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A POMBINHA E A MOURA TORTA


ra uma vez um moço, afilhado da rainha das fadas. - Vou visitar minha madrinha – disse um dia.

E foi. Esteve no reino encantado das fadas muito tempo, deleitado com tudo quanto via lá. Quando se despediu a fada lhe deu três gamboas das grandes:

- Não abra esses frutos, enquanto não estiver perto de água – recomendou ela, sem explicar para que serviam, nem se continham alguma coisa boa.

Como não é fruta que presta para chupar, pois o caldo é azedo como o quê, o moço encolheu os ombros, meio desapontado com o presente da madrinha, e se foi.

"Podia me dar coisa melhor, mas assim como assim, passei um belo tempo em casa dela."

Foi andando para casa com as três gamboas no surrão, e pensando. Se a madrinha mandou que não abrisse é que era para abrir. "Quando chegasse perto da água." Vou abrir aqui mesmo – resolveu. Estava numa planura pedrenta, empoeirada, sem uma árvore, sem um capim, sem uma poça onde um passarinho pudesse beber. Pegou o facão, zás. Cortou no meio a gamboa. De dentro dela saltou uma linda moça de compridos cabelos e pediu: "Água, água!" "Não tem"– disse o moço. "Espere até encontrarmos um riozinho." Mas a moça foi desfalecendo e suspirando e gemendo e morreu.

O moço foi andando, só com duas gamboas no surrão. "Assim que achar água, abro outra fruta." Andou e andou, e nada de encontrar rio, nem lagoa, nem poço, nem mina. Muito curioso, decidiu aventurar. "Na primeira estava a moça, nesta é capaz de estar outra coisa." Pegou o facão e abriu no meio a segunda gamboa e outra moça mais linda do que a primeira saltou, pedindo logo:

- Água.
- Não tenho, moça.
- Água, pelo amor de Deus.

Muito triste, ele viu a moça definhando, ir se acabando como vela consumida, e gemendo, gemendo, morrer.

"Agora não abro outra sem ser perto de um rio."

Enfiou o pé no caminho e foi, foi, até encontrar um rio límpido, na entrada de uma cidade. Nas margens havia umas pedras redondas. Sentou-se numa delas, e com o facão, zás, cortou a última fruta. Saltou de dentro dela a moça mais linda que seus olhos já tinham visto. Parou de boca aberta, olhando para ela.

- Água! – pediu a moça.

Com a cuia formada pela metade do fruto, apanhou água do rio e deu à moça, que bebeu a grandes goles ávidos.

- Mais.

Depois de saciada a sede, quiseram ir para a cidade, mas a moça não tinha roupa. Estava coberta apenas pela abundante cabeleira que lhe descia pelos ombros, pelas costas, e a envolvia completamente, como uma cascata de ouro.

O moço olhou para todos os lados, procurando um esconderijo. Curvando a galhada para o rio, havia um viçoso ingazeiro, de folhagem cheia.

- Você sobe na árvore e fica lá em cima. Não desça, não fale com ninguém. Vou comprar vestidos para você e já volto.

Foi.

Nesse meio tempo chegou ao rio, com um pote na cabeça, a moura torta. Tinha ido buscar água para a patroa. Era baixinha, corcunda, gorda, vesga, dentuça, tinha a pele escura e o cabelo encarapinhado. Chegou, pôs o pote em cima da pedra e se olhou na superfície da água, mansa e lisa como vidro. O que lá viu, tirou-lhe a respiração.

"Ah! E esse povo diz que eu sou feia! Com esse cabelo dourado e essa pele de leite. E esses olhos de conta. E essas faces de pétala. Não trabalho mais de empregada. Vou casar com o filho do senhor rei."

Agarrou o pote e tan, arrebentou com ele na pedra.

A moça, lá em cima, não se conteve, e uma risada argentina chegou aos ouvidos da moura torta.

- Ahn! Então foi você que eu vi na água. Desça daí, minha pombinha branca. Vem que eu vou lhe fazer cafuné.

A moça desceu, sentou no chão, a negra se ajeitou na pedra, pôs a cabeça da moça no colo, e começou a mexer-lhe no cabelo, dando um estalinho com a unha, de vez em quando, como quem mata piolho em cima da unha. O calor era muito, o mormaço amolecia o corpo, a negra resmungava, resmungava, a moça foi contando a sua historiazinha tão curta, como nascera dentro de uma gamboa, como vira na mesma hora o moço bonito, e bebera água do rio, e estava ali esperando o noivo, para irem se casar.

- Só isso? – perguntava a moura torta, resmungona.

- Só isso. – E com pouco, a moça adormeceu.

Vendo-a abandonada com a cabeça no seu colo, bela como uma flor, a moura torta tirou um alfinete comprido da carapinha, afastou os cabelos da moça, repartindo-os, enfiou-lhe no alto da cabeça o alfinete, resmungando, resmungando.

A moça se transformou imediatamente numa pombinha branca e voou para bem longe. A moura torta sentada estava, sentada ficou.

De tardezinha chegou o moço.

Olhou para a árvore, não viu ninguém. Só aquela feiúra da Moura Torta, em cima da pedra.

- Dona, – indagou aflito – não viu uma moça bonita, de longos cabelos, aqui perto do rio, ou então nesta árvore?

- Sou eu a moça. Sou a noiva que você deixou para ir buscar vestidos.

O moço se espantou: - Mas era tão linda, com pele de leite…

- Ah! Foi o sol que me queimou.

- E de cabelo tão liso e dourado…

- Foram a poeira e o calor que me estragaram os cabelos.

- E os olhos de conta.

- Foi de tanto espiar para o caminho, para ver se você vinha, que meus olhos avermelharam.

- E era desempenada, direita, reta como uma lança.

- Ah! Foi o cansaço que entortou meu corpo.

- E tinha as faces de pétalas.

- O vento crestou a minha pele. E piriricou o meu lábio.

O moço pensou e pensou. Devia ter cuidado mais da moça bonita. Devia tê-la levado consigo. Agora era tarde. A moça do encanto se transformara numa bruxa. Porém, como era moço de uma palavra só, deu-lhe os vestidos, levou-a para casa, casou-se com ela, e tratava-a com todo o carinho. A moura torta dormia em cama fofa, tinha aia, comia do bom e do melhor, banhava-se em banheira de mármore e se vestia de veludo e seda.

Um dia, o moço, chegando à janela, reparou numa pombinha branca, olhando curiosa para o lado dele. Muito tempo ficou a pombinha se balançando no galho. No outro dia, assim que chegou, foi à janela, e lá estava ela, branquinha, espiando. Agradado com seu arzinho petulante, deixava-se estar debruçado ao peitoril, contemplando-a. A moura torta nem dava pela coisa. Ocupava-se em devorar doces e confeitos, em experimentar vestidos bonitos, em alisar a gaforinha com óleos caros e perfumes. Mas um dia, ela reparou.

- Que faz você tanto tempo na janela, todos os dias? – perguntou ao marido.

- É uma pombinha que fica na árvore olhando para cá – contou ele.

- Branquinha? – Ela perguntou.

- É.

- Todos os dias?

- Todos os dias.

- Então é essa mesma que estou com vontade de comer.

- Não diga isso – replicou o moço. – É tão bonita! Chega e fica balançando no galho, nunca faz mal a ninguém. Matá-la para quê?

E então a moura torta começou a chorar que tinha vontade de comer aquela pombinha com arroz. Que se não a comesse com certeza iria morrer. Que ele se incomodava mais com a pombrinha branca, lá do galho do pau, do que com ela, que era sua esposa. E tanto falou, e aborreceu o coitado, que ele, enfadado, prometeu:

- Pois sim. Amanhã faço um laço para pegá-la.

No outro dia, colocou na árvore um laço de barbante e, com muita pena no coração, ficou observando os resultados.

A pombinha chegou, pousou no galho, espiou o laço, tocou-o com o biquinho cor-de-rosa, voou para o ramo mais alto e falou, numa vozinha argentina:

- Se quiser me pegar, só com um laço de prata.

E voou para bem longe.

O moço ficou admirado. Uma pombinha que falava! E aí foi ele que ficou com muita vontade de prendê-la. Mandou fazer o laço de prata e colocou-o no raminho onde ela pousava.

Durante muitos dias, a pombinha não apareceu. No seu posto na janela o moço esperava e esperava.

A moura torta se alegrou. Andava pelo meio da casa casquinando uns risos desafinados.

Mas um dia, a pombinha arisca apareceu novamente na árvore. Lá estava o laço de prata. O moço a viu. A avezinha pousou, longe do laço, deu uns passinhos no galho, parecia alegrinha, muito buliçosa e trêfega. E falou, falou assim, ele ouviu:

- Se quiser me pegar, ah! Só com um lacinho de ouro.

- Com que então, de ouro, preciosa pombinha? Volte amanhã.

Ela desferiu o vôo, alto, para bem longe. E passou muitos dias sem voltar.

Na tarde em que veio, estava o moço à janela, esperando, e um lacinho de ouro, no galho.

A pombinha bateu o biquinho cor-de-rosa no laço e falou:

- Se quiser me pegar, é só com um lacinho de brilhante.

E tornou a partir.

No lacinho de brilhante ela caiu. Parecia fascinada com o reluzir das pedras, e foi chegando, e foi chegando, e depois, deliberadamente, estendeu o pezinho e se deixou prender.

Correu o moço e segurou-a. A moura torta logo, com sua desafinada voz fanhosa queria agarrá-la e matá-la de uma vez.

- Deixe-a – disse o moço. – É tão bonita! É tão macia. Olhe. Parece que me ouve. Vê os seus olhos. Que queria você comigo, pombinha, para assim procurar cair no laço?

A pombinha arrulhava, rumrrumrrum – no fundo da garganta, mas não respondia.

- E você fala – tornava o moço. – Eu ouvi que queria um laço de prata, depois um laço de ouro, depois um laço de brilhante.

E a pombinha:

- Rumrrumrrrummmm.

- Ou sonhei? – perguntou o moço.

- Foi sonho – saltou a moura torta. – Dá-me a pombinha, quero comê-la.

O moço foi passando a mão pelo pescocinho de plumagem fofa, depois pela cabeça. Parecia que a pombinha estava gostando. Fechava os olhinhos de conta, demorava com eles fechados, e o arrulho se fazia gentil e suave: – rumrrumrrrummmmmm.

E então, de repente, os dedos do moço tocaram uma coisa dura.

- Que é isso? – Separou as peninhas. – Uma cabeça de alfinete – disse, muito admirado. – Ela faz você sofrer, pombinha? Quem foi o malvado que fez isso? Quem foi?

Arrancou o alfinete. Uma gotinha de sangue manchou a alvura da cabecinha da ave. Parecia que ela começava a crescer. As plumas se douravam, se afinavam, se alongavam. Arredondava-se o colo. Estendia-se o corpo. E num instante, estava junto do moço, aquela bonita mulher que ele deixara à beira do rio.

A moura torta quis fugir, não deixaram. Puseram a malvada numa barrica cheia de navalhas abertas e fizeram-na rolar morro abaixo. Ela se cortou e morreu.

O moço casou com a moça, tiveram muitos filhos e felizes viveram muitos anos.

(Extraído de GUIMARÃES, Ruth. Lendas e fábulas do Brasil)

 

Ilustração de Santa Rosa. In ROMERO, Sílvio. Contos Populares do Brasil.

 

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