Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
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A armação das baleias

Carl Seidler

Como referi, eu residi a princípio durante a minha estada em Santa Catarina numa casa de campo de situação encantadora e talvez pela primeira vez no Brasil eu tinha inteiro motivo de me sentir satisfeito; essa felicidade, porém, não havia de durar muito. Estavam naquele tempo seis batalhões de caçadores em Desterro e arredores, dos quais por falta de acomodação sempre um era destacado por dois meses para Armação das Baleias (sic), a sete léguas da capital; por desgraça, pouco depois de minha chegada tocou a vez ao meu batalhão — troca horrível. Sabíamos tudo quanto havia de ruim dessa famigerada “cova do inferno”, e havíamos de achá-la ainda pior do que nos tinham contado.

Como a Armação fica no continente, era preciso transportar em grandes botes as tropas através do Estreito (sic), de 300 a 400 passos de largura, que separa a ilha do continente, e os cavalos dos oficiais tinham que passar a nado. Muitos desses pobres animais só a custo alcançavam a outra margem e tão extenuados que nesse dia não podiam carregar seu cavaleiro. Dali marchávamos até a insignificante cidadezinha de São Miguel, onde apesar do mau tempo as ruas e janelas apresentavam centenas de pessoas; todos queriam ver cara a cara as tropas estrangeiras, os novos vitoriosos defensores da pátria. Os soldados foram aí aquartelados num paiol, em mau estado, extremamente imundo e os oficiais na maior parte se dirigiram para o único café existente no localidade, e molhando o estômago trataram de esquecer a molhadela da roupa e os febris tremores de frio. Na manhã seguinte, depois de escorchados na forma do louvável costume pelo amável dono da casa, continuamos a marcha muito cedo e por causa do mau tempo e da estrada montanhosa tivemos de acampar numa olaria arruinada, onde passamos noite horrível, e só no terceiro dia alcançamos o nosso destino provisório. Era de aspecto triste, deserto.

Além de alguns negros, que pareciam quase da idade de Matusalém, não se via viva alma. Para quartel nos foi indicado um grande edifício, comprido, cercado de muro bastante alto, e dividido em dois quadros iguais; os oficiais foram repartidos, aos dois e aos três, em alguns ranchos isolados, pois não se podiam chamar de casas, visto que no mínimo uma casa exige porta e janela, telhado e divisão interna. Todos ainda possuíamos algum dinheiro, mas nada podíamos adquirir com ele, a não ser um pouco de café e aguardente de cana; pão não havia absolutamente. Isto foi depois remediado, pois quando alguns especuladores espertos da localidade mais próxima cheiraram que aqui podiam ganhar alguma coisa, vieram da ilha em grandes botes a nos abastecer das coisas mais necessárias, se bem que a preços exorbitantes. E havia outros males que não podiam ser removidos facilmente e que nada ficavam a dever às pragas das terras dos faraós. Inúmeros ratos, formigas, cobrinhas escorregadias e outros bichos no seu tirânico período ruminante não consentiam, nem de dia nem de noite, que um só instante pudéssemos descansar em paz. Pulgas enormes saltavam tão atrevidas e numerosas que as calças brancas, mal se entrava no quartel, ficavam pretas até o joelho, e os pobres soldados, no meio da noite despertados em seu sono letárgico por esses picantes hematófagos, tinham que fugir e deitar-se ao relento. Uma das maiores pragas eram os bichos de pé, já diversas vezes mencionados, que em nenhum outro lugar do Brasil achei em tal abundância como nesta desgraçada Armação. Em vão empregávamos todos os meios imagináveis para nos livrarmos desses indesejáveis e imundos hóspedes; nem as mais freqüentes fricções de drogas, nem o mais espesso calçado impedia a penetração deles. Ainda me lembro muito bem de que havia soldados que num dia extraíam 30 e 40 saquinhos desse bicho, cheios de ovos, cada um dos quais saquinhos deixava um buraco do tamanho duma ervilha, extração muito dolorosa, e já no dia seguinte número igual se alojara, notadamente nas unhas e nos calcanhares. Acontece que com toda a habilidade na operação, a agulha ou canivete bem ponteagudo rompe a bolsa e ficam alguns ovos no buraco; então resultam feridas horríveis que muitas vezes até causam a perda do dedo. Para evitar isso, muitos de nós nos limitávamos a abrir o saquinho cheio daquela criatura do diabo e lhe deitávamos em cima, em grosso, um pouco de mercúrio, o que mata instantaneamente o bicho e destrói seus ovos; mas o seu uso freqüente é nocivo. Nunca pude compreender como esse inseto tão pequeno penetra através do melhor calçado e em dois ou três dias põe alguns centos de ovos, cada um dos quais é quatro a cinco vezes maior que o bicho.

Para encher a medida dos nossos males éramos atormentados por um tédio mortal. Não se podia manobrar, porque não havia espaço naquela panela cercada de montanhas; em leitura nem se podia pensar, pois de que maneira haveria de desgarrar-se um livro nesse deserto? Querer fazer passeios a pé seria demasiado penoso, porquanto todos os caminhos horrivelmente malgradados e íngremes serpeavam pela serra. Destarte, por dois meses inteiros nos vimos forçados a jazer sobre o couro do urso e durante todo esse tempo respirar uma fedentina e uma atmosfera mefítica, que bem facilmente poderia ter desencadeado uma peste.

Esta Armação, outrora propriedade particular dos reis de Portugal, aqui instalada por causa da pesca da baleia, antigamente lhes rendera por ano a soma de 400.000 piastras espanholas. Os amplos edifícios, onde agora aquartelavam os nossos soldados, eram a moradia do arpoadores; debaixo do antigo assoalho havia grandes abóbadas de alvenaria, onde se guardava o azeite das baleias até que houvesse quantidade bastante para embarcar nos navios.

É um fenômeno natural impressionante, mas muito sabido, que as baleias mudam seu habitat cada vez mais em direção ao pólo sul, tanto que agora nessa armação, em vez das 400 a 500 baleias atuais, só se pescam seis a oito, de modo que há muito tempo aquelas abóbadas não se enchem. E há oito ou dez anos o azeite podre, com espessura de um pé, restava ali e espalhava através das juntas abertas aquele cheiro repugnante que empestava toda a redondeza. Até o tanque, onde se deixavam os peixes a apodrecer para depois separar facilmente a carne do esqueleto não fora limpo, e desenvolvia como relaxada estrumeira os mais deletérios gases. Como ultimamente o rendimento não chegasse para pagar devidamente o administrador vitalício e matar a fome aos negros arquivelhos e incapazes de todo trabalho, o governo intimidado pelo aspecto econômico deixou de importar-se com a Armação e parece firmemente resolvido a deixar decair completamente esta improdutiva. instalação.

(Seidler Carl. Dez anos no Brasil. 3ª ed. São Paulo, Livraria Martins Editora; Brasília, Instituo Nacional do Livro, 1976, p.230-231)
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