Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Março 2005 - nº 76 - Ano VII


Sumário

Festança

Cerimônias religiosas e procissões
Daniel Parish Kidder

Bailes e bochinchos
Manoelito de Orneelas

Desde quando se bate o pandeiro
Guilherme Santos Neves

Cancioneiro

As aventuras de Pedro Malazarte
J. O. de Lima e Manuel Caboclo e Silva

Trovas farroupilhas do cancioneiro gaúcho, colhidas por Augusto Meyer

A Galiza e as nossas trovas populares
Guilherme Santos Neves

Imaginário

Nome e número dos pares de França
Téo Brandão

História de um cão
Figueiredo Pimentel

O jabuti e o saca-rolhas
Luís R. de Almeida

Colher de Pau

Superstições e crendices: siris e caranguejos

Canjica e jacuba
Carlos Borges Schmidt

Costumes do Vale do Paraíba
Gentil de Camargo

Oficina

A terra trabalha e descansa
Carlos Borges Schmidt

A lua e o caipira
Carlos Borges Schmidt

A cerâmica dos carajás
Maria Heloisa Fénelon Costa

Palhoça

As castas das baratas

Os primeiros ciganos na Bahia e no Rio de Janeiro
Eduardo Tourinho

Onde ainda se dança a cana-verde, a marrafa, a ciranda
Regina Helena de Paiva Ramos

Panacéia

Põe-mesa
Osvaldo Orico

A cabeça da jibóia para atrair mulher
Alberto Canelas Filho

Toda a verdade sobre as cartas cruzadas (que não mentem jamais)

Veja o que foi publicado em Imaginário
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O jabuti e o saca-rolhas

Luís R. de Almeida

O jabuti tem papel saliente no folclore indígena, no qual à semelhança da raposa de La Fontaine, é apresentado como a personificação da manha, da astúcia, aliadas à paciência.

Inúmeras são as histórias em que entra este quelônio como figura principal apresentando os seus brasões.

Hoje vou apresentar mais uma, cujo autor não declinou o nome e que foi ouvida na zona do rio Coluene, rio que separa Goiás de Mato Grosso e se vai lançar no Araguaia. Ei-la:

Cinco pequenos jabutis combinaram fazer um piquenique.Depois de embrulhar a comida necessária, puseram-se a caminho de sítio escolhido. Três anos depois, chegaram ao lugar, estenderam alva toalha sobre a relva, colocaram sobre ela o farnel e as bebidas e foi então que descobriram haver esquecido o saca-rolhas.

— Mau, mau! — exclamou o mais velho. Eu mesmo não voltarei para buscá-lo. O mais novo que vá.

O mais novo concordou:

— Eu vou, bem sei o que vocês farão quando me apanharem longe. Comerão tudo!

Quinze anos decorreram e o jovem jabuti não havia ainda regressado.

— Bem, bem, disse um deles, já começo a cansar-me de esperar.

— E não é só isso, disse outro, eu por mim já estou com fome.

— E se mordiscássemos uma codeazinha de pão enquanto esperamos? — aventurou o terceiro.

— Boa idéia, — concordaram todos — quem vai dar por falta de uma migalha de pão?

E os quatro jabutis puseram-se a comer.

No mesmo instante, a relva apartou-se e a cabeça do jabuti mais novo surgiu de repente:

— Apanhei-os ou não os apanhei?!... Olha se eu tivesse ido!...

E abancou-se para comer

* * *

Diz um provérbio que o mal que se não pode remediar, aligeira-o a paciência.

Cala, sofre e ri — a paciência esperará por ti (de um velho álbum do Tirol).

A paciência é a cabeça da riqueza (provérbio abssínio).

Paciência é a chave da justiça (provérbio árabe).

A paciência é uma árvore cuja raiz amarga, mas que produz os mais doces frutos (provérbio persa).

(Almeida, Luís R. de. "O jabuti e o saca-rolhas". Revista Única, maio-junho de 1953)
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