Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 84
Novembro de 2005
Artigos deste mês em Cancioneiro
Trovas funerárias ciganas (Merendis), colhidas por Melo Morais Filho

O preguiçoso, (duas versões do folclore sergipano)

Milho cozido, por Afonso A. de Freitas



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Trovas funerárias ciganas (Merendis)

Colhidas por Melo Morais Filho

Como as aves que vagueiam
No seio da noite escura
Assim serão meus suspiros
Sobre a tua sepultura

Eu sou triste como o luto
Que cobre os tenros filhinhos
Que na pobreza perderam
Da terna mãe os carinhos

Dizem que almas não morrem
São imortais... não têm fim...
A minha faz exceção
'Stá morta dentro de mim!

Eu sou a tocha do morto
Com a luz já quase extinta
Ou como a negra mortalha
Que por preta não se pinta

Brilhava em céu azulado...
Negra nuvem me toldou...
Por perder quem me seguia
Minh'alma aflita chorou

De tanta terra enfeitada
A terra que menos brilha
É a porção que hoje cobre
Os restos de minha filha!

Erguei-vos flores da noite
Tristes rosas da manhã
Velem umas sobre as outras
O túm'lo de minha irmã

Sempre foste minha estrela
Eu com gosto te seguia
Na tormenta te apagaste
Fiquei sozinho e sem guia

Envolto em tua mortalha
Meu coração tu levaste
Antes contigo se fosse
A vida que me deixaste

Morreste silencioso
De ninguém te despediste
Do mundo nada quiseste
Ao mundo nada pediste

A minha alma não morreu
desfaleceu no transporte
Na ocasião do gemido
Que meu irmão deu na morte

Ó minha irmã Felisberta
Se com a nossa mãe falares
Não contes meu sofrimentos
Pra não lhe dar mais pesares

Desabrochou de manhã
De tarde se despediu
Fiquei na noite sombria
Por ela onde sumiu

Meu filho, nada te fiz...
Por me faltar a ventura
Foste pedir agasalho
Na terra da sepultura

Minha mãe, entre seus filhos
Se lembre de mim um dia
Que dos ramos que eles formam
Eu sou a flor mais sombria

Descansa, esposo querido
A par de Deus tão divino
Pede-lhe, sim, que melhore
O meu infeliz destino

Quando morreu minha Rosa
O mundo ficou sem luz
Porém ficou minha mãe
Pra carregar minha cruz

Num ermo triste, isolado
Eu choro minha orfandade
Pois assim deve fazer
Quem tem su'alma em saudade

Eu sou triste como é triste
A sombria parasita
Que sobre a terra do morto
Sua sombra deposita

Pede a Deus por tua mãe
Meu pobre filho querido
Que sobre a terra ele fica
Com o coração tão sentido

Da terra voaste ao céu
Pra gozar a claridade
Pede, esposo, ao criador
Tenha de mim caridade

Às vezes pareço crer
Quando a terra flores dá
Serem as cópias fiéis
Das flores que existem lá

Sou triste como a caveira
No cemitério rolando
Que vai com o correr do tempo
Em negro pó se tornando

Sobre a tua sepultura
Um frouxo raio da lua
Parece a gota do pranto
Celeste, na terra tua

Tu foste nuvem dourada
Mas o sol te dissipou
Como guardavas minh'alma
Contigo se desmanchou

No canteiro de minh'alma
Plantei roxa maravilha
Ao depois que te perdi
Adoro mais tua filha

Sou triste como a tesoura
Que corta a negra mortalha
Ou da cova a dura terra
Que sobre o morto se espalha

Quem chorará no sepulcro
De quem a vida foi só?
De quem tantas vezes triste
De si mesmo teve dó?

Quebrem-se os selos da campa
De um deus o poder e brilho
Vem, Maria, abençoar
Tua afilhada e teu filho!

Se queres saber se eu choro
Me empresta a tua mortalha
Com ela enxuga o meu pranto
E o nosso filho agasalha

Debaixo da terra fria
Contra o teu rosto de dó
Mais aumenta a minha pena
O me lembrar que estás só

As saudades que te trago
Foram da terra arrancadas
Mas as que tenho por ti
Estão n'alma enraizadas

Ao passo que as que te trouxe
Como tu morrem também
Minh'alma por infeliz
Bebe vida nas que têm

Dorme, dorme, meu bom pai
Descansa onde a estrela brilha
Que ao trono de Deus irão
As preces de tua filha

Se morreste para o mundo
Não morreste para mim
Eu seguirei teus caprichos
Até meus dias dar fim

Os meus prazeres morreram
Quando morreu minha bela
Dão hoje causa a meu pranto
Saudades que tenho dela

Ó flores que junto à campa
De meu filho vicejais
Sede fiéis transmissoras
Dos meus doloridos ais!

Ao filho que a mão da morte
Roubou com desgosto tanto
Contai as tristezas minhas
Meu sentimento e meu pranto

Aqui descansam os restos
De meu filhinho adorado
— Botão de flor de minh'alma
Tão rudemente arrancado

Sorriam flores no prado
Tu lutavas na agonia
Antes da tarde morreste
As flores no fim do dia

Pra resistir tua falta
Minh'alma não tem coragem
Só se iludido pensar
Que não perdi tua imagem

Se além da sentida morte
O sentimento vigora
Feliz dos restos mortais
Que sobre eles se chora

Foste a arca de esperança
Foste a flor do meu esmero
Depois que pra o céu voaste
Nem arca, nem flores quero

Já que não posso morrer
Contigo, minha Adelaide
Aceita o pranto sem fim
De uma perpétua saudade

Ao levantar tua campa
Tua imagem esperei
Foi ilusão do desejo
Só teus ossos encontrei

Não são as galas do mundo
Nem os ricos mausoléus
São a virtude, a constância
Que levam almas aos céus

Nem mesmo sei o que sou
Pela dor que sinto agora
Bem pareço a sombra escura
Dum ser que viveu outrora

Tristonha morada, guarda
De meu bem sua figura
Que os meus suspiros rodeiam
Sua triste sepultura

 

(Morais Filho, Alexandre José de Melo. Os ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos no Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1981 (Reconquista do Brasil, nova série, 59), p.61-67)
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