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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Panacéia

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Panacéia
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Figas, por Fortunée Levi

O baralho como símbolo amoroso, por José Jambo da Costa

Folclore capixaba: Crendices do número sete, por Guilherme Santos Neves
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Catavento
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Almanaque
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PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


Figas

Fortunée Levi

Dentre os objetos de superstição a figa tem um papel do maior relevo.

Para esconjurar o mau-olhado, figura indispensavelmente em todos os banlangandãs.

As de arruda e guiné são as básicas, as melhores para o fim a que se destinam.

Um pé de arruda

Era usual, sobretudo na Bahia, ainda no começo deste século, plantar-se em casa um pé de arruda, para do arbusto, cujo desenvolvimento se acompanhavam com carinho, fazer então, do tronco esguio, as figas, Acreditavam que estas, feitas com a planta da casa, eram as mais eficazes.

A arruda é, pela superstição, indicada para o mau-olhado, para o quebranto.

E quem já não viu pretos velhos, baianas doceiras, mulatos espadaúdos, com o seu galho de arruda atrás da orelha? E se a civilização, desfazendo crendices, e o modernismo, abolindo tradições, expulsaram a plantinha benfazeja dos jardins, quintais ou pátios, qual a modesta casa de hábitos sociais mais antigos que não a possui? Aí, fiel, ela é tratada com desvelo, retribuindo tanta atenção como uma promessa de externa e grande esperança.

Rarearam as baianas doceiras de calçada de rua, com os característicos e deliciosos bolinhos de tapiocas, os chamados "defuntinhos". Desapareceram os bauzinhos de folha dos vendedores de puxa-puxa, os tabuleiros enfeitados de fitas de papel colorido, dos baleiros das balas de alcatéia, de hortelã e aniz, porém, como um aspecto do vendedor popular e bem curioso, temos às proximidades das feiras, o de folhas de louro, de gengibre, de figas de guiné, de pimenta, que prosaicamente estende sobre a calçada um pano e sobre este a sua mercadoria.

A crença popular aconselha a quem perder uma figa não procurá-la, pois levou consigo todo o mal que devia cair sobre a pessoa.

As guardadas nos armários atraem dinheiro; as achadas são ótimas, como mascote, boa sorte; umas racham-se, partem-se ao meio pela força do quebranto.

Da crença popular passou para jóia de adorno, e não teria sido esse berloque o preferido devido a seu fundo benfazejo?

A medalha e o calunga

Figurando como jóia, teve como concorrente, na mesma finalidade de mascote, durante algum tempo, a medalha "Deus te guie" e o "calunga", o homem corcundinha. Porém a figa teve sempre maior prestígio, e enquanto a medalha e o calunga são hoje mais raros, a figa continua a sua trajetória vitoriosa.

Faz-se figa quando se teme um mau-olhado, e às vezes o excessivo elogio, que também provoca o mal.

Equivalente à figa, usam os franceses o touche du bois, dando a madeira o isolante necessário.

A expressão "fazer figa" é também sinônimo de causar inveja.

Assim fazer figa a fulano equivale a dizer: causar raiva, despeito, desejar mostrar a outrem sua superioridade.

Qual expressão dos dedos na figa?

Quais os receptores e os isoladores? Pois com certeza na crendice popular isto deve ser comprovado. E não será a mão fechada, cruzando o dedo indicador sobre o polegar, um sintoma de poder pessoal enfeixado na mão, contra todas as exterioridades?

A figa venceu qualquer outro símbolo supersticioso, é o objeto mais apreciado para livrar do mal.

Amuleto a balangandãs

Adotaram-na como amuleto, os supersticiosos, como berloque, as mulheres.

E continuam sempre, quer como amuleto ou jóia, quer enfeitando, quer escondida, a sua missão deliciosa de portadora da sorte. E que missão mais agradável, útil e simpática do que essa?

E deixemos que, por tempo afora, a figuinha leve aos seus portadores o consolo de sua alta finalidade, evitando o mal, atraindo o bem.

(Levi. Fortunée. "Figas". Cultura Política. Rio de Janeiro, janeiro de 1945)