Março 2010 - Ano XII - nº 134
Como na maior parte das regiões de população escassa e abundantes pastagens naturais, a criação de gado em Mato Grosso é quase que totalmente extensiva.
Os campos são enormes e nem sempre limpos. Há zonas de cerrado e cerradá onde, com a falta de costeiro, o gado torna-se arisco, ligeiro, e por fim bagual ou alçado.
Bagual é o nome que se dá ao gado bravio, que já não obedece mais ao homem — não dá rodeio. Cria-se à lei da natureza. O sal, encontra-se nos barreiros. Procuramos nestas linhas descrever uma batida de gado bagual, como é feita "em baixo da serra", região variadíssima, que compreende os contra-fortes e fraldas das serras de Amambaí e dos Baús, até se perderem nos pantanais. Nesse serviço, o peão mato-grossense, quase desconhecido, exibe toda a sua perícia de campeiro.
O bagual em lugares onde é perseguido, passa o dia na croa [1] dos cerradões e nas matas; só sai de noite para beber água e pastar nas cabeceiras. Assim, os bagualeiros escolhem as noites para trabalhar, de preferência as de luar.
A comitiva nesse serviço nunca é muito numerosa. Compõe-se geralmente de cinco a seis peões. O encarregado escolhe um retiro ou faz um rancho para centro de suas operações. O crepúsculo é a hora de sair para o campo, seguindo os peões em fila, o mais prático na frente; vão de cabeceira em cabeceira no passo de matungo, contra o vento e num silêncio quase fúnebre.
Avistam, afinal, uma manada que está "branqueando" a cabeceira; param, consultam-se, discutem e deliberam à meia voz o que vão fazer. Aproximam-se agora no passo do animal e alerta sempre. Quando as reses dão sinal de ter percebido qualquer coisa, levantando alto a cabeça, a peonada dá uma "arrancada dura" para logo alcançá-las. A orilha do cambuaval [2], impenetrável ao cavalheiro, fica às vezes a menos de 300 metros.
Daí em diante, cada um trabalha para si; tem que alcançar a rês que escolheu, ou que estiver a jeito, laçando-a e maneando-a, o que não se faz sem agilidade ou presteza. "Ê moço! Sou índio que saiu em cima de qualquer tucura [3] orelhano [4], laço e, quando ele amontoa no estirão, boleio a perna de cima do arreio, aperto e já tô maneando". É assim: quando a rês cai no estirão, pulam do pingo, que fica chinchando, e apertam-na antes de ter tempo de levantar. É dizer, seguram o pé que está por cima, ou o rabo passado por uma das pernas. Maneiam agora, amarrando os dois pés a uma das mãos, ou ainda um pé e uma mão encruzados. Para isso trazem um peador na cintura, amarrado com um nó fácil. Em seguida, reúnem-se todos no lugar de partida, de onde aluio o gado. Algum extraviado toca a capoeira para orientar-se. É um som que se produz assoprando com força num vazio feito com as duas mãos. Ouvindo-o, os companheiros respondem, dando assim uma direção ao perdido.
Reunidos, amarram as reses pegadas a qualquer árvore forte mais próxima — é o tambo. A operação chama-se tambear e consiste em amarrar a rês ao pau por meio de um maneador [5]. Dão umas quatro ou cinco voltas de maneador em roda do pescoço ou chifres do bagual e outras tantas em volta do tambo, passando pelas primeiras. As voltas devem estar todas certas. Durante a noite, podem dar mais de uma batida e muitos peões não se satisfazem em laçar uma rês só.
De dia uma partida de bois de carros amestrados, vai de lugar em lugar, onde estiverem tambeados os baguais, que são ajojados pelos chifres ao pescoço do boi manso. Costuma-se aparar as aspas dos baguais para que não machuquem seus condutores.
Vão assim, meio contrariados, até a fazenda ou rancho onde são carneados para o consumo ou para fazer charque. O bagual amansa dificilmente.
Notas
1. Crôa: coroa, alto.
2. Cambauval: mata com abundância de cambaúva, taquara fina.
3. Tucura ou gabiru: nome que se dá ao gado crioulo ou
pantaneiro.
4. Orlehana ou orelha: diz-se da rês sem marca de espécie
alguma. Orelhana de marca é a que só tem divisa, faltando a marca de
fogo.
5. Maneador: tira de couro sovado de 2 a 2,5 cm de largura e 5 a 7
braças de comprimento.