Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VII - Edição 78
Maio de 2005
Artigos deste mês em
Panacéia
Os maronitas, por João do Rio

Padre nosso pequenino..., por Guilherme Santos Neves

Fanatismo religioso, por Edigar de Alencar



Veja também

Realejo

Rádio Realejo

Como vovó dizia

No Estradão

Amigos da Jangada
Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Fanatismo religioso

Edigar de Alencar

O fanatismo religioso não é fenômeno isolado. É de todos os povos, ou pelo menos de quase todos. Entre nós, tanto existe nas coxilhas do Sul, como nos carrascais nordestinos, nas fazendas paulistas como nas plagas amazônicas, nos subúrbios e morros cariocas e até às margens das praias de Copacabana e Leblon...

Recentemente vi numa importante fazenda de São Paulo uma procissão de humildes colonos destacar-se de seu itinerário para ir até um lugar em pleno mato, onde há muitos anos morrera um escravo, numa peregrinação que dava ao local um sentido misterioso e sagrado. Soube que era uma tradição daquela gente humilde e profundamente crente.

O misticismo das populações rurais é uma das suas características mais acentuadas. O Nordeste brasileiro pelas suas condições singulares de miséria e abandono teria que se tornar terreno adubado para o florescimento da mística. E dessa para o fanatismo seria um pulo.

O professor Abelardo F. Montenegro, fecundo e incansável publicista realizou apreciável estudo sobre o assunto, particularizando-o quanto a seu estado — o Ceará. Mas, na verdade a História do fanatismo religioso no Ceará é a própria história do fanatismo em todo o Nordeste.

Em introdução ao seu trabalho, o autor faz um relato dos pródromos do misticismo na região, enumerando os movimentos de caráter religioso, que ensejaram a proliferação de fanáticos. As "santas missões", as festas religiosas, com superstições e milagres, as procissões para chover e os santuários dariam lugar aos tipos místicos que marcam a exacerbante paixão religiosa — beatos, penitentes e fanáticos.

Referindo-se aos focos milagreiros da terra, teria que demorar-se na Meca do fanatismo religioso do Nordeste, a cidade de Juazeiro do Norte, onde viveu, agiu e morreu o padre Cícero Romão Batista.

As "santas missões" embora revestidas de todas as formalidades do ritual católico, malgrado os seus objetivos propiciavam a formação de estreita e submissa mentalidade, além do pânico que por vezes causavam como testemunha João Brígido, citado pelo autor: "Era sem par o tumulto que produzia nos sertões as prédicas ou santas missões que os padres quase sempre estrangeiros "boroboros" realizavam.

História do fanatismo religioso no Ceará é pródiga em exemplos e citações tornando-se precioso subsídio para qualquer estudioso do assunto. Reportando-se a jornais antigos, respingando documentos de valia ou recorrendo a vários escritores, o professor Abelardo F. Montenegro empresta ao seu livro um cunho documental valioso.

O espírito supersticioso do rurícola encontra na miséria ambiente, nas crises e flagelos que periodicamente o assaltam o clima feroz à sua expansão e aceleramento. Como observa Euclides da Cunha "é o homem primitivo audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas".

Abelardo F. Montenegro conta-nos episódio recente. O engenheiro José Leal Lima Verde demorando em casa de um sertanejo cearense admirou-lhe o roçado de algodão. E aconselhou-o a preparar-se contra a lagarta fazendo uso de pulverizador. O sertanejo disse-lhe que tomaria outra providência — iria rezar nos três cantos da roça.

— E porque não nos quatro? — interroga o engenheiro.

— Não! — responde o roceiro — preciso deixar um canto para a lagarta sair.

Mais tarde o engenheiro retornaria para verificar que a lagarta devorara o algodoal. E o sertanejo ganhara o mundo.

Em 1953, quando a imagem de Nossa Senhora de Fátima passou pelo Ceará, houve sério incidente entre o juiz de Direito da Comarca de Cratéus e um sacerdote, porque o primeiro queria que a imagem demorasse mais na cidade. Como o padre se opusesse, o campo de aviação da cidade foi obstruído. A imagem tornou-se prisioneira da cidade, o que deu margem a lamentações impropérios e revolta de criaturas que não podiam admitir o descaso à Nossa Senhora.

As procissões para chover não se realizam apenas no Norte. O teatrólogo Edgar da Rocha Miranda em seu drama E o Noroeste soprou... representado no Brasil e na Inglaterra, tomou uma dessas procissões como tema central.

Os santuários em toda parte, Lourdes inclusive, hão que gerar fanáticos. O Juazeiro do padre Cícero tem dado ensejo a vasta literatura. Muito livro de valor, de mistura a muita panacéia, a páginas de exaltação e servilismo. Os milagres do feudo do famoso sacerdote encheu a história do Nordeste. O cancioneiro popular, é fértil na exaltação do taumaturgo e de seus milagres e poderio. Quando o presidente da República era Venceslau Brás e o presidente do estado era João Tomé, o poeta popular João Mendes de Oliveira publicou uma versalhada que Luís da Câmara Cascudo transcreve, na qual o padre era incluído na Santíssima Trindade:

É dono do Norte Santo
É dono da Santa Fé,
É uma das três pessoas,
É filho de São José,
Manda mais que o Venceslau
Pode mais que o João Tomé.

O autor da História do fanatismo religioso no Ceará, relembra os principais pontos da famosa questão religiosa que pôs à prova a energia de dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará.

A figura do místico que foi o padre Cícero ainda será estudada à luz de critério mais firme, com o auxílio indispensável da ciência e imune de paixões. Mas qualquer que seja a conclusão, não há dúvida que o padre foi um catequista estupendo, cujo prestígio e ascendência cedo se fizeram sentir. É o próprio Abelardo F. Montenegro quem informa que o padre já em 1877, com apenas setes anos de ordenação "dirigia a vida espiritual do seu rebanho" e "chegava mesmo a usar a palmatória, aplicando bolos em homens casados". Transformou um arraial numa grande cidade, hoje das mais importantes do estado pelo seu comércio e pela sua indústria. Não o isentemos, porém, de grandes culpas, não só por omissão como por incentivo aberto ao obscurantismo e ao fanatismo. Quando mais acesa era a luta em torno dos pretensos milagres da beata Maria de Araújo, o padre Cícero em seus sermões recomendava penitência. Que ninguém largasse o rosário "de joelhos, em pé, deitado, andando, trabalhando, de toda forma que pudessem".

E M. Diniz informa (Os mistérios de Juazeiro) muitos o fizeram e havia "romeiros que tangiam os animais de carga, com um rosário em uma das mãos e o relho na outra".

Diante da figura do padre Cícero Romão Batista não se lhe pode negar inteligência que chegava à solércia. Enamorado do prestígio político que grangeou sem olhar muito os meios, tudo fez para mantê-lo. Embora não lhe interessassem os cargos políticos e não pretendendo jamais arrastar o pé de Juazeiro, deixou-se eleger deputado federal. Por sagacidade nunca se insurgiu de maneira hostil contra a igreja. Nunca despiu a sotaina que era a sua armadura. Não apostatou.

A História do fanatismo religioso no Ceará abrange outras figuras menos marcantes no cenário cearense, cujo povo sempre teve propensão para o misticismo. Ali se geraram Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro e o padre Cícero Romão Batista. Curioso que tenha pertencido a cearenses o comando de Canudos e Juazeiro, os dois pólos do fanatismo religioso no Brasil.

O professor Abelardo F. Montenegro mostra-nos tipos curiosos de fanáticos e beatos, como o dos agrupamentos "cortes celestiais", de teor tão primário.

(Alencar, Edigar de. "Fanatismo religioso". O Dia. Rio de Janeiro, 13 e 14 de dezembro de 1959)
Índice | Pesquisa | Central do Leitor | Expediente | Contato | Mapa do site | Termos e condições de uso

Jangada Brasil © 1998-2005