Pelas cidades do interior e fazendas é comum se acenderem fogueiras na noite véspera de
São João. Queimam-se fogos; lêem-se sortes, enquanto arde a pira.
Pois bem, entre os usos correntes nessa noite de São João, há o de pular a fogueira,
bem como de atravessar o braseiro de pés descalços. O que vários realizam, dizem, sem
se queimar.
Há nesses costumes uma tradição européia cujo sentido perdeu-se, conservando-se o ato
externo, por mero diletantismo.
Já vimos como, entre os povos indo-europeus, os das civilizações norte-africanas e
ainda da América Pacífica, o culto ao deus-sol possuía um caráter universal. Ora,
entre os ritos desse culto danças rituais, que se realizavam no princípio da
primavera ou no solstício do verão, saudação
matinal ao sol, oferendas e sacrifícios por ocasião das festas solares, em que também
se realizava a cerimônia do fogo novo com a fricção de dois paus figurava a
prática, entre os povos primitivos, de acender fogueiras nos solstícios de verão e
inverno, em homenagem ao deus-sol, segundo Frobenius, P. Guilherme Schmidt e outros
etnólogos. Essas fogueiras tinham um sentido propiciatório, sendo freqüentemente
imoladas vítimas, para que o deus-sol continuasse propício. Havia ainda o costume de se
passar a fogueira a pé descalço, quando já braseiro. E isso era realizado pelos pais,
mães e filhos, com sentido de purificação, de preservação de males corporais. E até
os rebanhos de ovelhas e o gado eram levados a atravessá-la, para se preservarem das
pestes ou delas se curarem.
Entre os hebreus estabeleceu-se em certa época idêntico costume, o qual foi proibido por
Moisés, por seu caráter pagão. J. G. Frazer, em sua obra
The golden Bough, ou
sua tradução francesa
Le Rameau dor, II, Paris, 1911, acentua este duplo
efeito do fogo daquelas piras: purificar e preservar de pestes e males, embora rejeite a
interpretação que lhe é dada pela escola ritualista (veja-se, a propósito, o livro
Les
saints successeurs des dieux, Paris, 1907, de P. Santyves). Essas primitivas
práticas, com o advento do cristianismo, perderam seu conteúdo ritual solarista, e a
igreja sabiamente não se opôs à continuidade da tradição, a que deu um conteúdo
cristão: homenagem a São João, o precursor da luz do mundo Cristo. É com esse
sentido cristão que se acendem ainda em toda a Europa as fogueiras de São João, no
solstício de verão, entre nós correspondente ao de inverno. De Portugal vieram-nos
elas. Os primeiros missionários jesuítas e franciscanos referem quanto eram apreciados
pelos índios tais festejos de São João, por causa das fogueiras, que em grande número
iluminavam as aldeias, e as quais eles saltavam divertidamente. São, pois, nossas
fogueiras de São João, verdadeiras "sobrevivências", que perderam o primitivo
sentido ritual.
(TEIXEIRA, José Aparecido.Folclore goiano; cancioneiro, lendas, superstições)