Março 2010 - Ano XII - nº 134
Procurei condensar em duas notas o que existe no folclore tucumano relativo ao gato.
Há um apólogo que pode ser resumido no provérbio português: nem tudo que reluz é ouro.
A historieta é contada a cru, mas precisamos de recorrer a eufemismos:
Duas gatas dormitavam num telhado, à espera de que lhe aparecessem romeus das vizinhanças.
Efetivamente chegaram dois gatos. Um deles bem tratado muito limpo, cauda felpuda, cheio de pretensões, com ares de senhor dos telhados das cercanias. O outro magro, fraco, humilde e até sarnoso. As duas gatas lançaram as vistas para o gato lindo, que escolheu a de suas simpatias e com ela se foi, telhado afora.
A outra não tinha o que escolher. Ou ficava com o gato feio, ou estaria estragado seu programa. Conformou-se, embora o despeito pela preferência que o gato lindo dera à outra e fingiu aceitar o galanteios do sarnento.
Na manhã seguinte, as duas gatas se encontraram.
A que tivera a preferência do gato lindo perguntou a companheira, como se fora com o gato feio.
Depois de espreguiçar-se, respondeu com displicência:
— Maravilhosamente. Magro e feio, porém amoroso em extremo. Fizemos tal camaradagem que marcamos novos encontros. E tu: Como te foste? Como te tratou a sorte?
A escolhida pelo gato lindo deu um suspiro e respondeu:
— Passeamos toda a noite, de telhado em telhado, ora parando aqui, ora saltando ali. E o tempo foi pouco, para contar-me, em pormenores, como o agarraram à força e lhe fizeram a operação...