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Ano VIII - Edição 83
Outubro de 2005
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Orações

Manuel Diegues Júnior

Orações para curar reumatismo, dor de dentes ou engasgo, para envultar, para estancar sangue, para defender-se de armas de fogo, para curar bicheiras de animais ou mordedura de cobra, contra mau-olhado ou contra quaisquer perigos, são muitas as que se espalham entre as populações incultas. Também sobrevivências dessas orações vamos encontrar entre populações cultas. O uso de orações fortes para delas receber influências contra perigos ou ameaças ou doenças, é comum no meio dos brasileiros, nas diversas camadas culturais.

Aliás, o uso de orações fortes determina uma série de restrições por parte da pessoa que as possui. Dentre estas restrições recolhem-se, na tradição popular, as de não dever atravessar rio ou riacho, ou passar por cima de cerca, não beber água em fonte ou riacho, apanhando-a com a mão, assentar-se em pedra de mó ou em batente de porta, ser amasiado ou visitar mulheres em dia de sexta-feira: também é vedado benzer-se três sextas-feiras seguidas e tomar banho dia de sexta-feira. Ainda: não ensinar orações. Praticar qualquer desses atos equivale a privar-se da influência da oração que a pessoa conduzir.

No campo do folclore o capítulo das orações é muito vasto e creio que ainda não se fez, no Brasil, uma coletânea completa desse material. Rodrigues de Carvalho, Daniel Gouveia, Sílvio Romero, Pereira da Costa, João Ribeiro, Alberto de Faria, Gustavo Barroso, para citar alguns nomes que me ocorrem no momento, incluíram alguns exemplos de orações em suas coleções folclóricas. Todavia, ainda não de modo a cobrir todo o material existente. Pois trata-se de um manancial farto e variado, que se traduz, principalmente, na crença ingênua do povo em que tais orações têm origens religiosas. De algumas delas, diz-se igualmente, que foram ensinadas por Jesus Cristo.

Esta última impressão talvez se origine do fato de orações católicas encontrarem sua fonte na Bíblia, isto é, como ensinamentos da história cristã, recolhidas no Testamento. O caso da Ave Maria, que, em grande parte, procede das palavras trocadas entre Isabel, mãe de João Batista e a Virgem Maria.

Por outro lado, nas chamadas orações fortes, aparece com muita insistência o nome de Jesus Cristo, ou o de santos. Esta circunstância contribui igualmente para que se lhe dê ligação aos princípios cristãos, através da herança milenária dos povos, recolhendo e transmitindo, século após século, as sobrevivências de práticas religiosas primitivas. Práticas que vamos encontrar em povos incultos através dos seus pajés ou feiticeiros, como entre os indígenas brasileiros, ou dos seus babaós ou babalorixás, entre tribos africanas.

Um exemplo de oração para envultar onde aparecem o nome de Deus e o da Virgem Maria:

Meu Senhor Deus ressuscitado
Nunca mais eu hei de morrer
Com graça para o servir
Lançai-me a vossa bênção
Senhor Deus eu quero seguir
Eu vou seguir esta viagem
Deus adiante e a pés na guia
Eu vou viajando
Com Deus e a Virgem Maria

Outras orações para envultar incluem igualmente o apelo à proteção da Virgem, invocando, aliás, a circunstância de, na fuga para o Egito, a Sagrada Família se ter tornado invisível aos seus perseguidores. O fato contribui para tornar mais efetivo o rogo à Nossa Senhora, apegando-se ao que com ela sucedeu para que também o portador da oração se torne "envultado" aos inimigos. O certo é que figura sempre a invocação a Deus ou à Nossa Senhora nas orações para envultar.

Também em outras orações para curar reumatismo, dor de dentes ou engasgo, se invocam os poderes de Deus e dos santos. Numa oração para curar dor de dentes, aliás, bastante conhecida, encontramos invocação a São Nicodemos. Escreve-se na areia e se vai apagando seguidamente cada palavra:

São Nicodemos, sarai este dente!
Nicodemos, sarai este dente!
sarai este dente!
este dente!
dente!

A São Frutuoso apelam os que sofrem fraturas ou luxações. Esta oração é uma das mais antigas que se conhecem, registrada em várias coletâneas folclóricas.

Diz ela:

Carne trilhada
Nervo torcido
Ossos e veias
E cordoveias
Tudo isso eu coso
Com o louvor
De São Frutuoso

Muito conhecida, também, é a oração para cura de engasgo:

São Brás bispo
Vigário de Cristo
Foi palavra que Deus disse
Meu engasgo descesse ou subisse

A invocação, nesta oração, a São Brás deve ligar-se ao fato de ser este santo venerado como advogado contra as doenças da garganta. Em Portugal correm a respeito de São Brás alguns versinhos, dos quais em trabalho de Leite de Vasconcelos recolhi estes dois:

São Brás de Caravelas
Te aperte as goelas

São Brás te afogue
Já que Deus não pode

Em Portugal ainda foi registrada por Leite de Vasconcelos a tradição de que muita gente sente dor de cabeça quando passa uma nuvem, na qual — admite a imaginação popular — vai um excomungado: é reflexo ou influência do ar ruim deste excomungado. Usa-se então, para livrar-se do ar do excomungado e de outras coisas más, rezar três vezes a seguinte oração, fazendo-se três cruzes da testa ao ventre e de ombro a ombro:

Jesus Cristo nasceu
Jesus Cristo morreu
Jesus Cristo ressuscitou
E assim como é verdade
O Senhor me tire esta dor
Este mau olhado
De vivo, de morto
Ou de excomungado
Pelo poder de Deus
E do senhor Santiago

Evidentemente este Santiago é invocação ao santo, um dos mais estimados pelo povo ibérico. De modo que entram nesta oração além de Deus, Jesus Cristo e Santiago ou São Tiago. Também em Portugal usa-se esta aproximação com os santos para as orações populares destinadas à cura de doenças.

Muitas são as orações para curar mau olhado ou para defender-se de perigos ou de doenças. Aliás, as contra  mau olhado são possivelmente as mais conhecidas e difundidas no Brasil. Há também as orações destinadas a livrar a pessoa de armas de fogo ou armas brancas. Há mesmo orações especiais com referência à espécie de arma, como por exemplo sobre arma de espoleta. Para a defesa contra arma de espoleta é recomendada esta oração, em que se invoca a Jesus Cristo:

Jesus foi nascido
Jesus nascido é
Entre o ouvido e a espoleta
Jesus está em pé

 

(Diegues Júnior, Manuel. "Orações". Diário de Notícias, 06 de agosto de 1950)
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