da chinela
Eu fui dançar um baile
Na casa da Gabriela
Nunca vi coisa tão boa,
Foi na base da chinela (Refrão)

O sujeito ia chegando
Tirava logo o sapato
Se tivesse de botina
Sola grossa bico chato
Entrava prá dançar
No baile de Gabriela
Tirando meia e sapato
Calçando um par de chinela

(Refrão)

O baile tava animado
Só na base da chinela
Toda a turma disputava

Dançar com a Gabriela

Requebrar naquela base
No salão só tinha ela
Todos convidados ria’
Gostando da base dela
Jogaram no salão
Pimenta bem machucada
O baile de Gabriela
Acabou com chinelada

(Refrão)

[Falando] - Homem, numa pisada dessa eu vou até amanhecer o dia! Só nessa base, a chinelinha no chão!

Apresentada na forma predominante de redondilha maior – versos com 7 sílabas, observamos no decorrer da canção a exceção apenas do 1º verso (com 6 sílabas), o que não compromete o ritmo da canção, que é desenvolvido também pelo acompanhamento instrumental. As rimas, também livremente desencadeadas, não seguem nenhum esquema fixo conhecido, embora com influência marcante da poética popular dos cocos.

Na base da chinela parece preparar um grande cenário onde acontecerão as cenas das próximas canções. O baile de que fala esta canção é, naturalmente, o forrobodó, o baile popular. De caráter intimista, em casa de família, a festa transcorria com a alegria natural dos festejos populares. Ressalta-se, entretanto, a peculiaridade de os convidados, na chegada, despirem-se de meia e sapato para calçar a chinela. Um caráter ritualístico que talvez aponte para a busca do reencontro com as origens nordestinas, pois é através do chiado da chinela que se permite estabelecer toda a atmosfera que rememora ou reafirma a região
[3].

Na obra do grupo Trio Nordestino
[4] aparecem outras leituras indispensáveis, como "Chililique", de J. B. Aquino e João Silva, que está gravada no LP Trio Nordestino, 1974; "Chap, chap", de José Batista Filho e Raimunda Adrelina, que está no LP Trio Nordestino, O Alegríssimo, em 1976; e, finalmente, "O chinelo de Rosinha", de autoria de José Clementino e Paulo C. Clementino, gravada pelo grupo em 1978, no LP Trio Nordestino – Rouxinhos da Bahia.

CHILILIQUE

O maior forró pelo que ouvi dizer
É na praia da ilha, você pode crê (bis)
Que as dez da noite o forró já tá de pé
Sanfoneiro abre a sanfona
Só se vê chegar mulher
Tem buscapé e caldo de feijão no bar
Com meia légua se escuta o som
Do chinelo chiar

É chililique, chililique, chililique
Chililique, chililique
E a poeira a levantar
É chililique, chililique, chililique
Chililique, chililique
Se a gente quer um repique
O cabra no zabumba dá.

Novamente verificamos o acontecimento dentro de um ambiente de festa. Mesmo não identificando exatamente o espaço da cena (apenas cita-se a praia da ilha), aparece de modo acentuado a presença do sanfoneiro e claro, do chiado (aqui chamado de chililique) que "com meia légua se escuta chiar".

A onomatopéia do chiado da chinela, enquanto elemento cultural, assume um papel importante de significações abrangentes, tanto dentro da canção, quanto na festa e seus participantes. Vejamos: A repetição do "chililique" no refrão vai marcando o andamento rítmico da canção assumindo um tom de adereço à percussão. Sua finalidade provável, indicada na dimensão do alcance de longa distância
[5], pode ser o convite para a festa. O chiado do chinelo escutado até "meia légua", transforma-se numa irresistível convocação. Um chamamento para o encontro entre amigos, que compõe o caráter da festa, enquanto interrupção do trabalho e possibilidade de diversão e descontração.

CHAP CHAP

Que noite tão colorida
é a noite de S. João
no terreiro tem fogueira
no céu estrela e balão
os velhos fazem preces
as moças adivinhação
e no salão também tem forró
e os casais dançando
molhadinhos de suor
se ouve o chão
conversando com o sapato
e também o sanfoneiro
cochichando com os passos.

chap chap chap
chinela no chão,
chap chap chap
bota a lenha na fogueira,
chap chap chap
requebrando no salão,
chap chap chap chap
é forró a noite inteira. (refrão)

Já no título aparece o "Chap chap", assim como em "Chililique", mostrando, de cara, a força da onomatopéia contribuindo para representar a linguagem, o ritmo e os costumes. Observamos outro recurso estilístico que chama a atenção: o modo como está definido o chap chap: "... no salão também tem forró (...)/ se ouve o chão conversando com o sapato / e também o sanfoneiro cochichando com os passos...". A prosopopéia [6], insurge como recurso poético relevante, mostrado de forma simples e natural na canção popular.

O CHINELO DE ROSINHA

Dizem que Rosinha gosta muito de dançar
Não pode ver um forró, que ela logo quer entrar
Achei interessante, não deixei de reparar
A sola do chinelo dela, que é danado pra chiar.

É o chinelo, é o chinelo dela
É o chinelo, é o chinelo dela
É o chinelo, é o chinelo dela
A sola do chinelo dela
que é danado pra chiar (refrão)

Já de madrugada quase no fim do forró
Todo mundo já cansado, Rosinha dançava só
O povo admirado formava aquela rodinha
E só falava no chiado do chinelo de Rosinha.


Para concluir, finalmente, destacamos a canção "O chinelo de Rosinha", que compõe este mesmo bloco temático das canções anteriormente expostas, porém, esta, possui um tom levemente malicioso. Aliás, malícia é o que não falta na música nordestina. Mas isto é assunto para outras Jangadas. Naveguemos, pois.

Verificamos que a onomatopéia se estabelece de forma mais sutil – através da aliteração. A repetição insistente do fonema [š] (grafema ch), a exemplo do refrão em que aparece 8 vezes, e este, quando repetido resulta em 16. O resultado sonoro é semelhante ao das outras duas canções: entre o chão e o chinelo – a onomatopéia se faz representada na forma, através da dança, e junta-se à percussão para enfeitá-la. Assim, enche de significados culturais o gênero musical popularmente conhecido como forró.

Este recurso onomatópico pode, ainda, representar uma metáfora maior, em que o chão designa o apego às origens nordestinas, e o contato com ele, a lembrança forte de uma realidade pulsante. O espaço (a região) e os costumes, em memória ou vivência alegram o ambiente de festa e acentuam desta forma o caráter regional como o grande viés temático destas canções.

O que consideramos importante discutir não é apenas a interpretação das letras destas canções, que, na verdade, são simples, mas sobretudo estabelecer a articulação entre elas, formando um bloco temático que aponta na direção da questão regional. Para estes músicos, que divulgaram a música nordestina por todo o país, cantar o som do chiado do chinelo significava permanecer em contato com suas origens – identidade e história fortalecendo a arte e a sobrevivência do ser humano.


Notas

1. Referente a onomatopéia: palavra cuja pronúncia imita o som original da coisa significada. Verbete consultado em FERREIRA, Aurélio Buarque de Holanda, Novo dicionário da língua portuguesa, 2 ed, 7 reimpr. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1986.

2. Para saber mais sobre Jackson você pode acessar o endereço www.digi.com.br/jacksondopandeiro. Este é o primeiro site sobre o gênio do ritmo.

3. O uso de "rememora ou reafirma" está articulado com o contexto industrial (da indústria cultural, inclusive) que desenvolveu-se no Brasil a partir do começo do século XX. O próprio compositor e intérprete (Jackson) saiu do seu espaço originário – o Nordeste, para o eixo Sul e Sudeste do Brasil, levando a música nordestina e projetando-a para a esfera nacional. Deste modo, tornou-se acessível aos vários tipos de ouvintes: os que, como ele, haviam migrado em busca de trabalho para os centro urbanos em desenvolvimento; outros que, ficando no Nordeste, percebiam sua identidade fortalecida através do reconhecimento destes artistas. O país inteiro pôde, a partir dos anos 40, conhecer a música que até então estava restrita ao Nordeste. Neste quadro surgem diversos artistas puxados por Luiz Gonzaga, João do Vale, Grupo Trio Nordestino, Marinês e outros, que adquiriram reconhecimento nacional e admiradores por todos os recantos do país.

4. Sobre o Trio Nordestino você pode acessar o site www.xotenainternet.cjb.net, lá você encontrará vários grupos musicais, dentre eles, um link para o Trio Nordestino.

5. Légua: antiga unidade brasileira de medida itinerária, equivalente a 6.600 metros. A expressão De légua e meia, ou ainda Meia légua pode indicar muito extenso ou extraordinariamente grande. HOLLANDA, Aurélio Buarque, op. cit.

6. Prosopopéia: s.f. Figura pela qual se dá vida e, pois, ação, movimento e voz, a coisas inanimadas, e se empresta a voz a pessoas ausentes ou mortas e a animais; personificação (...).


Nara Limeira
32 anos
João Pessoa, PB


Colaborações

A. Carlos - Bentinho da Samambaia - Cada um cai do cavalo como quer - um causo de David de Carvalho.
Andréia Nery - Benzeduras
Guilhermino de Oliveira Filho - Noite de São João
Itamar Rabelo - Uirapuru.
Lia Marchi - A montanha
Edith Lacerda - Ticumbi
Lenise Resende - Herança
Thelma Regina Siqueira Linhares - Folclore e eu
Virgínia Allan - Duas histórias de assombração
João Rodrigues Barbosa Filho - O guzerá
Gilvan Chaves, Junior - Bem-vindo seja, nortista, uma matutada de Gilvan Chaves
Peter O'Sagae - Folclore
JPVeiga - A linhagem da Cobra Grande
Gutenberg Costa - Agosto: mês de desgraça e desgosto!
Gutenberg Costa - Rezadeiras do Rio Grande do Norte
José Eduardo Ribeiro Moretzsohn - Porrinha
Valéria de Paula - Índios e cantigas
Família Garcia - Seleção de parlendas e adivinhas.
Maria Elisa Guimarães - Um estranho acontecimento narrado por Ana Suzuki
Nara Limeira - Entre o chão e o chinelo: o chiado em dança e percussão.
Rogério Duarte - A mula-sem-cabeça
Luiz Guimarães Gomes de Sá - Frevo, no coração e no pé
Cassiano Santana - Depoimento

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dedicada ao registro e divulgação da cultura popular brasileira e suas diversas formas de expressão.