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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

imaginário

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Imaginário
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Romãozinho, por Saul Martins

A mulher da malota, por Veríssimo de Melo

O cantador de modinhas, por Ademar Vidal
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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...


A mulher da malota

Veríssimo de Melo

Ilustração de Marcos JardimContaram-me esta história de assombração, que mais me parece uma crítica do povo às modas exageradas de hoje em dia:

Uma noite, um caminhão viajava numa estrada escura do sertão. Em certo ponto, aparece uma mulher sozinha, com uma malota, fazendo sinal para que o chofer parasse o veículo. O chofer parou e ela pediu passagem até perto de uma fazenda.

— Pegue a maleta dessa senhora e bote lá em cima —, disse o chofer para o ajudante. E a ordem foi cumprida. Mas, quando o ajudante pegou na maleta, com uma mão só, foi o mesmo que nada. A malotinha nem se abalava. Ele pegou com as duas mãos e nada, nada.

Outro homem desceu do caminhão e disse:

— Será que você não pode com essa malota?

E foi pegando. E quedê força para levantar a maleta? Botou também as duas mãos e nada, nada. O chofer, impaciente, censurando a falta de força dos homens, saltou do carro e pegou na maleta. Quemfoi que disse que a maleta saiu do canto? Pesava mais do que trezentas toneladas de chumbo.

Então, a mulher, vendo que ninguém podia com a maleta, saltou e falou:

— Então, deixe que eu boto. — E com uma mão só pegou a maleta, como quem pega uma pena, e colocou no caminhão.

Continuaram a viagem. Os homens estavam impressionados com o peso da maletinha. Afinal, chegou no pontocombinado e a mulher pediu para saltar. O carro parou. A mulher pegou a maleta e desceu, calmamente. E o chofer, não resistindo à curiosidade, perguntou:

— Mas, me diga uma coisa, dona: o que é que a senhora leva dentro dessa maleta?

A mulher respondeu:

— Perna raspada, sobrancelha arrancada, unhas pintadas, braços nus e vestidos decotados.

E dizendo isto desapareceu num segundo.

Era uma alma do outro mundo. Os homens ficaram assombrados, de boca aberta. O chofer ligou primeira de força e abriu no mundo. Adiante, veio a saber, numa fazenda, que não era a primeira vez que a mulher da maleta aparecia por aquelas estradas.

E desde este dia o chofer nunca mais parou o caminhão para ninguém, por aqueles lados...

(Melo, Veríssimo de. "A mulher da malota". A República. Natal, 11 de julho de 1948)