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Abelardo Duarte
Os autos populares brasileiros, ou como se diz vulgarmente, os folguedos
populares ligados ao ciclo do boi, em que este animal aparece como motivo senão
fundamental, mas, pelo menos, de grande importância, têm origem discutida.
É inegável que os três elementos étnicos que formaram o povo brasileiro — o
europeu, o africano e o indígena — concorreram para o aparecimento desses autos,
de vez que o animal em apreço figura no corpo das tradições de povos da Europa,
da África e da América.
Os exemplos se sucedem. É costume em procissões no Minho, a terra por
excelência, dentre as províncias portuguesas, das romarias em que tanto se
expande o espírito religioso da gente de Portugal, ir adiante um boi enfeitado
ou adornado — Boi bento — que encarna assim, ao vivo, a tradição católica
do boi da manjedoura em que veio ao mundo o Menino-Deus.
Ao mesmo tempo, realizam-se as popularíssimas feiras minhotas, onde ao lado do
vinho verde, do caldo verde e do pão de milho, há feira de fruta, da louça e
principalmente, do gado, que já então não surge divinizado, mas como objeto de
comércio, além de se tornar motivo para divertimentos populares.
Igualmente, o boi é personagem de autos populares e já mestre Gil Vicente no
conhecidíssimo Monólogo do vaqueiro" explora o tema do touro, um dos dozes
signos do zodíaco. Na origem desses autos populares na Península, em cuja
temática se apresenta invariavelmente o boi, perde-se o investigador em fundos
mergulhados na história, dada a formação étnica do povo lusitano.
O totemismo é observado entre os povos da África, notadamente entre os bantus.
Artur Ramos firmou o conceito de que o afro-negro contribuiu, fundamentalmente,
para a formação do auto popular brasileiro do bumba-meu-boi e estudou à
luz da psicanálise, valendo-se do testemunho de A. F. Nogueira que nas terras da
África, entre os ba-naneca, observou o culto ao boi Gerôa, o animal sagrado, é
conduzido processionalmente, pelas ruas das aldeias, no meio de cânticos e
danças de fundo religioso. Da mesma maneira, Edison Carneiro invoca esse
testemunho de A. F. Nogueira para explicar as sobrevivência totêmicas do boi nos
autos populares brasileiros do ciclo respectivo e nos ranchos e ternos da Bahia.
Ranchos e ternos nos quais já Nina Rodrigues vislumbrara mesmo como
sobrevivência totêmicas.
Quanto à influência cabocla, há um verdadeiro ciclo do gado, com os romances do
boi e as festas das vaquejadas e apartações, tão valentemente típicas do sertão
brasileiro, onde a lírica dos troveiros populares, esses humildes gênios
poéticos, que criaram "os dramas e as farsas da gadaria", no dizer de Luís da
Câmara Cascudo, vai buscar os mais fortes motivos.
Como a advinda do colono branco, a influência afro-negra ameríndia nos autos
populares brasileiros é também patente.
Segundo Artur Ramos, "o auto popular do bumba-meu-boi é o mais característico
dentre as sobrevivências totêmicas no Brasil".
Em face da aculturação, e referido auto, que é originário do Nordeste, apresenta
variantes, mostrando elementos que denotam a crescente influência ameríndia, e
não apenas a súmula das três — afro-negra, peninsular e ameríndia.
Os reisados e os atuais guerreiros, autos populares que nas Alagoas
apresentam grande pujança coreográfica, são outras ricas sobrevivências
totêmicas. No seu trabalho sobre "Reisados e guerreiros" (e no qual incluiu
versões dos dois autos) publicado na Revista do Instituto Histórico de Alagoas,
diz Téo Brandão que "há, porém, um entremeio que não pode faltar em nenhum
reisado: é o boi e que bem mostra a sua filiação ao bumba-meu-boi dos outros
estados do Nordeste". Considera mesmo Téo Brandão o "entremeio" do boi de
notável dramaticidade, "o mais rico de conteúdo dramático". E, de fato, dos
"entremeios" tradicionais (que são vários quer no reisado ou congo, quer
nos guerreiros) o do boi joga com maiores elementos dramáticos,
culminando na cena da morte do animal, na leitura do testamento do boi (parte
subtraída do auto do bumba-meu-boi), e, finalmente, na ressureição ou cura do
boi.
Há, porém, uma sobrevivência totêmica, de cuja existência não tenho notícia
senão nas Alagoas. Trata-se do enterro da cabeça-do-boi.
Segundo Artur Ramos, na sua cidade natal (Pilar, hoje Manguaba), o enterro da
cabeça-do-boi coincide com o levantamento do mastro da santa padroeira da
cidade.
Em Maceió, ao tempo do major Bonifácio Silveira, era forçosamente o fecho dos
festejos natalinos em Bebedouro, antes do advento do chamado "primeiro grito do
Carnaval", com a exibição das Ciganinhas do Major, espécie de cordão
carnavalesco que então percorria as ruas do bairro tradiconal, no último dia das
festas e substituiu, nos últimos tempos o tradicional enterro da
cabeça-do-boi.
Deixando de lado a interpretação psicanalítica que magistralmente lhe deu Artur
Ramos, de "uma volta do recalcado", o enterro da cabeça-do-boi, que se pode
perfeitamente ligar ao conjunto das festas populares do ciclo do boi no Brasil,
consiste numa simples procissão em que é levada numa carroça a cabeça do boi,
descarnada com os chifres enfeitados de laços vermelhos, pelas ruas da cidade.
Enfeita-se também a carroça com palmas de ouricuri, folhas de maio e estrepam-se
algumas vezes nos tueiros chifres de boi e sobre ela vai, também, a ancoreta de
aguardente de cana para distribuição entre os festeiros que terminam a sua
faina. À frente do cortejo, seguem o bando instrumental popular, que é o esquenta-mulher,
e mais algumas figuras do reisado, como o Mateus e o doutor. Aos gritos do
Mateus, o cortejo faz todo o percurso, entrecortado de paradas para as libações
alcoólicas do farrancho, e dos aderentes.
O Mateus não cessa de gritar a plenos pulmões, como se tivesse tangendo o gado:
—
Eh, boi! Eh, boi!
Com a chibata, substituída às vezes por trança de cebola, vai açoitando o
molecório que acompanha o cortejo.
Eis o que é o enterro-da-cabeça-do-boi. O totemismo está vivo, palpitante,
nesse brinquedo com que nas Alagoas terminavam infalível e antigamente as
janeiras. Sobrevive nele o espírito de culto, de veneração, ao animal — o
totem — que foi o móvel em torno do qual giraram os folguedos e se constituíram
os autos populares do ciclo do boi levados durante o período das festas. Nessa
última manifestação totêmica, o boi não é levado em triunfo, pelas ruas, em
procissão, como no episódio do boi Geroa, na África, representando a vitória da
colheita farta; o enterro simbólico dos seus restos mortais — a cabeça com os
respectivos chifres — traduz ainda uma manifestação puramente totêmica,
reproduzida pelo inconsciente ancestral folclórico.
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