Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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Engraxadores

Mário Sette

Engraxar sapatos sentado e lendo revistas é um luxo moderno. Antigamente era em pé e numa ponta de calçada, de preferência esquina. Com um pé em cima da caixa e outro no chão. Posição incômoda e quiçá ridícula, máxime se o freguês estava de fraque e cartola.

Os engraxadores eram todos italianos, morando nos Coelhos.

Esfregando os sapatos cantarolavam trechos de óperas de Verdi ou Belini. Sempre de coletes, sem paletós. E a chamar a freguesia:

— Graxa, freguês. Amarela!

O sapato amarelo constituía uma novidade para os rapazes e um escândalo para os velhos que só usavam botinas de elástico. Quanto ao sapato branco, esse dava uns ares suspeitos à masculinidade de quem os usava...

O engraxar botas naquele tempo tinha uma outra utilidade que não somente a da limpeza: a de apadrinhar namoros. Quem tivesse sua namorada por perto, ficava ali uns minutos com os pés entregues ao italiano e olhando para a pequena, como quem não quer nada...

Um sorriso, um aceno, um piscar de olhos...

E ainda por cima só se pagava um tostão.

(Sette, Mário. Maxambombas e maracatus. 3ª ed. Rio de Janeiro, Casa do Estudante Brasileiro, 1958, p.316-318)
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