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Fortunée Levi
Dentre os objetos de superstição a figa tem um papel do maior relevo.
Para esconjurar o mau-olhado, figura indispensavelmente em todos os banlangandãs.
As de arruda e guiné são as básicas, as melhores para o fim a que se destinam.
Um pé de arruda
Era usual, sobretudo na Bahia, ainda no começo deste século, plantar-se em casa
um pé de arruda, para do arbusto, cujo desenvolvimento se acompanhavam com
carinho, fazer então, do tronco esguio, as figas, Acreditavam que estas, feitas
com a planta da casa, eram as mais eficazes.
A arruda é, pela superstição, indicada para o mau-olhado, para o quebranto.
E quem já não viu pretos velhos, baianas doceiras, mulatos espadaúdos, com o seu
galho de arruda atrás da orelha? E se a civilização, desfazendo crendices, e o
modernismo, abolindo tradições, expulsaram a plantinha benfazeja dos jardins,
quintais ou pátios, qual a modesta casa de hábitos sociais mais antigos que não
a possui? Aí, fiel, ela é tratada com desvelo, retribuindo tanta atenção como
uma promessa de externa e grande esperança.
Rarearam as baianas doceiras de calçada de rua, com os característicos e
deliciosos bolinhos de tapiocas, os chamados "defuntinhos". Desapareceram os
bauzinhos de folha dos vendedores de puxa-puxa, os tabuleiros enfeitados de
fitas de papel colorido, dos baleiros das balas de alcatéia, de hortelã e aniz,
porém, como um aspecto do vendedor popular e bem curioso, temos às proximidades
das feiras, o de folhas de louro, de gengibre, de figas de guiné, de pimenta,
que prosaicamente estende sobre a calçada um pano e sobre este a sua mercadoria.
A crença popular aconselha a quem perder uma figa não procurá-la, pois levou
consigo todo o mal que devia cair sobre a pessoa.
As guardadas nos armários atraem dinheiro; as achadas são ótimas, como mascote,
boa sorte; umas racham-se, partem-se ao meio pela força do quebranto.
Da crença popular passou para jóia de adorno, e não teria sido esse berloque o
preferido devido a seu fundo benfazejo?
A medalha e o calunga
Figurando como jóia, teve como concorrente, na mesma finalidade de mascote,
durante algum tempo, a medalha "Deus te guie" e o "calunga", o homem corcundinha.
Porém a figa teve sempre maior prestígio, e enquanto a medalha e o calunga são
hoje mais raros, a figa continua a sua trajetória vitoriosa.
Faz-se figa quando se teme um mau-olhado, e às vezes o excessivo elogio, que
também provoca o mal.
Equivalente à figa, usam os franceses o touche du bois, dando a madeira o
isolante necessário.
A expressão "fazer figa" é também sinônimo de causar inveja.
Assim fazer figa a fulano equivale a dizer: causar raiva, despeito, desejar
mostrar a outrem sua superioridade.
Qual expressão dos dedos na figa?
Quais os receptores e os isoladores? Pois com certeza na crendice popular isto
deve ser comprovado. E não será a mão fechada, cruzando o dedo indicador sobre o
polegar, um sintoma de poder pessoal enfeixado na mão, contra todas as
exterioridades?
A figa venceu qualquer outro símbolo supersticioso, é o objeto mais apreciado
para livrar do mal.
Amuleto a balangandãs
Adotaram-na como amuleto, os supersticiosos, como berloque, as mulheres.
E continuam sempre, quer como amuleto ou jóia, quer enfeitando, quer escondida,
a sua missão deliciosa de portadora da sorte. E que missão mais agradável, útil
e simpática do que essa?
E deixemos que, por tempo afora, a figuinha leve aos seus portadores o consolo
de sua alta finalidade, evitando o mal, atraindo o bem.
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