Engraxar sapatos sentado e lendo revistas é um luxo moderno. Antigamente era em pé e numa ponta de calçada, de preferência esquina. Com um pé em cima da caixa e outro no chão. Posição incômoda e quiçá ridícula, máxime se o freguês estava de fraque e cartola.
Os engraxadores eram todos italianos, morando nos Coelhos.
Esfregando os sapatos cantarolavam trechos de óperas de Verdi ou Belini. Sempre de coletes, sem paletós. E a chamar a freguesia:
— Graxa, freguês. Amarela!
O sapato amarelo constituía uma novidade para os rapazes e um escândalo para os velhos que só usavam botinas de elástico. Quanto ao sapato branco, esse dava uns ares suspeitos à masculinidade de quem os usava...
O engraxar botas naquele tempo tinha uma outra utilidade que não somente a da limpeza: a de apadrinhar namoros. Quem tivesse sua namorada por perto, ficava ali uns minutos com os pés entregues ao italiano e olhando para a pequena, como quem não quer nada...
Um sorriso, um aceno, um piscar de olhos...
E ainda por cima só se pagava um tostão.