O fanatismo religioso não é fenômeno isolado. É de todos os povos, ou pelo menos de quase todos. Entre nós, tanto existe nas coxilhas do Sul, como nos carrascais nordestinos, nas fazendas paulistas como nas plagas amazônicas, nos subúrbios e morros cariocas e até às margens das praias de Copacabana e Leblon...
Recentemente vi numa importante fazenda de São Paulo uma procissão de humildes colonos destacar-se de seu itinerário para ir até um lugar em pleno mato, onde há muitos anos morrera um escravo, numa peregrinação que dava ao local um sentido misterioso e sagrado. Soube que era uma tradição daquela gente humilde e profundamente crente.
O misticismo das populações rurais é uma das suas características mais acentuadas. O Nordeste brasileiro pelas suas condições singulares de miséria e abandono teria que se tornar terreno adubado para o florescimento da mística. E dessa para o fanatismo seria um pulo.
O professor Abelardo F. Montenegro, fecundo e incansável publicista realizou apreciável estudo sobre o assunto, particularizando-o quanto a seu estado — o Ceará. Mas, na verdade a História do fanatismo religioso no Ceará é a própria história do fanatismo em todo o Nordeste.
Em introdução ao seu trabalho, o autor faz um relato dos pródromos do misticismo na região, enumerando os movimentos de caráter religioso, que ensejaram a proliferação de fanáticos. As "santas missões", as festas religiosas, com superstições e milagres, as procissões para chover e os santuários dariam lugar aos tipos místicos que marcam a exacerbante paixão religiosa — beatos, penitentes e fanáticos.
Referindo-se aos focos milagreiros da terra, teria que demorar-se na Meca do fanatismo religioso do Nordeste, a cidade de Juazeiro do Norte, onde viveu, agiu e morreu o padre Cícero Romão Batista.
As "santas missões" embora revestidas de todas as formalidades do ritual católico, malgrado os seus objetivos propiciavam a formação de estreita e submissa mentalidade, além do pânico que por vezes causavam como testemunha João Brígido, citado pelo autor: "Era sem par o tumulto que produzia nos sertões as prédicas ou santas missões que os padres quase sempre estrangeiros "boroboros" realizavam.
História do fanatismo religioso no Ceará é pródiga em exemplos e citações tornando-se precioso subsídio para qualquer estudioso do assunto. Reportando-se a jornais antigos, respingando documentos de valia ou recorrendo a vários escritores, o professor Abelardo F. Montenegro empresta ao seu livro um cunho documental valioso.
O espírito supersticioso do rurícola encontra na miséria ambiente, nas crises e flagelos que periodicamente o assaltam o clima feroz à sua expansão e aceleramento. Como observa Euclides da Cunha "é o homem primitivo audacioso e forte, mas ao mesmo tempo crédulo deixando-se facilmente arrebatar pelas superstições mais absurdas".
Abelardo F. Montenegro conta-nos episódio recente. O engenheiro José Leal Lima Verde demorando em casa de um sertanejo cearense admirou-lhe o roçado de algodão. E aconselhou-o a preparar-se contra a lagarta fazendo uso de pulverizador. O sertanejo disse-lhe que tomaria outra providência — iria rezar nos três cantos da roça.
— E porque não nos quatro? — interroga o engenheiro.
— Não! — responde o roceiro — preciso deixar um canto para a lagarta sair.
Mais tarde o engenheiro retornaria para verificar que a lagarta devorara o algodoal. E o sertanejo ganhara o mundo.
Em 1953, quando a imagem de Nossa Senhora de Fátima passou pelo Ceará, houve sério incidente entre o juiz de Direito da Comarca de Cratéus e um sacerdote, porque o primeiro queria que a imagem demorasse mais na cidade. Como o padre se opusesse, o campo de aviação da cidade foi obstruído. A imagem tornou-se prisioneira da cidade, o que deu margem a lamentações impropérios e revolta de criaturas que não podiam admitir o descaso à Nossa Senhora.
As procissões para chover não se realizam apenas no Norte. O teatrólogo Edgar da Rocha Miranda em seu drama E o Noroeste soprou... representado no Brasil e na Inglaterra, tomou uma dessas procissões como tema central.
Os santuários em toda parte, Lourdes inclusive, hão que gerar fanáticos. O Juazeiro do padre Cícero tem dado ensejo a vasta literatura. Muito livro de valor, de mistura a muita panacéia, a páginas de exaltação e servilismo. Os milagres do feudo do famoso sacerdote encheu a história do Nordeste. O cancioneiro popular, é fértil na exaltação do taumaturgo e de seus milagres e poderio. Quando o presidente da República era Venceslau Brás e o presidente do estado era João Tomé, o poeta popular João Mendes de Oliveira publicou uma versalhada que Luís da Câmara Cascudo transcreve, na qual o padre era incluído na Santíssima Trindade:
É dono do Norte Santo
É dono da Santa Fé,
É uma das três pessoas,
É filho de São José,
Manda mais que o Venceslau
Pode mais que o João Tomé.
O autor da História do fanatismo religioso no Ceará, relembra os principais pontos da famosa questão religiosa que pôs à prova a energia de dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará.
A figura do místico que foi o padre Cícero ainda será estudada à luz de critério mais firme, com o auxílio indispensável da ciência e imune de paixões. Mas qualquer que seja a conclusão, não há dúvida que o padre foi um catequista estupendo, cujo prestígio e ascendência cedo se fizeram sentir. É o próprio Abelardo F. Montenegro quem informa que o padre já em 1877, com apenas setes anos de ordenação "dirigia a vida espiritual do seu rebanho" e "chegava mesmo a usar a palmatória, aplicando bolos em homens casados". Transformou um arraial numa grande cidade, hoje das mais importantes do estado pelo seu comércio e pela sua indústria. Não o isentemos, porém, de grandes culpas, não só por omissão como por incentivo aberto ao obscurantismo e ao fanatismo. Quando mais acesa era a luta em torno dos pretensos milagres da beata Maria de Araújo, o padre Cícero em seus sermões recomendava penitência. Que ninguém largasse o rosário "de joelhos, em pé, deitado, andando, trabalhando, de toda forma que pudessem".
E M. Diniz informa (Os mistérios de Juazeiro) muitos o fizeram e havia "romeiros que tangiam os animais de carga, com um rosário em uma das mãos e o relho na outra".
Diante da figura do padre Cícero Romão Batista não se lhe pode negar inteligência que chegava à solércia. Enamorado do prestígio político que grangeou sem olhar muito os meios, tudo fez para mantê-lo. Embora não lhe interessassem os cargos políticos e não pretendendo jamais arrastar o pé de Juazeiro, deixou-se eleger deputado federal. Por sagacidade nunca se insurgiu de maneira hostil contra a igreja. Nunca despiu a sotaina que era a sua armadura. Não apostatou.
A História do fanatismo religioso no Ceará abrange outras figuras menos marcantes no cenário cearense, cujo povo sempre teve propensão para o misticismo. Ali se geraram Antônio Vicente Mendes Maciel, o Antônio Conselheiro e o padre Cícero Romão Batista. Curioso que tenha pertencido a cearenses o comando de Canudos e Juazeiro, os dois pólos do fanatismo religioso no Brasil.
O professor Abelardo F. Montenegro mostra-nos tipos curiosos de fanáticos e beatos, como o dos agrupamentos "cortes celestiais", de teor tão primário.