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Março 2010 - Ano XII - nº 134

Edição Especial: O bicho vai pegar 2

Gatos 1

Mário Melo

Prometi voltar a tratar do gato no folclore.

Nas práticas de magia, o gato preto é elemento de primeira ordem, para a consumação de pactos satânicos, para causar danos ou para adquirir virtudes.

Aqui uma receita de nigromancia:

Põe-se numa quantidade suficiente de água uns ramos de videira e folhas de salgueiro, mete-se no fogo e, quanto está a ferver, nela se atira um gato preto vivo, deixando-o cozinhar até que as carnes se desprendam dos ossos. Toma-se um pedaço de tela de linho e apanha-se o esqueleto. Procura-se um espelho e defronte deste se prende no dente osso por osso, até o embaciamento. O osso que se tem no instante possui virtude mágica. Deve ser guardado secretamente, para ocasião oportuna. Querendo entrar em alguma parte sem ser visto, mete-se o osso entre os dentes, dizendo: "Quero já estar invisivel em tal parte pelo poder da magia negra e não diabólica". Quando se trata de vingança contra alguma pessoa, é preciso invocar o diabo. Se, porém o gato tinha um único pêlo branco ou cinzento, nenhum efeito produzirá o sortilégio.

O "Gato Negro", influência do "Chat Noir" francês, indica também ponto de amores fáceis, espreitado pelos rufiões. A simples expressão "Ir a um gato negro" equivale a ir a ponto impróprio para mulheres honestas.

Invoca-se o gato em questões amorosas ilícitas, onde a astúcia é necessária à conquista da dama.

Na Argentina o verbo "gatear" equivale à entrada duma mulher em alcova, sem boas intenções.

No populário, o gato tem grito de armas.

Andar como cão e gato: não fazer boa liga.

Leite de gatuno: leite humano que pouco alimenta.

Dar ou comer gato por lebre: substituir uma coisa por outra.

Gato com luvas não caça rato.

Defender-se como gato de barriga para cima: defender-se mal.

Pôr chocalho em gato: empresa difícil.

Bolsa de gatos: reunião de indivíduos que fazem barulho sem eficácia.

Jogar a gata parida: criar situação embaraçosa.

Fazer-se de gata morta: passar por inocente.

De dia beata, de noite gata: hipócrita.

Fazer uma gateada: cometer traição.

Cair parado como gato: habilidade em sair de posição difícil.

Ágil como gato.

Gato: na Argentina, mulher leviana; entre nós, homem covarde.

Para terminar:

Uma gata disse a uma vaca: "Tão grande e sem porta-seios!" Ao que a vaca replicou: "Tão pequena e com bigodes."

(Melo. Mário. "Gatos". Folha da Manhã. Recife, 19 de março de 1954)

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