O Vale do Paraíba é uma das poucas regiões do estado de São Paulo em que ainda podem ser encontrados alguns usos e costumes de tradição nitidamente popular. Muito conhecida é a fábrica de figuras para presépios de Natal, encontradas em grande quantidade, nos últimos meses do ano, principalmente no Mercado Municipal de Taubaté.
Quem visitar esse próprio da municipalidade, aos domingos, há de surpreender-se com o grande movimento que apresenta, isto porque o número constante daqueles que para ali se dirigem, para a compra de gêneros alimentícios, é acrescido de elementos das camadas menos favorecidas da população, que procuram adquirir outros produtos, geralmente de fabricação caseira. Acontece então que nesses dias o pátio fronteiriço ao grande edíficio fica completamente tomado por pequenas bancas, de vendedores não permanetnes, que expõem os mais diversos objetos.
A barganha
Fenômeno mais curioso, entretanto, observa-se na parte dos fundos, fora ainda do edíficio, em pequena praça arborizada ali existente. É o centro da barganha. Lugar onde se pode adquirir de tudo, geralmente com pouco dinheiro, predominando, porém, a troca de objeto por objeto.
Das 8 às 13 horas, todos os domingos, o local está completamente tomado pelos barganhistas. O observador mais desavisado, não conhecendo as reais possibilidades dos pequenos negócios que ali se realizam, ficará com certeza perplexo ante o tipo e a qualidade dos objetos que se expõem para troca.
Com efeito, pode-se adquirir no local, ou trocar por outra coisa qualquer, por exemplo, um cadeado velho, enferrujado, sem chave; ou uma chave também enferrujada, que ninguém sabe que portas poderá abrir; plugs com ou sem pinos, máquinas de cortar cabelos que funcionavam perfeitamente há 15 ou 20 anos, velhas panelas de ferro, sapatos, pedais de bicicleta, rodas de madeira para carrinhos manuais, rádios, sanfonas, relógios de pulso, de bolso e de parede etc.
Por três mil cruzeiros compra-se uma velha máquina de costura standard, manual; pelo mesmo preço pode-se adquirir um porco do mato (caitetu) vivo.
Por vinte cruzeiros a conversa vai longe
O homem gordo, com jeito de açougueiro, chegou-se ao preto sem dentes, examinou o anel que este exibia; gostou, tirou do bolso outro anel e propôs a troca. Ambos avaliavam os respectivos objetos em trezentos cruzeiros. O do homem gordo era de "prata maciça" (isso ele garantia); o do preto sem dentes era folheado a ouro, "um folheado que dura quinhentos anos" (palavra do proprietário).
Pois o negócio foi bem lançado. Cada um gostou do objeto do outro, mas o homem do "folheado de quinhentos anos" achou que deveria receber vinte cruzeiros de "volta". E aí, a coisa pegou. O homem gordo insistia em que o seu anel, de prata maciça, valia ainda muito mais que o outro: só aceitava o negócio, "elas por elas", porque gostara do outro anel e porque este lhe ia muito bem, com sua grande pedra vermelha.
O preto insistia na "volta". O homem gordo no "elas por elas". A assistência já era grande e parecia torcida uniformizada do dono do anel de prata. Quinze minutos de discussão, rasgados louvores aos respectivos objetos, entremeados de palpites dos "sapos" (todos favoráveis ao homem gordo) e o dono do anel "folheado" abaixou o preço: dez cruzeiros de volta.
O repórter, pouco conhecedor de tal gênero de negócios, acreditou que a coisa estava liquidada. Divide-se o pomo da discórdia e todos saem satisfeitos. Engano, porém. O homem gordo, vendo o "adversário" ceder um pouco, forçou mais ainda; e com mais quinze minutos de conversa conseguiu vencer; anel por anel, nenhuma volta. O grupinho se dispersou, comentando o negócio feito.
Um trabuco feito em casa
O velhinho que negociava com tudo — cadeiras, rodas velhas, peças usadas de bicicleta etc. — utilizava-se de um carrinho. E lá no fundo o repórter foi descobrir um trabuco, coisa feia, rústica, de funcionamento muito discutível. Pegou-o, examinou, perguntou o preço: cinqüenta cruzeiros.
A "arma" tinha apenas duas peças: cano e coronha, esta feita de madeira grossa e mal polida. Nem gatilho, nem nada. Perguntou sobre o seu funcionamento. E o dono respondeu:
— O senhor carrega, põe a espoleta em cima desse furo. Pra disparar precisa dar uma martelada (e mostrou como, com um martelo que tinha também para vender), porque o "bicho" ainda não está pronto."
O repórter achou que aquilo era manha de vendedor, querendo fazê-lo comprar também o martelo e desistiu do negócio.
O óleo do peixe poraquê
Logo que chegamos ao local, encontramos uma grande roda de curiosos, tendo no centro um homem baixo, chapéu de aba larga, paletó pendurado no braço, a apregoar as virtudes de uma droga maravilhosa: o óleo do peixe poraquê, o famoso peixe elétrico da Amazônia.
O nosso fotografo iniciou seu trabalho e começamos a anotar algumas de suas expressões, caneta e papel na mão. O vendedor deve ter desconfiado de nossas intenções, pois mesmo sem fazer nenhuma venda fechou sua mala, enfiou o paletó e suspendeu a função.
Mais tarde (o fotógrafo tagarela já havia revelado que erámos apenas da imprensa) ele reiniciou seu trabalho. Fez uma ligeira demonstração de prestidigitação, transformando papel velho em notas de cinqüenta cruzeiros, e colocou o produto à venda. Os assistentes pareciam não acreditar muito nas excelsas virtudes do óleo de poraquê, por isso fomos os primeiros a adquirir um vidro. O preço era convidativo e afinal devíamos uma compensação qualquer ao vendedor, por havermos involuntariamente, é certo, estragado seu negócio, muito antes.
Graças à compra, tivemos direito a uma bula do remédio, e de acordo com ela, podemos divulgar as numerosas aplicações do óleo do peixe elétrico: dores de cabeça, frieiras, feridas, eczemas, garganta irritada, mau hálito, asma, bronquite, tosse, rouquidão, sarna, coceira, torceduras, mau jeito, picadas de insetos, cortes, panarícios e dores traumáticas. Uso externo, deve ser agitado antes de ser utilizado.
"Índio do mato"
Índio do Mato é, talvez, o tipo mais curioso que pode ser encontrado no Mercado de Taubaté. Vende ervas medicinais, de todos os tipos, e prepara também medicamentos. É de estatura baixa, queimado de sol, usa um grande chapéu de aba larga, botas de cano curto e bolsa a tiracolo. Todos os dias estaciona sua pequena carroça nas proximidades do Mercado, arma uma rústica barraca e expõe suas ervas, à espera da freguesia.
Ele mesmo as apanha, dizendo-se grande parte é adquirida de pessoas que as trazem do litoral, de Ubatuba e Caraguatatuba. Não sabe ao certo quanto rende seu negócio: está sempre vendendo e comprando, uma semana mais, outra menos; passa todo o dia no Mercado, de modo que só pode percorrer os campos à noite.
Assegurou que lida com ervas desde os 7 anos. O repórter perguntou então sua idade atual.
— Estou com 65 anos, diz ele.
"Então já é um especialista".
Não responde. Limita-se a murmurar: "É, estou ficando velho".
Índio do Mato sabe, talvez por intuição, que a propaganda é a alma do negócio. Por isso ergue ao lado de sua carrocinha um grande letreiro, onde anuncia seus produtos, numa linguagem reproduzida abaixo com todo seu pitoresco colorido:
"José Sirilo de Oliveira tem 64 anos e uns meses comesô coneser remedio dei da idade de 7 ano fai 57 ano que vendo rais e folha tenho serteza do que vendo tem sido aprovado sô conhecido neste mercado de Deus e de Nossa Senhora e so companho a lei — Sô conhecido das senhoras e dos senhores sô conhecido como Índio do Mato por eu sê serio no meu negocio tenho o nome de bobo mas quem me diz é mais bobo do que eu. Esta carrosinha que tem o pelido de caminhão si eu quizer eu posso até trazê treis caminhão e atrago uma porção de remedio não conhece nem o que tem. Viva Taubaté."
Posou prazeirosamente para o fotógrafo e dispôs-se a prestar todas as explicações sobre seu negócio. Mas a absoluta ignorância do repórter no ramo dificultou bastante a coisa.
Tem ali, segundo afirmou, ervas para quase todas as doenças. Prepara também, drogas das coisas mais absurdas: de couro de preguiça, de que mostrou um exemplar, prepara remédio contra a bronquite. Couro de lagarto serve para disenteria. A pele do coelho cura machucaduras. O couro de jacaré, de que também possui um belo exemplar, serve para reumatismo.
No fundo da carroça havia um chifre de boi. Buzina não era; a curiosidade foi muita (a essa altura o repórter já havia demonstrado a sua total ignorância) e a pergunta saiu, um tanto tímida, talvez.
Índio do Mato sorriu mais uma vez da falta de conhecimento do repórter, mas essa o fotografo conhecia e assim a classe não ficou totalmente desmoralizada. Pois raspa-se o chifre e com o pó assim obtido obtem-se um "remedião" contra as lombrigas.
O entrevistado dispunha-se a continuar nas explicações. No entanto, diante de sua afirmação de que nem num dia inteiro conseguiria contar tudo, o repórter resolveu desistir.
Antes da despedida, entretanto, Índio do Mato, achou um jeito de lamentar a alta de preços dos produtos que é obrigado a adquirir. Apesar de a COFAP ainda não haver interferido, os preços estão continuamente subindo, e isso dificulta seu trabalho. Por exemplo: compra um litro de óleo de mamona por 15 cruzeiros e vai vendê-lo para quem? "Nem a preço de custo", garante.
Refere-se ainda aos perigos do ramo de negócio que escolheu. São três, afirma.
O repórter arrisca a pergunta ingênua: "Quais são os três perigos?"
Com um "uai" prolongado inicia a explicação: "Preciso vender com muito cuidado. Um remédio errado pode matar o cidadão de repente e depois a polícia e os doutores dão em cima da gente".
Este é o primeiro perigo. Os outros dois ele também não conhece.