Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VII - Edição 78
Maio de 2005
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Festa do Divino

Francisco Pati

Meu bairro esteve em festa sábado e domingo.

No domingo de manhã, estando à porta da matriz, vejo entrar, quase à hora da missa das dez e meia, a bandeira do Divino. Acabara de percorrer algumas ruas e vinha com uma porção de prendas. A frente da procissão viajavam cinco ou seis meninos carregando uma bandeja respectivamente. Na bandeira havia pão doce, frutas, dinheiro. O cortejo era acompanhado por uma banda de música. Bandeirolas de papel de seda cobriam a escadaria. Quatro "festeiros" empunhavam estandartes.

Assim que a bandeira entrou, passou por mim o vigário da paróquia.

— Senhor quer fazer o favor de dizer duas palavras aos pobres?

Compreendi que haveria, antes de iniciar-se a missa solene com três padres, distribuição de alimentos aos pobres. Agradeci e excusei-me. Não estava em condições de tomar parte na simpática cerimônia. Aproveitara o domingo para os meus habituais exercícios de pedestrianismo. Vestia roupa leve. Preferia continuar simples espectador. A manhã ensolarada e fresca, manhã de inverno paulistano, convidava ao passeio. Os acordes da banda e os salões completavam a festa da paisagem.

A festa do Divino, considerada do ponto de vista litúrgico — ensina Aluísio de Almeida, numa série de artigos sobre "Folias do Divino e de Reis", publicados na imprensa desta capital — é tão antiga quanto a Igreja Católica, lembra a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos, cinqüenta dias depois da Páscoa. Donde o seu nome Pentecostes.

A distribuição de pão aos pobres, para a qual me convidou o padre Tavera no último domingo, é modalidade introduzida na festa do Divino pelos portugueses desde o tempo de el rei dom Diniz e a rainha Santa Isabel. Entre a missa e a procissão, diz o mesmo folclorista, fazia-se o bodo em frente a uma capela improvisada a que se deu o nome de império. Aqui em Tremembé o bodo realizou-se entre a banca precatória e a missa. A procissão saiu à tarde. Houve depois quermesse e fogos de artíficio.

Anualmente são escolhidos novos festeiros para a festa do Divino. Esta não possui, entretanto, as características tradicionais a saber império, folia, jantares e danças. Quase dois meses antes do penúltimo domingo de julho começa a banda precatória a percorrer toda a vasta região montanhosa da Cantareira. Algumas "bandeiras" levam músicas e moças que cantam. A bandeira para à porta de um chácara e imediatamente cantam as moças acompanhadas pelo violino. O dono da chácara faz a bandeira entrar e oferece aos respectivos componentes comida e vinho. Contribui a seguir com uma importância em dinheiro para os festejos. A bandeira retira-se e vai repetir a visita na chácara vizinha. Em meus passeios matinais por montanhas e vales, sinto freqüentemente, nesta época do ano a região ressoante de hinos religiosos.

Este ano não houve, durante as incursões por vales e montanhas, nem canções, nem música. Os festeiros, conversando comigo, lamentaram a falta:

— Sem saloias — disseram-me — o petitório não rende muito.

Explicaram-me que em sendo muito grande, na região da Cantareira, a colônia lusa (considerável, em verdade, é aqui o número de chacareiros e leiteiros portugueses) bandeira com saloias agrada mais.

— A gente entra numa chácara à hora do almoço, quando a família está reunida à mesa, toca violino e canta, e então as saudades apertam... Todo português se lembra logo da sua terra.

Estou inteiramente de acordo com o sr. Aluísio de Almeida: "Debaixo do verniz da nossa grande metrópole e das nossas urbes civilizadas do interior, vivem ainda as tradições paulistas talvez em número maior que as outras, tão celebradas, do Norte e Nordeste. Debaixo da casca o tatu trás a casa". Ainda que reduzida a uma vulgar festinha de igreja, com procissão, quermesse e fogos de artifício, tem a festa do Divino, na região onde me encontro, um encanto muito particular. Durante dois dias, os últimos da festa, o bairro muda de fisionomia. Bairro pirotécnico por excelência, rojões arrebentam no ar da manhã à noite.

Às vezes, nas barracas, há canções, música, danças. Não estará ai, o elo que liga a festa do Divino de Tremenbé e de Além-quer, no tempo de dom Diniz e Santa Isabel?

Têm a palavra os folcloristas.

(Pati, Francisco. "Festa do Divino". Correio Paulista. São Paulo, 23 de julho de 1952)
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