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Alceu Maynard Araújo
Quando os jesuítas fundaram São Paulo em torno da promissora Piratininga,
como bastiões da conquista do planalto, outras povoações coevas apareceram.
Formavam sem dúvida um cinturão jesuítico defensivo e de penetração, mui além
das roças de Jeribatiba, as povoações de Itaquaquecetuba, Carapicuíba,
Itapecerica, M'boy. Era amplo esse cinturão jesuítico, pois Nóbrega, solicitado
pelos nativos, penetrou quarenta léguas de Piratininga e formou uma pequena
redução ao redor de uma capela na aldeia dos carijós, na Japuíba ou Maniçoba.
Ingente foi o esforço dos jesuítas fixando os indígenas nas aldeias, pois o
trabalho mais árduo foi sem dúvida tirá-los do nomadismo.
A história nos conta que Itaquaquecetuba é proveniente de um aldeamento de
índios guaianá oriundos dos então nascentes vilarejos de Carapicuíba e
Guarapiranga, e que de lá saíram, espontaneamente ou brigados, ali pelo primeiro
quartel do século XVII. Afirma Teodoro Sampaio que os guaianá são guarani, e
citandoo dicionário de Montoya, diz que guaianá significa — manso, pacato,
bonacheirão... Num aldeamento haviam elementos de diversas tribos, portanto
heterogêneos eram os costumes, mas havia um traço de união, aplainando — o
cristianismo que trazia em seu bojo o folclore católico romano — dirimidor de
atristos. É óbvio que a índole pacata do catequizando muito ajudou... e sabe-se
lá se os dóceis e religiosos dançadores de hoje não são descendentes de
Tibiriçá, Catubi?
Itaquaquecetuba nesses três séculos e pouco de existência quase não alterou
em nada sua tradição, de seu folclore inventado pelo missionário, artificial mas
que substituiu. De fato, o isolamento geográfico, a falta de estradas, a
inexistência de contatos culturais são fatores dos mais vigorosos para preservar
a tradição. Foi, sem dúvida, graças ao isolamento que a dança da santa cruz
permaneceu inalterada em Itaquaquecetuba. Traços fortes da etnia ficaram ligados
aos cultos, às danças dos seus habitantes. A música mística, que o jesuíta
ensinou, não só catequizou como amansou o bugre, porque tinha o dom de encantar.
O canto, elemento litúrgico por excelência, fundiu-se com as danças de roda
indígenas dando-nos o que hoje temos — a dança da santa cruz.
Outro fator que muito contribuiu para custodiar essa tradição de origem
portuguesa-jesuítica foi a ausência quase completa de elementos alienígenas.
Mesmo o negro é raríssimo nessa vila. Na noite de 2 para 3 de maio de 1949,
pudemos assinalar poucos negros, e os demais participantes da reza e dança são
portadores de traços característicos que traem sua origem ameríndia.
É indubitável a origem ameríndia dos atuais dançantes. Sim, dos dançantes,
porque os novos moradores (que a recente estrada e a luz elétrica lá fizeram
aportar) — só espiam, não entram na dança, e, antes da meia-noite desaparecem. A
partir dessa hora é que se pode apreciar a dança e dançantes dos melhores.
Homens e mulheres tomam parte. Geralmente são pessoas idosas de mais de 40
anos de idade. Estes é que amanhecem na dança, porque os mais moços, que
engrossaram a roda de dançantes, satisfeito seu natural desejo de exibicionismo,
retiram-se. Aqueles que não residem mais em Itaquaquecetuba, nesse dia voltam
para assistir à festa, mas raros são os que vão dançar. Acompanham de perto os
dançantes até o dealbar do dia. É uma forma de desobriga para eles; porque
marginais se tornaram pelo fato de não mais morar ali, envergonham-se de
participar, mas sentem uma quase culpa de não dançar, e para satisfazerem-se a
si próprios ficam acompanhando. Uma vez interpelados pelo pesquisador
participante, dão a desculpa taxativa: "nós filhos daqui, não podemos deixar de
vir, neste dia para a festa, para rever o lugar onde deixamos enterrado o
umbigo". Para esses marginais, a tradição é qualquer coisa de embalsamado... mas
para aqueles que ainda vivem ali, gente da vila e das circunjacências, humildes
camponeses, para estes a dança da santa cruz é o mais sagrado e concorrido
festejo religioso da terra. Bem traduz a frase registrada: "quem se preza num há
de fartá na festa de santa cruz".
Nessa festa encontramos dois elementos religiosos: a reza e a dança. Dois são
também os tipos de reza que anotamos. O primeiro é a reza da liturgia
católico-romana, realizada no interior do templo centenário, dirigida pelo
vigário dom Tomás; o segundo tipo de reza, que foge um pouco da liturgia romana,
um sincretismo [?]-católico-romano, é [?] ao pé da santa cruz, situada no centro
do largo que defronta a igreja. Esta reza é dirigida por um capelão caboclo.
Neste dia dirigiu-a o sr. Joaquim Araújo Marques. O capelão tem sempre um
ajudante; o deste foi o senhor Benedito Alves Camargo. Mas o capelão e ajudante
contam com mais dois rezadores que ajudam a "repartir" a reza, e que são
chamados repartidores. Nesta, os repartidores foram os os senhores Roque
Rodrigues e ajudante de repartidor sr. Felício José Leano. Todos são roceiros,
gente de situação econômica precária.
Na manhã do dia 2, há missa solene. Antes que os sinos batam o Angelus,
o festeiro, isto é, o encarregado da realização da festa, que é geralmente uma
pessoa de posses, de destaque político e social da vila, levanta com o devido
acompanhamento musical da banda — a "furiosa" — sob espocar de rojões, o mastro
com a bandeira de santa cruz. Este mastro fica na praça, na metade do intervalo
entre a igreja e cruzeiro ou santa cruz.
Durante o dia, na casa da festa, há café com farinha ou biscoitos para os que
vêm de mais longe. (O folclore brasileiro é por excelência alimentar...) Ao
anoitecer, os moradores da vila comparecem à reza na igreja. Findo o ato
religioso, o povo vai se aglomerando em torno da santa cruz. Nesse local,
primeiramente existia apenas um cruzeiro de madeira, sopesado por toscas lajes
de pedras, onde as lágrimas de espermacete das velas escorriam. Depois, a faina
modernizadora ou ostentadora, mandou fazer uma espécie de obelisco, tendo ao
redor, sete degraus de cimento. Foi o cumprimento de uma promessa dos pais de um
expedicionário. Fizeram o monumento, colocaram um retrato do malogrado soldado
da democracia. Mas o povo achou que aquilo era uma profanação; ele queria era o
velho símbolo de fé — a cruz, a tão querida santa cruz. Às escondidas, ajudados
pelas trevas da noite, andaram depredando o obelisco. À vista disso, o atual
festeiro, sr. Narciso Cunha Lobo, concordou em retirar o retrato de seu saudoso
filho que estava "no lugar sagrado". Embora não tenhamainda reposto o cruzeiro,
deixaram os degraus. No mais alto deles, acendem uma vintena de velas e no
imediatamente abaixo, lançam as ofertas... em níqueis de cruzeiros e centavos.
No primeiro degrau, contritos e respeitosos ajoelham-se capelão e seu ajudante,
que se coloca à sua direita. Atrás destes, ajoelhados em terra, ficam os
"repartidores" e mais uns poucos devotos. Uma centena ou pouco mais, de pessoas
em pé odeiam o cruzeiro. Vai ter início a reza da santa cruz.
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