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Veríssimo de Melo
Contaram-me esta história de assombração, que mais me parece uma crítica do
povo às modas exageradas de hoje em dia:
Uma noite, um caminhão viajava numa estrada escura do sertão. Em certo ponto,
aparece uma mulher sozinha, com uma malota, fazendo sinal para que o chofer
parasse o veículo. O chofer parou e ela pediu passagem até perto de uma fazenda.
— Pegue a maleta dessa senhora e bote lá em cima —, disse o chofer para o
ajudante. E a ordem foi cumprida. Mas, quando o ajudante pegou na maleta, com
uma mão só, foi o mesmo que nada. A malotinha nem se abalava. Ele pegou com as
duas mãos e nada, nada.
Outro homem desceu do caminhão e disse:
— Será que você não pode com essa malota?
E foi pegando. E quedê força para levantar a maleta? Botou também as duas
mãos e nada, nada. O chofer, impaciente, censurando a falta de força dos homens,
saltou do carro e pegou na maleta. Quemfoi que disse que a maleta saiu do canto?
Pesava mais do que trezentas toneladas de chumbo.
Então, a mulher, vendo que ninguém podia com a maleta, saltou e falou:
— Então, deixe que eu boto. — E com uma mão só pegou a maleta, como quem pega
uma pena, e colocou no caminhão.
Continuaram a viagem. Os homens estavam impressionados com o peso da
maletinha. Afinal, chegou no pontocombinado e a mulher pediu para saltar. O
carro parou. A mulher pegou a maleta e desceu, calmamente. E o chofer, não
resistindo à curiosidade, perguntou:
— Mas, me diga uma coisa, dona: o que é que a senhora leva dentro dessa
maleta?
A mulher respondeu:
— Perna raspada, sobrancelha arrancada, unhas pintadas, braços nus e vestidos
decotados.
E dizendo isto desapareceu num segundo.
Era uma alma do outro mundo. Os homens ficaram assombrados, de boca aberta. O
chofer ligou primeira de força e abriu no mundo. Adiante, veio a saber, numa
fazenda, que não era a primeira vez que a mulher da maleta aparecia por aquelas
estradas.
E desde este dia o chofer nunca mais parou o caminhão para ninguém, por
aqueles lados...
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