Depois do Deus Menino reverenciado nas festas do Natal, São João Batista, é o santo
mais enternecidamente festejado em todo o Brasil. E é bem possível que as alegrias do
Natal, no interior baiano, por exemplo, não sejam tão grandes como aquelas que o povo
manifesta por ocasião da passagem do solstício do inverno, no dia
dedicado "ao senhor São João".
É um dia santificado à moda brasileira: não se precisa ir à igreja. A guarda desse dia
é externada pela espera feita em casa, ou melhor ao redor da fogueira. É a vigília que
milhões de brasileiros religiosamente realizam, guardando a seu modo esse dia
santificado.
A partir do meio-dia do dia 23 ninguém mais trabalha, vão para casa. São João é festa
de família, cimentadora da solidariedade vicinal.
Quem está trabalhando vai para casa. Esta é engalanada com flores silvestres e
artificiais.
Nas fazendas, sítios, bairro rural, nas aglomerações urbanóides, nas ruas, onde é
possível fazer fogueira, aí estará presente. Nas casas pobres quando não foi possível
catar ou comprar lenha, uma vela acesa no batente da janela e ramas de cana ou outra
planta, enfeitam a presença do fogo.
A agitação na véspera toma todos. Os mercados, as feiras, as casas comerciais, ficam
regurgitando de gente que vai comprar os preparos para a comezaina apropriada para o dia do
"Senhor São João", destacando-se a canjica, presente na mesa do rico e do
pobre. Nelas não faltarão o "bolo de São João", também chamado "bolo
de carimã com ovos", amendoim cozido, carne e não se fala em bebida, porque o licor
de maracujá ou jenipapo já está esperando para ser degustado.
Nesse dia há pirâmides de espigas de milho verde para serem vendidas na feira. Homens e
mulheres passam carregando mãos de milho verde para o preparo de comidas, pois esta
prodigiosa gramínea é o alimento típico desta festa, com a qual coincide a época de
início de sua colheita.
As barracas, as bancas nos mercados e feiras, as casa comerciais, os caminhões, as
carroças se engalanam com enfeites coloridos, porém o mais comum é a rama de cana com a
sua ponta de folhas, muito verdes por haverem recebido há pouco as chuvas de inverno.
Nas cidades grandes, nas capitais nordestinas (Salvador, por exemplo) nos bares e cafés,
os empregados, como se faz no sul por ocasião do Natal, escrevem nos vidros das vitrinas
e colocam caixas para espórtulas e nelas escrevem
dísticos alusivos ou um simples "VIVA SÃO JOÃO", que fazem lembrar os pedidos
e votos de "boa-festas" da época natalina.
A alegria é grande porque no inverno no nordeste preliba-se a fartura, muito maior quando
se teve a presença das chuvas e neste de 1961, muitas fogueiras foram apagadas pela chuva
dadivosa e promissora.
A alegria não escolhe classe, ela invade o coração de todos. Os ricos, para suas
fazendas e chácaras levam os parentes congregando-os ao redor da fogueira grande no
pátio enfeitado de farfalhantes bandeirolas de papel multicoloridas. Na árvore
adrede plantada perto da fogueira
foram colocadas laranjas, milho verde, coco, charutos, cigarros, presentes, garrafas de
bebidas.
No dia do "senhor São João" no nordeste, nesse nordeste, onde se sente
nitidamente a separação e o distanciamento entre as únicas duas classes sociais
existentes a dos ricos e a dos pobres nesse dia, não se nega comida a
ninguém, vizinhos, conhecidos pobres vão entrando nas chácaras, ou fazendas ou nas
mansões e vão comendo de tudo que se há, sem que se faça distinção entre as pessoas.
Só não se oferece cachaça nesse dia, mas muito licor de maracujá e jenipapo.
A sanfona vai tocar e os pares vão dançar marchas, polcas, mazurcas, quadrilhas e para
tal já se fantasiaram com roupas de tabaréu.
A ceia de São João na sala da casa rica, está posta na mesa. Bem ao centro a imitação
de uma fogueira ostentando um ramo florido. Ricas imitações de fogueira e flores
artificiais primorosas (Feira de Santana). Esta imitação é rodeada pelas comidas
típicas regionais: vatapá, caruru, xinxím, efó, bolo de milho, canjica, muita canjica,
espigas de milho verde cozidos, peru, galinha assada, carneiro...
Ricos e pobres vão
esperar a chegada do São João. Estes enfeitaram a casa com
flores silvestres e galhos verdes, destacando-se as ramas de cana. Quando armam a fogueira
na frente da porta da casa, plantam uma arvorezinha bem verde: bananeira, mamão macho
(porque está sempre florido) ou outra planta e nela nunca faltam presentes pendurados em
seus galhos ou folhas.
Homens e mulheres procuram vestir as melhores roupas, as moças garridamente e as
crianças são trajadas de branco, "à marinheira", usam chapéu de seda de
cores berrantes, sombrinhas de papel crepom colorido. Flores nos cabelos das
meninas-moças e muitos adultos, em geral velhotes, passam janotas com seu cravo vermelho na
lapela. Há flores por toda parte: flores artificiais e as naturais que "se alteiam
belas, puras, singelas orvalhadas, vivas" após as chuvas de inverno que, quando
precedem o dia de São João no agreste brasileiro, o tornam mais alegre.
Logo que o sol se põe e a noite vem chegando, acende-se as fogueiras, rezam e cantam
hinos "ao senhor São João" ao seu redor. Queimam os fogos, os poucos fogos de
artifício que a carestia permite comprar: o simples traques-de-velha, foguetes, fósforo,
bengala, fósforo de cor, chuveiro, cobrinha, traque de massa, busca-pés, espadas. A
terrível espada, sem estrondo, preparada com limalha de ferro, e que permite a luta, a
disputa entre moços, que as aparam no peito, que se desafiam e porfiam como fazem em Cruz
das Almas (Bahia), em verdadeiro duelo que torna as ruas intransitáveis...para os que
não querem se queimar com esse tipo de foguete.
De meia-noite em diante canta-se e dança-se com as músicas profanas que fazem esquecer
as rezas de antes dessa hora que marca o "o dia de São João".
Quando vai alta a madrugada, bem antes do quebrar da barra do dia, soltam foguetões com
bomba e o povo grita: "Acorda São João!" Soltam outros foguetões repetindo o
álacre "acorda São João!" Nessa vigília amanhecem. Os namorados buscam
também o aconchego da fogueira.
Caso alguma casa esteja com as portas fechadas (não sendo casa de "crentes"
evangélicos) e com uma luz acesa, batem na porta convidando seus moradores para cantar e
dançar. É uma alegria contagiante. Tão grande que emendam a vigília ao dia de São
João nessa festiva e envolvente manifestação coletiva de confraternização, onde
muitos afilhados-de-fogueira se batizam nesse fogo que tem o condão de aproximar os
homens.
As moças tiram sortes, colocam água na boca e se escondem atrás da porta para ouvir um
nome masculino. As que acaso ouvirem, casar-se-ão com um homem que tenha esse nome.
Enfiam a faca na bananeira, pois muitas não tiveram sorte com o bilhete que enviaram a
Santo Antônio. Muitos homens, fazem orações para o fechamento do corpo, e elas só
serão eficazes se feitas no dia do santo. Tira-se a sorte por meio de jogos cuja
finalidade é saber o futuro, em geral quanto à nupcialidade o que vem a ser prática de
ritos de passagem.
A fogueira crepitante armada entre a casa e a arvorezinha verde que fora plantada,
atingindo-a fá-la murchar e pender. Quando ela tomba os circunstantes procuram apanhar os
presentes que foram colocados em seus galhos. Não é necessário disputar, há presentes
para todos. A árvore é a própria árvore ariana queimada nas fogueiras do agreste ou do
ressequido sertão nordestino. É a mensagem da arqueocivilização, da árvore que
renasce após o inverno, lá na Europa distante e crestada pelo gelo, aqui pelo fogo. Gelo
de maio europeu, fogo de São João brasileiro.
Mas todos estão atentos para presenciar de que lado a árvore vai cair, pois caso tombe
para o lado da casa de quem a plantou esse fato é sinal de agouro para o plantador e sua
família porém pendendo para o lado oposto, para o lado de fora, o caso é sinal de
sorte. Redobra-se a alegria.
Alegria até para o ano que vem!
(ARAÚJO, Alceu Maynard. Folclore nacional)