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O SERINGUEIRO

No início, todos os cearenses levados para o território trabalham como seringueiros. O seringueiro é o trabalhador que extrai a borracha da árvore chamada seringueira (hevea brasiliensis). Trabalha oito meses por ano, de abril a novembro, quando começa a floração. Todos os dias, levanta-se às três da madrugada, deixa no fogo a panela de feijão e sai para correr "as estradas", isto é, para fazer os cortes nas seringueiras espalhadas pela floresta e colocar as tijelinhas para aparar o leite. Essa tarefa leva mais ou menos cinco horas. Ele se arranja para fazer um percurso para recolher o látex das tijelinhas, transferindo-o para um saco de borracha de sua fabricação ou para um balde apropriado.

Às 2 ou 3 horas da tarde, volta para o rancho almoça e começa a defumação do leite recolhido. Se o seringueiro vive sozinho – o que era regra geral no começo – defuma, come e dorme no mesmo rancho chamado tapiri. Atualmente estando com a família, o tapiri serve somente para trabalhar, havendo uma casa ao lado para moradia. O seringueiro gasta umas duas horas na defumação da borracha. O fogo é feito debaixo da terra para que a fumaça saia por um bico ao nível do chão. A melhor fumaça é a de coco de babaçu. O homem que já se cansou o dia todo pelas picadas, por cima e por baixo de paus, deve ainda agüentar essa fumaça que arde nos olhos e enche os pulmões. A bola de borracha é rodada em volta de uma vara de 1,50m de comprimento chamada "cavador". Para iniciar a bola – que chamam também de pela – enrola-se na vara um "tarugo" de goma coagulada no qual o leite gruda facilmente. O homem vai despejando o leite com uma cuia ao mesmo tempo que gira o "cavador" e a bola vai engrossando, cada dia um pouco mais. Uma pela pronta, depois de vários dias, pesa uma média de 50 quilos.

Outro meio de se obter borracha mais depressa consiste em derrubar a árvore, isto, no entanto, só faz com o caucho (Castilhoa Ulei), cujo látex não pode ser tirado aos poucos porque coagula muito depressa. A árvore, depois de derrubada, é toda recortada de cima pra baixo, de maneira que o látex escorra para o chão previamente limpo. Basta depois juntar o látex, deixando-o alguns dias dentro de um caixote feito de quatro tábuas, no próprio local, para acabar de endurecer e tomar a forma de um fardo. Aí então não se chama bola de borracha, mas prancha de caucho.

Para o transporte da borracha, levam-na até a estrada, onde é carregada por caminhão para a cidade mais próxima. Se o seringal se acha perto de um rio navegável, as bolas são amarradas umas às outras com cipós e jogadas na correnteza. Quando se faz necessário, um barco segue segurando o conjunto, o que facilita o desembarque. As bolas são abertas na chegada ao depósito, unicamente para comprovar que o seringueiro não as engrossou com sujeiras, isto é, não falsificou a fabricação.

(THIÉBLOT, Marcel Jules. Rondônia, um folclore de luta)


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