Atraído pelas crianças que brincam de roda na rua, chego a esta minha janela e assim sem querer, sem esperar, tomam conta de mim estas velhas imagens, que andavam fazendo "ciranda, cirandinha" dentro do coração. Estas canções que só nós podemos compreender, esse ritmo eterno que as gerações vão aprendendo, e que simultaneamente, vão esquecendo, em contato com o mundo.
Desta janela percebo que o sonho azul dos namorados ainda perdura nos corações glorificados pelo amor. É junho. Há festas em toda parte. Nesta nossa terra, há festas, também há festas no céu, senão como justificar aquela porção de estrelas, a Via Láctea, as Três-Marias, o Cruzeiro do Sul e aquela lua tão bonita correndo no eterno, quando as chuvas ainda são abundantes por aqui? E aqueles balões que vão sumindo na distância, coloridas estrelas confundindo-se com elas, comos os sonhos desfeitos no vendaval da existência...
Ver Lucinha, na doidice de seus quinze anos, rindo para a vida, tão bela ao redor da fogueira, convidando o jovem namorado ainda mais encantado com aquela promessa morena.
— Vamos passar a fogueira, Alberto!... De prima, serve?
— Não, de noivos...
E quando desejam ser noivos, é porque lá no fundo do coração, já existe uma sentida admiração pela gentil companheirinha. Talvez uma história de amor, nascida num baile, num recanto da praça, num passeio de fim de semana ou mesmo na passagem de todos os dias, para o colégio ou para o passeio vesperal.
Então a fórmula festeira do contrato, a célebre rima do "São João disse...", é repetida com viva devoção e no fim, para selar aquele compromisso, em vez do beijos, na minha terra existe o simples e cordial:
— Boa noite, meu noivo!
— Seja feliz, minha noivinha!...
Lucinha, quinze primaveras nos cabelos negros e Alberto, dezoito anos de ansiedade, encarnam nestas oitos horas da noite de São João, os pares de jovens "de almas tão iguais", que se acham em Bragança, encastelando sonhos em todas as ruas da cidade.
São João disse,
São Pedro confirmou
que havemos de ser noivos
Que Jesus Cristo mandou
Nesta sagrada noite de Precursor, é quando invadem esta minha saleta de solitário, as vagas sombras da saudade. Ao ritmo doce e embalador das cantinelas que vêm da rua, eu vou juntando esses pedaços de recordações, que andam dispersos por aí e com eles reconstituindo o verdadeiro São João da minha terra. Ao contemplar a tela ressurgida no tempo, vejo que as cantinelas foram buscar o "boi" Treme-terra, lá na distância onde se encontrava, onde existia um garoto feliz de alma simples, encantado com as rimas saborosas do enversador improvisado:
Lá vai, lá vai, lá vai
Lá vai, pra quem qué vê,
Lá vai, boi Treme-terra
Fazendo a terra tremê...
E o Treme-terra, pulava, saracoteava, o vaqueiro de quando em vez gritando: "Eh, boi..." Era o São João da aldeia, jamais reconstituído, que ainda pude surpreender de calças curtas.
Majestosa, bem ali onde está hoje o Cruzeiro, "o cenobita mudo de braços abertos", erguia-se a igreja de São João. Nesta praça existiu festa famosa. A praça se enchia de gente que vinha passear, orar, namorar e conversar. Nas barraquinhas, armadas em torno, podia-se achar a "pinga" escaldante, a garapa geladinha, o tacacá, o aluá, o mungunzá (meu Deus, que tanto há!...) e um mundo de coisas gostosas bem regionais.
Os foguetões no céu, os estalidos da lenha da fogueira, os foguetinhos e as bombas, toda aquela zoada de infernal "jazz-band" ainda me ficou nos ouvidos, tal como foi outrora.
O querido São João da Aldeia era a festa máxima do meio do ano. Com o bumbá vinham os inesquecíveis personagens, que eram o regalo da gurizada. Pai Francisco e Mãe Catarina, ambos instigando o dono do boi para matar, sem dó nem piedade, o terrível Treme-terra. Cazumbá, uma imitação perfeita de bobo da corte vestido de sarrapilheira, trazendo no rosto uma horripilante máscara de couro, fazendo mil diabruras abrindo o alegre cortejo, espantando a meninada, de chicote em punho.
Quando, alta madrugada, todos os brincantes do bumbá, já estavam bem cheios da "branquinha", desandavam em desordens várias, mestre Maxico, o dono do boi, gritava, visivelmente irritado, impondo autoridade:
- Não! Não! Assim não!... Assim o boi não brinca!...
A brincadeira ia longe, passava do dia 30 o dia de São Marçal, o santo a que se devotam as fogueiras de paneiro e quando se aproximava o primeiro sábado de julho, toda a cidade sabia, que o Treme-terra seria morto. Saía nesse dia pelas portas das principais casas de famílias e comerciais, a pedir a benevolência do povo abastado. Cantava o enversador as virtudes do "senhor", que pregava com alfinetes uma colorida cédula de dez cruzeiros ou mais na costa do bumbá.
À noitinha, já reunidos estavam todos no terreiro, esperando o vaqueiro que tinha ido atrás do "boi", que sabendo o seu destino, fugira, aproveitando um momento de distração dos brincantes.
Cazumbá fazia graças, Pai Francisco e Mãe Catirina amolavam a faca, esperando a volta do Treme-terra. Eis que depois de tanta busca, o vaqueiro aparece com o boi, no que é saudado pelos circunstantes. Bem preso, ao som de versinhos mais ou menos tristes, Pai Francisco sangra o teimoso, que abatido tão cruemente, verte sangue "quente de vinho barato", empapando o terreiro enfeitado. E ainda me lembro do fim de uma dessas brincadeiras quando o enversador chorava a morte do bumbá. Barbadinho, um tipo popular da cidade, que já vinha sorvendo a "branquinha" desde o dia de sábado clareou, chorava também. Alguém interpelou o "saudoso":
— Estás com pena do Treme-terra, Barbadinho?
— Não. Não é isso. É que a cana "de graça" vai acabar...
Nestes tempos ainda é a mesma brincadeira. Pouca coisa mudou, só nós é que mudamos. Somente nós é que não descobrimos mais aquele encanto maravilhoso e aquela mensagem que vinha dos versos "torcidos" do enversador de primeira.
Ouço desta minha janela de Bragança, onde me encontro, o povo que corre para a praça de São Benedito, bem pertinho desta General Gurjão onde resido. É a mesma alegria de outrora. A fogueira já está sozinha. Ardem ainda brasas. Lucinha, que sorri para o mundo sem perceber que o mundo sorri para ela, mãos dadas com o jovem noivo feliz, passa também apressada.
— Jorge, não vais ver o Tá Cavando?, alguém que se apercebe do meu mutismo, convida-me para ir ver o boi-bumbá, recém-chegado na praça.
Fecho a janela. Dez horas da noite de São João. Um foguete espoca no ar, alegria em toda a parte. Bragança não dormirá esta noite, de tanta fogueira, foguetinhos e rojões espalhafatosos. Tudo está em festas. No céu, festas, na terra, festas também.
Dentro do coração, nesta minha saleta cheia de livros, velhos papéis, sonhos, que tantas vezes já me viu acalentando esperanças e sufocando mágoas, eu ouço comovidamente, o grande órgão do sentimento, entoando aquela canção velhinha e tão nossa:
São João, São João,
Acende a fogueira,
No meu coração.
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