Em Pernambuco ouvi, sendo criança, uma pitoresca história, relativa a esse esplêndido assunto das orações ou dos ensalmos.
Em certa fazenda sertaneja apareceu, certa noite, pedindo pousada, um sujeito que montava um cavalo alazão. Acolheram-no, e o viajante foi dormir no quarto que lhe era destinado.
Alta madrugada acordou, com um rebuliço horroroso dentro de casa. Levantou-se e procurou informar-se acerca do que estava acontecendo. Disseram-lhe que a dona da fazenda, havia muitas horas já, se achava padecendo os atrozes sofrimentos de um parto dificílimo. O viajante propôs-se então a dar uma solução aquele drama, conhecia uma oração que era infalível para fazer nascer o menino mais encruado. Estabelecia porém, duas condições. A primeira, era que a oração tinha de ir encerrada, num bentinho, este bem cosido a fortes linhas... para jamais, em tempo nenhum, ser aberto... A segunda era que o bentinho só poderia servir para aquela pessoa determinada... Aceitas as condições, foi a oração escrita em um papel; e este, depois de bem dobrado, encerrado num bentinho.
Posto o bentinho no pescoço da parturiente, o efeito foi milagroso; logo nasceu, com a maior felicidade, um lindo e gordo pimpolho.
No dia seguinte, entre os agradecimentos do novo pai satisfeitíssimo, carregado de presentes, o homem montou no seu cavalo e partiu.
Tempos passaram, e certo dia, o drama daquela velha noite reproduziu-se. Era, agora, a irmã mais jovem da fazendeira, que também estava a sofrer dores atrozes, sem conseguir dar nascimento a um filho.
Foi então que uma pessoa da família se lembrou do bentinho miraculoso, e aconselhou que o pusessem no pescoço da moça.
— Mas como, se o homem que o dera havia dito que aquele bentinho só valia para a fazendeira, e que se fosse emprestado a outra parturiente apenas pioraria os sofrimentos?...
Conversaram as pessoas da família, e ficou resolvido que, como último recurso, abririam o bentinho e lhe ropiariam a oração, que poriam no pescoço da nova partiruente, tal como o homem, outrora fizera com a primeira.
Com extremos cuidados, com esse amor com que devemos tocar nas coisas sagradas, uma senhora caridosa desfez, um à um, os pontos do bentinho. Aberto este, tomou entre os dedos o papel dobrado, em que estavam escritas as palavras mágicas. E quando desdobrou o papel, pode ler os dizeres da reza poderosa. Eram estes:
Coma eu e meu alazão,
Quer essa mulher pára, quer não.
Haverá outros remédios populares de igual força e poder, ou talvez ainda superiores a esse.