Jacó desprezou duas irmãs, Lia e Raquel, o que é diversamente explicado por padres e doutores. Tomarei somente o que convém à história, isto é, que Deus tem duas filhas, a Natureza e a Graça, que dá por esposa aos seus escolhidos.
A Natureza é imperfeita, porém fecunda como Lia: a Graça é de formosura inexcedível, porém estéril como Raquel. Ambas são irmãs: basta vê-las para reconhecer-se, e como tais são seus filhos-irmãos germanos, diferençando-se apenas por linhas diversas, isto é, num ponto de cerimônia, nas últimas homenagens prestadas a seus parentes, reconhecemos facilmente a verdadeira religião e os seus herdeiros.
Acha-se isto tão naturalmente gravado no fundo da alma nas nações as mais bárbaras, que serve de argumento muito positivo para provar acharem-se em verdadeira graça os que prestam aos seus defuntos.
Em caso contrário, prova-se que estão em poder do gentilismo, e em oposição ao instinto puramente natural, imitando neste caso os brutos, não fazendo caso dos seus amigos falecidos, especialmente da sua alma, melhor parte de sua composição.
É a maldição dada por Jó, no capítulo 18 — Memoria illius pereat de terra, et non celebrateur nomen ejus in plateis, "desapareça da terra a sua memória, e nem seja seu nome pronunciado na rua".
Symmachus explicando, diz: Non erit nomen ejus in faciem fori, "nem seus amigos se recordarão deles", grande maldição visto que os povos os mais selvagens do universo, que são os habitantes do Brasil, nada mais receiam após a morte do que não serem chorados e lamentados, isto é, que para eles, na morte, não hajam da parte dos seus parentes, lágrimas, lamentações e outras cerimônias, embora supersticiosas.
Quando se acham muito doentes estes selvagens, e por seus parentes julgados em perigo de vida, perguntam-lhes o que desejam comer antes de morrer e saciam-lhes o desejo.
Enquanto doentes, alimentam-se com farinha de mandioca e ionquer, pimenta da Índia misturada com sal, julgando com tal dieta, abuso inaudito entre eles, recobrarão a antiga saúde.
Vi um homem e uma mulher da nação dos tabajares, que tinham só a pele e ossos, parecendo-me terem apenas vida por dois dias, e por isso os batizei logo, apenas me pediram, e escaparem da morte tomando três caldos.
Quando chega a hora da morte, reúnem-se todos os seus parentes e, geralmente, todos os seus concidadãos, cercam-lhe o leito de moribundo os parentes mais perto, depois os velhos e as velhas e assim de idade em idade: não dizem uma só palavra, olham-no com toda a atenção, banham-se de lágrimas constantemente; mas apenas a pobre criatura exala o último suspiro, dão berros e gritos, fazem lamentações compostas por uma música de vozes fortes, agudas, baixas, infantis, enfim, de todo o gênero, que infalivelmente enternece todos os corações, embora sejam naturais todas essas dores e lágrimas, sem conhecimento do bem e do mal que poderá gozar esse espírito desprendido do corpo morto.
Depois de muitas lamentações, o principal da aldeia ou o principal dos amigos fazia um grande discurso muito comovente, batendo muitas vezes no peito e nas coxas, e então contava as façanhas e proezas do morto, dizendo no fim: "Há quem dele se queixe? Não fez em sua vida o que faz um homem forte e valente?"
Conto isto porque presenciei-o três ou quatro vezes, lembrando-se de haver lido e notado em Políbio, livro 6, e em Deodoro da Sicília, livro 2 capítulo 3º, terem os antigos romanos o costume de levarem seus defuntos à praça pública, e aí o filho mais velho da casa, ou o principal herdeiro, em falta de filhos machos e de maior idade, subia a uma espécie de teatro, e desfiando todos os louvores que podia fazer ao morto, seu parente, desafiava todos os assistentes para que o acusassem, se pudessem, a fim dele defendê-lo, e depois convidava-os a acompanharem o corpo até a sepultura.
Voltemos aos nossos selvagens. Acabado que seja o choro e o discurso, tomam o corpo, já cheio de penas na cabeça e nos braços, uns o vestem com um capote, outros lhe dão um chapéu, se o há, trazem-lhe o macinho de petun, seu arco, flechas, machados, foices, fogo, água, farinha, carne e peixe, e o que em vida ele mais apreciava.
Faziam depois um buraco fundo e redondo em forma de poço: assentavam o morto sobre seus calcanhares, conforme era o seu costume, e à cova desciam-no de mansinho, acomodando ao redor dele a farinha e água, a carne e o peixe ao lado de sua mão direita, a fim de poder pegar em tudo com facilidade, e na esquerda arrumavam os machados, as foices, os arcos e as flechas.
Ao lado dele faziam um buraco, onde acendiam fogo com lenha bem seca a fim de não apagar-se, e, despedindo-se dele, o incumbiam de dar muitas lembranças a seus pais, avós e amigos, que dançavam nas montanhas, além dos Andes, onde julgam ir todos depois de mortos.
Uns dão-lhe presentes para levarem a seus amigos, e outros lhe recomendam, entre várias coisas, muito ânimo no decorrer da viagem, que não deixem o fogo apagar-se, que não passem pela terra dos inimigos, e que nunca se esqueçam de seus machados e foices quando dormirem em algum lugar.
Cobrem-no depois, pouco a pouco, com terra e ficam ainda por algum tempo junto à cova, chorando-o muito e dizendo-lhe adeus: de vez em quando aí voltam as mulheres ora de dia ora de noite, choram muito e perguntam à sepultura se ele já partiu.
A propósito, contarei três histórias interessantes.
Enterraram um bom velho em distância de cinqüenta passos de minha casa. Dia e noite consumiam-se as velhas com seus choros.
Para adquirir sossego, lembrei-me de mandar esconder numa moita em caminho, perto da cova, dois rapazes franceses que comigo moravam. Mais adiante mandei também esconder dois escravos nossos, a quem ensinei o que deviam fazer.
À noite, todos ocuparam as suas posições e no fim de um quarto da hora vieram as velhas, todas juntas, e que principiaram a gritar na cova; responderam os franceses imitando Jeropari, e elas cheias de susto dispararam a correr, e quando no caminho encontraram outros dois Jeropari, redobraram de esforços, e saltando por abrolhos e espinheiros chegaram a casa mais mortas do que vivas, e aí sobressaltando a todos, mandaram fechar as postas para que não entrassem o tal Jeropari.
Estava eu perto e muito gostei desta comédia por alcançar sossego, visto não regressarem mais as velhas.
Morreu um selvagem e foi enterrado na estrada perto de São Francisco, lugar no forte de São Luís.
Fora batizado antes da sua morte, e contudo, sem ciência nossa, enterraram-no aí e com as cerimônias que já descrevi. Mortifiquei-me muito com isto, ralhei bastante, porém não pude descobrir o culpado por já haver decorrido três ou quatro dias.
Passando por aí, achei sua mulher que voltava da roça, assentada sobre a sepultura, chorando amargamente, e espalhando nela algumas espigas de milho.
Indagando-lhe o que fazia, respondeu-me estar perguntando a seu marido se ele já tinha partido, porque receava haverem amarrado muito as suas pernas e não lhe terem dado a sua faca, pois havia levado consigo apenas o seu machado e sua foice, e que lhe trazia o milho para comer e partir, no caso de já não ter mais provisões.
Fi-la sair, mostrando, como pude, a sua ignorância e superstição.
Faleceu um menino com doença no ventre, de dois anos de idade, e duas horas depois de batizado.
Eu, o senhor De Pézieux e outros franceses, fomos amortalhá-lo num lençol de algodão.
Encontramos o corpo cercado por muitas velhas, fazendo algazarra capaz de quebrar uma cabeça de aço, carregado de miçangas, que trazem para aí os franceses, e de muitos búzios, de que usam nos seus adornos e enfeites para as grandes festas.
Não pudemos convencer às velhas a fim de serem tirados tais enfeites, e sendo assim mesmo conduzido numa prancha por um francês, fizemos o seu funeral à maneira da Europa, levando o seu corpo à capela do forte de São Luís, onde recitamos as orações prescritas pela igreja para esse fim.
Seguiram-nos as velhas de bem perto e, não se animando a entrar, começaram a entoar uma música tão alta e forte, que não nos entendíamos dentro da igreja.
Impusemos o silêncio e foi o corpo enterrado no cemitério junto à capela.
As velhas se meteram entre os franceses, umas trazendo fogo, água, farinha e outras o mais que já dissemos, para o caminho, o que mandei deitar fora fazendo-lhes ver a asneira por intermédio do intérprete.
Recolheram-se às suas casas, onde se fartaram de chorar.