Aves e pássaros no folclore brasileiro
Luis da Câmara Cascudo
Galos e galinhas foram trazidos para o Brasil pelo português. A China conheceu-os onze séculos antes de Cristo e parece ter-se dado a sua domesticação na Birmânia. A entrada na Grécia data dos tempos socráticos. Homero não os cita. Decorrentemente as superstições ligadas aos galos e galinhas são nitidamente européias com os elementos regionais vindos de espécies afins.
Nenhuma ave dá idéia de maior inofensividade que a galinha, o mais pacato dos viventes. Mas não é. Tem segredos detestáveis. A simples G. domesticus dos nossos galinheiros pode dar nascimento ao pior bicho do mundo, o basilisco, espécie de lagarto que mata pelo olhar como o catoblepas. Se ele é avistado primeiro por um homem, morre fulminado. A galinha que passa sete anos sem pôr ovos é a futura mãe do basilisco. E tem outras singularidades. Quando começa a cantar como o galo é porque está atraindo a morte para a casa dos amos. Dizem os sertanejos que:
Moça que assobia,
Galinha que canta,
Faca na garganta...
Quem é feliz na criação de galinhas não será nos amores, nem no casamento. A galinha choca então é um perigo. Faz abortar qualquer mulher que dela se aproxime. Muita gente séria perdeu filhos porque, não dando crédito às coisas, mexeu com galinhas no choco. Mesmo um negócio fica ao avesso se tocarem no ninho duma galinha choca. Os pés de galinha são excomungados porque espalharam as palhas do presépio onde Nosso Senhor Jesus Cristo nascera. Os ovos postos no dia da hora (Ascensão do Senhor) ficam frescos durante larguíssimo tempo e não apodrecem. A gema e a clara secam, formando uma massa espessa que serve para curar a embriaguez, enxaquecas crônicas e as feridas motivadas por insetos. Para uma criança falar e andar depressa o melhor remédio é fazê-la beber água numa casca de ovo, logo que o pinto a abandone. O pinto que nasce à meia noite do dia de São João (24 de junho) será músico e o saci-pererê o temerá sempre. É crendice paulista. Para não urinar na cama basta comer a crista do galo-capão. As cólicas do parto são evitadas se tomarem caldo de galinha preta. E a galinha preta, especialmente preta e de penas arrepiadas, é de alto prestígio no catimbó e nas macumbas para os ebós, as coisas-feitas, as mandingas, os feitiços. É justamente a que não podia ser sacrificada aos deuses na Grécia e Roma.
O que ignoro é a ligação entre a galinha choca e o azougue do campo, Erythroxyton tuberosum que chamam também "galinha choca".
O galo, cantado em mil páginas, possui larga folha de serviços estranhos. A tradição de afugentar a noite batendo as asas e chamar o sol com o canto é velha e clássica. Lucrécio, 90 anos da Era Cristã, poetava no De natura revum (canto 4, versos 714-715):
... etiam gallum, noctem explaudentibus alis
Auroram clara consuetum voce vocare...
Crêem que, depois de certa idade, o galo esquece o sexo e põe ovos. O basilisco pode nascer também de um destes ovos do galo velho. É uma estória corrente na Europa. Gratiem de Samur, Traité des erreurs et des préjugés, (Paris, 1843, p.62) adverte "Ne croyez point a l´existence d´oeufs de coq, attendu que jamais coq n´a pondu: ce qui nous dispense de combatte cette autre erreur longtemps accreditée, qui veut qu´un oeuf de coq produise un serpent". Warée, Curiosités judiciaires (Paris, 1859, p.441) informa o magistrado de Basiléia condenou um galo a ser queimado vivo por ter posto um ovo. Tomo a liberdade de informar que Gratien de Samur está errado e o juiz de Basiléia está certo. O galo velho põe ovos. Possuo um ovo de galo, posto no dia 27 de janeiro de 1952, com agravante de ter sido galo de briga. É um quarto do volume do ovo comum. Não tem gema. Depois de tempos o conteúdo fica como uma pequenina pedra. Presenteou-me o senhor Laerson Barbosa de Vasconcelos, dono do galo e informou ser comum esta façanha nos galos em disponibilidade. O galo cantando fora de horas é moça que foge ou novidades. Portugal diz-se
Galo que fora de horas canta,
Cutelo na garganta...
registra J. Leite de Vasconcelos, Tradições populares de Portugal (Porto, 1882). Petrônio, Satyricon, 74, no tempo do imperador Nero, narra o que ocorreu no banquete de Trimalchion quando, fora de hora, gallus gallinaceus cantavit. Despejaram o vinho das taças debaixo da mesa, espalharam o óleo das lâmpadas. Trimalchion passou o anel da mão esquerda para a direita. Anunciava-se a morte de alguém ou incêndio do quarteirão.
Não se fiem na rolinha cascavel, a fogo-apagou, a palo-cafofo do Nordeste, Scardafella squanosa Quando ela começa a piar perto duma casa fiquem certos que dali vai sair enterro. Aquilo de passar o dia cantando palo-cafofo, pafofo, é pedindo desgraça para os outros...
Desconfiem do camarada anum, Crotophaga ani. É preto, cínico, imperturbável mas muitíssimo amigo da morte que lhe confia segredos. Revoando continuamente perto das latadas e dos alpendres onde fazemos a sesta está predizendo infelicidades. Anuncia o inverno e a seca. Se fica pousado numa árvore que tenha sombra e verdura teremos chuvas. Para isto se dê é preciso que o anum pouse três ou sete dias seguidos. Quem tira ovos de anum procura luto para a família. No sul do Brasil o anum tem outras especialidades. Comer fígado de anum pensando numa moça torna-a apaixonada. Passar o bico do anum no rasto da mulher desejada dá o mesmo resultado. O anum receitado para esta macumba é o anum branco, guira guira, apelidado no Sul, quiriru.
O tetéu, Belonopterus cayennesis, quero-quero, terém-terém, espanta-boiada, é bicho muito suspeito. Teve a honra de dar nome aos revolucionários gaúchos de 1893 (os governistas eram "pica-pau"). No Amazonas há um longirrostro que não dorme. É o maguari Ardea maguari, Gmel., ou Ciconia maguari, Tenm). Passa a vida tentando dormir, colocando o bicão enorme sobre o lombo. Vai dorme-não-dorme quando o bico escorrega e o maguari desperta gritando. O nosso tetéu é assim também. Põe uma patinha no meio da perna e fecha os olhos. A pata escapole e o tetéu acorda, badalando uma guizalhada de despertar menino. Mas o que torna o tetéu pouco amistoso é que ele, voando dos lugares molhados para os secos, leva desdita na certa. Do seco para o molhado é felicidade.
O pombo, o doce, o meigo arrulhador namorado, só deve ser visto assado e perto do talher. É índice da prosperidade material do dono. Um índice às avessas porque o Columba domestica multiplica o bando quando o proprietário empobrece e diminui quando o dono enriquece. Já se vê que um grande pombal esvoaçante denuncia miséria próxima para o criador.
O beija-flor sim, apenas anuncia visitas. Os mais bonitos, Chlorostilbon aureiventris, dizem da riqueza do visitante. Os escuros, Authrocothoraz nigricollis os pobres, e os policolores, Florisuga mellivora, dizem que quem vem é socialmente poderoso com ou sem recursos financeiros. O beija-flor não beija nenhuma flor nem chupa mel e sim cata insetos nas corolas. Sua figura no folclore é rica e multiforme. No norte da Argentina é o arauto das visitas como no Brasil. Os indígenas diziam-no mensageiro da outra vida. A rapidez fulgurante da avezinha dava a impressão da distância incrível facilmente vencida. O tamanho minúsculo indicava-o para a função especial do enviado que por toda a parte encontraria passagem. É atrevido e brigão. Parte, silvando de ódio, para aves muitas vezes maiores. Numa lenda amazônica o beija-flor desafiou o amigo maguari, o maguari que não dorme para um vôo de resistência. O maguari aceitou a peleja, deixou-o partir como um raio e voou depois, lento e seguro nas grandes atroadoras. Quando chegou no meio do rio encontrou o beija-flor boiando. Cansara e pedia socorro. Se passou até a margem foi porque o maguari, apiedado, trouxe-o pendurado como um badulaque.
Esses beija-flores, Trochilídeos, colibris, transformam-se em mariposas na fiel crença popular. O padre Simão de Vasconcelos dá depoimento firme: "Esta avezinha, suposto que fomente seus ovos e deles nasce, é coisa certa que é produzida muitas vezes de borboletas. Sou testemunha que vi com meus olhos uma delas, meio ave e meio borboleta, como ia se aperfeiçoando debaixo da folha de uma latada, até tomar vigor e voar" (Crônica, 1, I, p.112). Essa mariposa nascida do beija-flor é segundo Rodolfo von Ihering, a Pholus lambruscae. O bem-te-vi, Pitangus sulphuratus, só sabe dizer o seu nome malicioso para avisar que alguém se aproxima dele. O bem-te-vi pequeno, Pitangus lictor, também possui mania idêntica e não é simpático porque tanto gritou "bem-te-vi, bem-te-vi" seguindo Nosso Senhor na sua fuga para o Egito que os judeus, soldados do rei Herodes, iam-no prendendo. Daí a pouca simpatia popular. O urubu, Cathartes, aparece nas estórias e nas superstições. Tem a fama que os corvos gozavam no tempo de Hesíodo. O sertanejo diz que não é bom avistarmos o urubu trepado na cumeeira da casa, asas abertas, secando ao sol. A espingarda que atira em urubu fica imprestável. O cano escorre água e a mira entorta de vez. A presença informa a vizinhança da carniça. As almas que pecaram muito se podem tornar urubus. Uma senhora de engenho, muito malvada, que vivia no Ceará-Mirim (Rio Grande do Norte), foi ex-escrava invocou o espírito e o urubu confessou que fora mesmo a senhora branca. Pedia missa e aconselhava tratar bem aos escravos.
Os indígenas do Uraricuera, no Rio Branco, contam que o urubu era branco. Nuá mandou-o reconhecer se a terra estava enxuta depois do dilúvio. O urubu entreteve-se comendo peixe podre e brincando na lama. Ficou sujo e fedorento. Nuá condenou-o a conservar a cor e o mau cheiro que ainda hoje restam. Noutras estórias ele está como personagem de primeiro plano. No conto etiológico em que o sapo ou o jabuti assistem a festa no céu é o urubu quem o levou, sem saber ou sabendo dentro da viola. Mas isto é outra estória... Ninguém come carne de urubu por maior que seja a fome porque dá lepra. Árvore preferida para pouso de urubus perde as folhas. Ave amaldiçoada, quando morre não apodrece, seca e nem as formigas a comem.
Há uma família inteira que não merece relações de amizade. São as sisudas Strix. Todas as corujas são da intimidade da morte e se dão ao desaforo de vir "rasgar mortalha" (suindara, strix flammea perlata) quando o defunto ainda está vivo ou piar-lhe à porta numa cantiga que é um arrepio sinistro. As penas da coruja molhadas no próprio sangue e enterradas na soleira da porta ou mourão da porteira do curral, afugentam fantasmas e bruxarias.
O jurucutu, bubo megallanicus, assombra até cavalo de bronze. Quando sibila o seu canto sincopado não há cabelo que fique quieto: eriça-se como porco-espinho. Os tupis apontavam-no como pertencente a Jurupari, quando este foi identificado pelos jesuítas como entidade assombrosa e diabólica. O canto esfarela-se no ar com uma lentidão de uivo estrangulado, jurucutu, tuuuuuu, tuuuuu...
A acauã, Falco cachinans, é que é falsa e veridicamente possuidora de tradições aterradoras. Muitas tribos amerabas respeitavam-na porque devora as cobras que vai encontrando. É uma ave austera cheia de gravidade e senso que faz gosto vê-la. Andando devagar e compassadamente como compete a um ente que tem direito ao culto dos homens, dá vontade de cumprimentá-la como a um desembargador. O combate com a cobra lembra o embate do mirmilão com o rediário. A acauã ataca e se abriga no escudo da asa distendida e pronta até que fisga a cabeça da cobra. E, adeus cobra... Os chipaias indígenas do Pará, não caçam nem pescam ouvindo-lhe o grito premonitório. Tenho por justo e perfeito o crédito que gozava junto aos Orizes no século XVIII. O canto da acauã provoca nas mulheres amazônicas uma moléstia nervosa que consiste na repetição irresistível do canto. Diz-se que a mulher está pegada pela acauã. Semi-inconsciente imita a ave, dizendo, na toada melancólica, uacauã... uacauã e terminando pela risada estrídula da acauã.
O bacurau, Caprimulgida, o bacurau-mede-léguas, passa a noite pelos caminhos, olhos acesos como coivaras, contando as léguas numa medição gratuita e sem fim. No sul chamam-no também tabaco-bom, sebastião, tiom-tiom e mesmo corujão. Parece ter havido uma lenda, desaparecida nos elementos essenciais. Resta uma frase: é dizendo e bacurau escrevendo, valendo a indiscutível veracidade da afirmativa. É amuleto. Pena de assa de bacurau cura dor de dente e algumas outras, dispostas entre a manta e sela, fazem com que o cavalo não caia nem que salte rio cheio.
Surpresa é dizer-se que a lavandeira, Arundinicola leucocephala, a tiranida vista em toda a parte, está no Index. Apesar de seus hábitos simples, de sua familiaridade, de suas visitas às calçada e cozinhas, de seus saltos e reviravoltas, a lavandeira não é boa peça. Se lavou a roupa de Nosso Senhor foi gesto único de bondade. Dá azar. Para anular seu inconsciente prestígio maléfico quando lhe derem de comer, especialmente se fiapos de carne-verde, não lhe dêem de beber. E vice-versa.
A peitica, tapera naevia, não tem no norte do Brasil a vastidão supersticiosa que goza no sul e região do Plata. É o mesmo sem-fim, o mesmíssimo saci-pererê que Lehmann-Nitsche identificou com o crispim argentino. É ainda o matinta-pereira no Pará, o peixe-frito ou peito ferido, em Minas Gerais. No Nordeste, a peitica é ave que dá quizila, irrita, aborrece sem ter lenda conhecida ao redor. Peitica é aborrecimento, insistência. O ciclo do saci-pererê é um dos maiores do Brasil não pela ave mas pelo seu homônimo, o molequinho unípede e de carapuça vermelha, atordoador, travesso e mágico.
Em 1913 voltava eu da então vila de Augusto Severo para a fazenda Logradouro. Noite de luar. A estrada era margeada pelos capões de mato ralo onde se destacavam as oiticicas e juazeiros. Súbito, do sussurro dos grilos, saiu um lamento estranho, ululado, plangente, interminável. Um uivo quase humano de dor desesperada, de agonia terrível, sufocado, impressionante, inesquecível, rasgou a solidão enluarada. Ao meu olhar assombrado o companheiro respondeu num arrepio incontido: É a mãe-da-lua...
A mãe-da-lua, anda-a-lua em Minas Gerais, chora-a-lua na Bahia, o urutau das superstições sul-americanas, o cacuí ou turaí na Argentina. O iurutau dos amerabas tupis, o Whip poor das Guianas Inglesas, é um Caprimulgida alvacento ou cinzento, com a imensa boca típica, hábitos noturnos que o fazem misterioso e aterrador. Fica imóvel num galho e passa a noite soltando aquela gargalhada fantástica que espalha o pavor. Não existe tradição local sobre a mãe-da-lua senão o medo instintivo que seu canto provoca. A lenda única que pude recolher, variante e trecho da lenda geral sul-americana que Lehmann-Nitsche estudou, é que fora mulher extremamente amiga de festas. Deixou o marido, a quem adorava, doente e dançou toda a noite. Voltando encontrou Paulo, o esposo morto. Desesperada de remorsos e convulsa de arrependimento, soltou um grito feroz e transformou-se na mãe-da-lua. Até hoje chama Paulo! Paulo! e soluça uma risada de martírio. Canta sempre à noite, seja ou não de luar. Nestas últimas seu canto parece mais longo e mais profundo, partindo do seio da mata escura. Couto de Magalhães chamou-a ave fantasma. Para os guarani é a indígena Nheambiú que virou ave depois da morte do seu noivo Quimbae. Os carajá dizem que ela foi a moça Imaeró que tomou a forma do Urutau com ciúme de sua irmã Denaque que se casara com Taina-Can, a estrela Vésper, tornado velho e alquebrado, e que pedira noiva e só Denaque o aceitara. Quando Imaeró viu Taina-can moço, forte e bonito, enlouqueceu de raiva e ficou sendo o urutau lúgubre. Para os indígenas do rio Buopé (Waupés) afluente do rio Negro no Amazonas, foi o tuxaua Duiruna que se tornou urutau por ter sua mulher Ueundá se transformando em pacutinga Prockilodus. Os tupinambá afirmavam que ela trazia notícia dos antepassados e não a matavam. Suas penas servem como preservativos contra a luxúria. Ao vir da puberdade, as moças indígenas assentavam-se sobre a pele retirada a um urutau. Para outras tribos o costume era varrer o chão com as penas da mãe-da-lua. Não emigrou para o Brasil a tradição de que essas aves tiram o leite das cabras, donde o nome científico, Caprimulgus e a denominação popular inglesa de Goat-suckers. Na Europa a crendice é viva da Caprimulgus europaeus ter a habilidade de ordenhar cabras e servir-se habitualmente do leite. Do seu canto há páginas de Charles Waterton que o ouviu na Guiana Inglesa, inesquecível. Its cry is so remarkable that, having once heard it, you will never forget it. Nem se concebe que seja um canto de ave. A stranger would never conceive it to be the cry of a bird.
(...)

