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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

palhoça

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Palhoça
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Antigos costumes sociais, por Ademar Vidal

O São Francisco — cenas e costumes do grande vale, por Eustáquio Duarte

O futebol no folclore, por Adão Carrazoni
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


Antigos costumes sociais

Ademar Vidal

Vimos a diferença entre o homem sertanejo e litorâneo: este é mais de sociedade, suas vestimentas se mostram, em geral, elegantes, usando colete e relógio de correntão, punhos duros com botões que são jóias caras, sapatos de verniz, chapéu de manilha com abas largas, bigodes e barbas raspada à moda lusitana, enquanto o outro, o vaqueiro rico ostentava roupas amplas — e só quando vinha às capitais é que procurava melhorar o "costume", vestindo-se de conformidade com o existente. A fase da barba ou cavanhaque, ou suíças, custou a passar, sendo generalizada a pera e raramente se vendo costeleta, que passou a ser usada pelos cocheiros ou tocadores de bumbo. A bengala não era relaxada e sempre trazia como cabo a figura de bicho ou alguma fantasia qualquer. Pelo contrário. Castão de marfim e enfeites de ouro com pedras preciosas; Algumas dessas bengalas traziam estoques para defesa individual. O guarda-chuva andava generalizado: tanto servia para o sol como para a chuva. Se a época era de inverno, tomava o nome de guarda-chuva, se fosse verão, guarda-sol. Variava a designação conforme o tempo. Lenços grandes e coloridos, brancos também. Alguns tomaram o nome de alcobaça. O hábito de raspar a cara não veio inopinadamente. Custou fixar-se, havendo mesmo alternativa de rosto cabeludo ou liso. Esta última parte ficou perpetuada no século presente. Embora não precisasse de condução na cidade, com as distâncias restritas, apreciando andar a pé, no entanto o cavalo vivia na cocheira e, aos domingos, o dono saía à rua para o passeio ou visita aos amigos, onde ia beber o seu bom conhaque ou servi-se de filhóses.

O orgulho acentuava-se ao equipar o animal de estimação. As montarias tanto no litoral como no sertão revelavam bom gosto extremo. O homem como que se confundia com o seu cavalo, beijando-o e tratando-o carinhosamente, dispensando-lhe toda sorte de conforto. Alguns proprietários não permitiam ninguém senão eles mesmos nos cuidados do bazeiro ou galopador. Por ocasião do carnaval era de ver como adorava montá-lo com fantasia e mascarado: chegava na calçada para falar em voz fina, disfarçada, voz de falsete, embora soubesse que estava sendo reconhecido pela presença do cavalo que ninguém montava porque o privilégio, este pertencia ao senhor único e incontestável. Junto à sela se pendurava uma bolsa de couro que trazia várias coisas dentro dela: carteira de charutos e lenços, cartões de visitas, arma de fogo ou punhal, a tabaqueira e até dinheiro. A proporção que ia precisando de algum desses objetos, por esta ou por aquela circunstância retirava-o à vista de toda gente, menos quanto às armas, as quais procurava tranferi-las de um lugar para outro sem que ninguém as visse. Com o rapé ou tabaco fazia o contrário, isto é; oferecia-o abertamente, não escondia como era hábito na casa-grande ou no sobrado, onde ainda se mascava fumo de maneira generalizada. Até as moças gostavam do vício. O selim, ou a andilha, também tinha o matulão em que a mulher juntava aquilo de que mais precisava imediatamente; lenço e frasco de cheiro, o pente, leque de marfim com renda francesa, nada de dinheiro, mas havia sempre arma branca como reserva para o que desse e viesse.

Na sociedade tanto as senhoras como as jovens solteiras apareciam vestidas de saias de balão. Demorou muito a cair a moda. Até os fins do século XIX era costume generalizado nas cidades do Nordeste. As saias eram compridas e não se via nem o pé. O rapaz que lograsse surpreender uma nesga de corpo descoberto podia considerar-se um felizardo. E arriscava-se a levar uma pisa se andasse "falando". Era tão raro uma "coisas dessas", a moça, sem querer, deixar à mostra um pedaço de perna ou braço, que o privilegiado ficava de veia inchada no pescoço, saindo versos e, por vezes, acabando em casamento. Caso contrário, "falando mal", batendo com a língua nos dentes apanhava. A desfeita fazia com que se mudasse para não sofrer coisa pior. Bolsa de mão não se usava — hábito este que veio com o século atual e, em lugar da bolsa, a mulher trazia o leque. Em vários casos ele era pendurado em delicadas correntes de ouro envoltas no pescoço. Diz-se que no Ceará a moça costumava aparecer nas recepções com uma espécie de trusse, mas que só conduzia um espelhinho, algodão perfumado, cartão de visita e um lápis minúsculo. Depois é que começou a variar: já trazia pó de arroz e boneca, um pequeno pente, espelho e retrato de pessoa querida. Sabe-se que também havia nessa trusse, um depósito mínimo que, sempre fechado, servia para o rapé.

Houve tempo em que o vício de espirrar, por provocação, foi cultivado na sociedade. Era chique alguém espirrar discretamente, a mulher não aparecia com sapato de salto alto que veio mais tarde. Usava botina. Ficaria talvez melhor, chamar-se de botas em virtude destas abarcarem a batata da perna. Interessante observar que, em casa, ou na sociedade, a mulher nordestina gostava preferentemente de roupa clara. O veludo vivia sempre em grau de prestígio como tecido procurado fosse de que cor fosse. No campo, entretanto, a cor comum dos vestidos femininos era, como ainda é, o encarnado. Dizem ser por causa do sol, porque, tal cor, resguarda o corpo de seus raios cálidos. A realidade é que a paisagem humana tem seus acentos bem avermelhados. Até a morte violenta, quando provocada por luta traz o sinal encarnado: um lençol envolve a rede que passa na estrada em direção ao cemitério. O costume é tão enraizado que permanece ainda hoje. O chapéu nunca deixou de merecer lugar destacado no bom gosto generalizado. Desde os tempos imemoriais que ele figura como adorno indispensável nas festas. Agora o costume caiu. Houve tempo em que quase perdeu o prestígio por causa do penteado. Era preciso mostrar a arte dos cabelereiros e, para fazê-lo, o chapéu teria de ser relegado a plano inferior, ficando sem uso por largo espaço de anos. A época dos bonitos penteados coincidiu com a segunda fazer da monarquia. Aliás, a preocupação de apresentar os cabelos bem arrumados sempre foi coisa fixada entre a mulher e o homem, pois este, além de cuidar dos bigodes e da barba, não relaxava a cabeça cheia de cabelos encoracolados ou lisos.

Mesmo nos dias ordinários era de ver o homem bem trajado no seu cruazê ou fraque, chapéu de coco ou alto e de pêlo, bengala, sapato de verniz ou pelica, trazendo ao lado placas elásticas. Botinas de cano que eram quase botas. Charlote ficava para dentro de casa como a sandália colorida feita de couro ou pano. No sertão é que a alpercata figurava tanto na esfera doméstica, como na rua ou nos espinhos da catinga. Calçada pela manhã, apenas saía dos pés quando o seu dono ia dormir. Alpercata era a botina sertaneja. Data deste século a transformação radical. Primeiramente começaram a chegar do estrangeiro os sapatos novos, fortes, com a marca de Walcover, ou Bostock. Vinham ou eram de origem inglesa, muito cômodos e em cores variadas, procuradíssimos. Não eram para toda gente. Mercadoria cara. Desde então surgiram as belezas de sapataria que colocaram o nosso país em lugar distinto no mundo dos sapatos. O couro de boi e cabra, por seu turno entrou na exportação, organizando-se firmas poderosas e cujo consumo foi, com o tempo e criação nacional de fábricas, quase que centralizado internamente. Mas a pelica merece outros comentários. O sapato de pelica era sobremodo vendido. Deveria existir um motivo. Qual seria? A comodidade figurava forçosamente por duas razões: calos e bicho de pé. Sabe-se que os índios cariris desciam a Borburema em setembro e regressavam em março do ano seguinte. Queriam evitar a soalheira sertaneja, procurando o litoral atlântico, onde ficavam todo esse tempo com as suas tipóias armadas, caçando ou pescando, fazendo ainda cauim de caju fermentado. Embriagavam-se. E, quando voltavam aos cariris, no início do inverno, vinham também de pés cambados, por ali de grandes, com inchações enormes. Tudo conseqüências do bicho de pé que empesteava as praias.

O costume de ir "passar a festa" à beira-mar ficou. A população nordestina, no fim do ano, quando aperta o calor, vai tomar seu banho de mar. Época em que se promovem festejos populares de sentido folclórico. Época em que se bebe mais e quando os divertimentos surgem por todos os lados. Terminado o período mais calorento, a população regressava aos seus lares com boa carga de bicho de pé, cuja inflamação por mais irrisório que pareça, tem seu "delicioso cultivo". A coceira é característica. Aparece com particular gostosura. E como a praga se acentuava, até mesmo nos fins do século passado para os começos deste, o sapato de pelica tornou-se procuradíssimo como solução adequada, vinda mesmo como caída do céu. Conciliava, não agravando os dedos inflamados, podiam estes ser coçados através da pelica fina, mole, fresca — e daí o comércio de sapatos trabalhar bastante para satisfazer a procura. Saiu escandalosamente da circulação. Não é mais encontrado como outrora. Mas quando surge no pé de alguém de tratamento, não pensem que é retirado logo, demora — e isso porque a coceira tem suas seduções por parte de quem a experimenta. A região tem estigmas impossíveis de serem facilmente compreendidos pelos de fora. Somente a convivência longa poderá, trazer o milagre de admitir certos detalhes e particularidades que poderão parecer próprias de selvagens, porém são por demais gostosos.

(Vidal. Ademar. "Antigos costumes sociais". O Jornal. Rio de Janeiro, 28 de outubro de 1951)