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Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Moçambique

Rossini Tavares de Lima

O moçambique ou maçambique, como preferem denominá-lo alguns informantes, parece ser coisa relativamente recente no folclore do litoral norte de São Paulo. E é possível que tenha sido introduzido, especialmente em Ubatuba e Caraguatatuba, por gente de serra acima, como se diz porl á ao se referir aos habitantes do município de São Luís do Paraitinga e até de Taubaté, há uns trinta anos.

Entretanto, já se difundiu de tal maneira que podem ser vistos em Caraguatatuba, Ubatuba e, segundo nos informaram, também na praia de Perequê, em Ilhabela, vários grupos de moçambique. Mas, durante a nossa estada na região, quem primeiro nos forneceu melhores esclarecimentos sobre esse folguedo foi Brasiliano Pereira de Moura, mestre de moçambique de Jituba, perto de Massaguaçu, no município de Caraguatatuba. A ele devemos a história da origem do moçambique, que vamos apresentar:

"Um homem tava numa festa e tinha quatro pessoas na porta para matar ele. Ele era devoto de São Benedito e o santo disse: 'Vamos inventar uma dança'. Assim o homem pôde sair e ir embora. O santo inventou e o homem saiu junto e os quatro homens não mataram ele. O homem saiu no meio dos moçambiqueiros." São Benedito inventou a dança dentro da casa, onde se realizava a festa, e os dançadores saíram formados em duas fileiras, uma do mestre e outra do contramestre. O homem que queriam matar foi andando no meio delas.

Esse mesmo informante contou-nos que o instrumental do moçambique é constituído de caixa, pernengome ou pernangoma, chocalho feito de lata achatada, guizos ou paiás e bastões e que se sabia da existência de uma outra companhia, a do Zé Américo, que morava no Caputera, mas mudara para o Rio do Ouro, no pé da serra, a poucos quilômetros de Caraguatatuba.

Posteriormente, a 24 de janeiro, no bairro da Rua Nova, em Ubatutba, entramos em contato com um grupo de maçambique, cujo mestre era o preto Modesto Matias de Oliveira, de vinte e nove anos, nascido em Lagoinha, município de São Luís do Paraitinga, onde aprendeu a dançar, ainda criança. E a ele devemos algumas informações, anotadas pelo nosso companheiro Américo Pellegrini Filho.

Além dos guizos de bronze e dos bastões, que funcionam como idiofones sacudidos, o grupo usa dois instrumentos: a caixa e a viola. Às vezes, também integram o conjunto instrumental o pandeiro e o violino, como aliás aconteceu na ocasião. A bandeira que é carregada por eles foi feita há oito meses, em Cachoeirinha, bairro de São Luís do Paraitinga, pelo conhecido escultor e pintor popular Amaro Monteiro de Oliveira. Não sabem qual o significado das fitas verde e vermelha que usam trançadas no peito e nas costas. Infelizmente, não puderam ainda comprar um uniforme completo: usam calça branca e calça escura. A companhia existe há um ano, mas já ficou cinco meses parada, porque o padre de Itaguá, bairro de Ubatuba, "embargô". O grupo pode se chamar indiferentemente banda de maçambique ou companhia de maçambique e ainda congada. A menina que carrega a bandeira, símbolo do folguedo, denomina-se rainha da bandeira ou carregadora da bandeira. A companhia completa compreende rei, rainha, general, capitão-de-linha, dançadores de meio, mestre e contramestre. O capitão-de-linha, esclarece Modesto Matias de Oliveira, "é o conselheiro; às vezes, uma pessoa falta e ele vai lá e aconselha porque não veio, porque que faltou..." O general é reserva, é "para não deixar a turma fazer bagunça", impedir que os assistentes atrapalhem a dança. "Ele manda até no mestre!" O rei "é enfeite da dança. É segurador da bandeira. E as duas rainhas ficam lá perto da bandeira".

Luís Fernandes, contramestre do moçambique que investigamos em Ubatuba, disse-nos que em Poruba, no mesmo município, o folguedo é chamado congada de São Benedito e que quando os moçambiqueiros estão "na obrigação", isto é, realizando a dança, não bebem e não fazem bagunça. Costumam, outrossim, apresentá-lo de casa em casa em que são convidados pelos moradores.

A companhia ou banda de Modesto Matias de Oliveira chama-se Companhia de São Benedito, designação cujas iniciais se acham bordadas na frente dos gorros usados pelos dançadores: C. S. B. Tendo faltado alguns componentes, no grupo só havia dez moçambiqueiros, com o mestre, contramestre e os dançadores do meio, que são os demais, além dos instrumentistas: um tocador de caixa, um de viola, um de violino (rabeca) e uma menina e depois uma senhora que seguraram a bandeira. Todos os dançadores usavam guizos nas pernas, os paiás, e bastões nas mãos; o mestre usava um "arpite" (apito), executado na ocasião da mudança dos figurados.

O uniforme era constituído de calça escura comum, no geral azul-marinho, camisa branca também comum, uma fita vermelha e outra verde trançadas no peito e nas costas, gorro branco bordado com flores e outros ornamentos, inclusive com uma estrela. Dançavam descalços, como os grupos mais autênticos do vale do Paraíba. A rainha, segundo declaram, deve vestir saia azul-escuro, blusa branca, com uma fita azul. Diz o mestre que a companhia ainda não possui uniforme completo por falta de dinheiro, mas espera consegui-lo para isso.

A bandeira, símbolo do grupo, não passava de um estandarte, como é comum, preso numa haste feita de madeira, a qual era fixada no mastro. Esse estandarte possuía 65 centímetros de largura por 1,10 m de comprimento e era de pano vermelho, tendo na extremidade galões amarelos com fios dourados. Na parte interior do estandarte, havia o quadro de São Benedito, de 30 cm de largura por 48 cm de comprimento, pintado em azul. O mastro, com 1,78 m de comprimento, tinha na extremidade superior um buquê de flores de papel crepom azul, rosa e branco, chamado "coroa da bandeira".

Para realizar a dança, os moçambiqueiros ficam em duas fileiras frente a frente, uma tendo na extremidade o mestre e outra o contramestre. Ao lado destes, mais para a extremidade central das fileiras, colocaram-se a bandeira e os instrumentos: rabeca, viola e caixa. Na outra extremidade, havia dois dançadores, meninos de seus dez anos. Na primeira "cantoria" que se chama Marra o paiá, eles permanecem quietos, com os guizos nas mãos, ouvindo a parte do mestre, depois a deste com o contramestre e a seguir, o coro:

Ai, vamo com Deus
Ai, vamo, ai, junto com a Virgem Maria
Ai, ô, ô, nosso rei São Benedito
Ele há de nos ajudar, ê, a

Senhor rei mandou, mandou
Marrar o paiá, pra ficar bonito
Marrar o paiá, sirbico ou siribico
A, ê, ê, a, ai, ê, ê, a
Na linha de São Benedito
Senhor rei mandou, mandou
Marrar o paiá, pra ficar bonito

Enquanto o canto se repete, os dançadores amarram os paiás ou guizos abaixo dos joelhos e dão início à dança, batendo os bastões uma vez em cima e outra embaixo, frente a frente. Com um apito, o mestre encerra esta parte e após um descanso de alguns minutos, começa a segunda, que compreende o Canto do pedido, sempre principiando com a voz solista do mestre, dando seqüência em coro, com os dançadores a jogar os bastões em grupos de quatro, ficando de um lado os dois meninos. Eis os versos:

Ai, vamos com Deus
Ai, vamos, ai, junto com a Virgem Maria
O meu senhor me dá licença
Pra chegar São Benedito
Nós viemos com a companhia
Pra fazer o seu pedido

Ao término do canto, o que é indicado com o apito, segue-se a terceira parte, chamada Padroeira de Guará:

Ai, vamos com Deus
Ai, vamos, ai, junto com a Virgem Maria
O meu rei São Benedito
Ele há de nos ajudar
E a Senhora Aparecida
Padroeira de Guará

O trecho seguinte foi Estrela da guia ou Estrelinha do mar, que nos deu impressão de ser mais importante que os demais. É animado e é aí que aparece o "passo" da estrela. Cantam os moçambiqueiros com solista e coro:

Ai, vamos com Deus
Ai, vamos, ai, junto com a Virgem Maria
A estrelinha do mar
Já vem brilhando
Parece o dia
Que vem clareando

Depois do canto solista, os dançadores cruzam os bastões no chão, formando uma série de losangos. E sobre este desenho dança, primeiramente, o contramestre, pulando à direita, à esquerda, na frente etc. O mesmo figurado executam os outros moçambiqueiros, atendendo sempre ao comando do apito. A seguir, os bastões são levantados e formam à altura da cintura e da cabeça o mesmo desenho observado no chão.

A quinta parte ou cantoria, como costumam denominar, é o São Benedito da Bandeira.

Ai, vamos com Deus
Ai, vamos, ai, junto com a Virgem Maria
Sâo Benedito na bandeira, ê, a, ê
É o protetor da companhia
Vem salvar esta morada, aê, aê, aê, aê
Abençoa sua família

Os participantes, a dançar, com os bastões, formam duas rodas: a do contramestre e a do mestre.

No sexto trecho, tocando o chão com a ponta dos bastões, mestre e contramestre e depois o coro entoam:

Todos beijam o Senhor
Todos beijam a Senhora
Este pai que nos adora
Todos beijam o Senhor
Todos beijam a Senhora

Esclarecendo, ao final desta parte, que havia muitas outras, o mestre encerrou a apresentação com o Canto da despedida:

Ai, vamos com Deus
Ai, vamos junto com a Virgem Maria
Adeus, senhor, adeus, senhora
A companhia já vai s'embora

O desenvolvimento dos cantos deu-se da seguinte maneira:

solo - sem dança; duas vozes em terças e coro - sem dança;
solo - com dança; duas vozes em terças e coro - com dança.

A música vocal do maçambique ou moçambique é designada pelo nome de cantoria. Nas sete melodias executadas, o início foi sempre idêntico, só variando em detalhes mínimos por causa do texto literário. No seu transcurso, a viola e a rabeca apresentaram livremente o acorde de tônica (I grau) repetidas vezes, numa medida rítmica mais ou menos organizada, mas independente de qualquer esquema acompanhante determinado e obrigatório. Ao fim de cada estrofe dessa espécie de introdução de todas as cantorias, o tocador de caixa percutia o instrumento com a baqueta da mão direita com batidas fortes. Nesse trecho, a melodia vocal é entoada sem compromisso rítmico preciso, mas em geral o cantador solista não foge muito a uma medida fácil de ser entendida, pois o coro deverá responder aquilo que ele entoa. Quando muito, na sua interpretação, observa-se apenas um "rubato". Encerrado o canto do coro da primeira parte, o cantador solista ou mestre dá início à segunda, entrando sozinho, sem acompanhamento, a fim de indicar aos instrumentistas o andamento do trecho. Só mais adiante, cantado um pequeno segmento, entram os instrumentos acompanhantes. A certa altura da cantoria, realiza-se a dança propriamente dita e aqui entram em função rítmica os paiás e os bastões.

Um dos instrumentos básicos do moçambique é a caixa, também chamada tambor. Ela era nesse grupo, como em outros já por nós observados, uma pequena caixa clara do tipo tarol ou tarola, porém um pouco mais alta. Seu diâmetro é de 31,6 cm e a altura 10,5 cm. É industrializada e apresenta duas membranas de cabrito. Na inferior, possuía um bordão, que impedia que a caixa rufasse. Esse bordão, quando necessário, é apertado por meio de uma peça metálica que existe no aro, a qual se intitula requinta. O talabarte da caixa é chamado pelo executante de correia e é mesmo uma peça de couro. 

A caixa era executada com duas baquetas mais curtas que as utilizadas nos tambores de bandas de música ou militar. Também são um pouco mais grossas e de tamanhos diferentes, ficando a maior na mão direita do executante. Uma outra companhia de moçambique tivemos ocasião de ver em Ubatuba. Chamava-se União de São Benedito, seu mestre era João Agostinho e o contramestre João Albado. O instrumental acompanhante constituía-se de caixa, pandeiro e viola. Informaram-nos seus integrantes que o folguedo pode ser chamado de congada e que foi inventado por São Benedito ou pelos índios.

 

No Realejo

Partituras e arquivos sonoros de moçambique

Outras edições

Moçambique, por Alceu Maynard Araújo

(Lima, Rossini Tavares de, e outros. O folclore do litoral norte de São Paulo. Rio de Janeiro, Funarte; São Paulo, Secretaria de Estado da Cultura / Universidade de Taubaté, 1981, p.113-116)

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