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Guilherme Santos Neves
Ao ler o primeiro número de Cadernos de folclore, publicado pela
Divisão de Turismo e Expansão Cultural do Departamento Estadual de Informações
de São Paulo — coletânea que divulga poesias e adivinhas populares, recolhidas
em São Paulo e colecionadas pelo folclorista Rossini Tavares de Lima — pude,
mais uma vez, verificar a flagrante correspondência entre as quadrinhas
populares do sul e as que as crianças cantam em terras capixabas.
Já havia eu anteriormente notado essa coincidência, confrontando as trovas
aqui correntes e as que figuram no Cancioneiro guasca, de Simões Lopes
Neto.
Na coletânea paulista — preciosa também pelos registros que traz — as poesias
populares se distribuem em quadrinhas amorosas (130), conceituosas (129) e
jocosas (131), além de várias modas de viola, porfias, ladainha das moças ao
milagroso São Raimundo e, por fim, 263 adivinhas versificadas.
Pretendemos, por ora, apenas apontar a identidade ou semelhança entre algumas
quadrinhas amorosas do Caderno de Folclore, e as que pudemos recolher
aqui em nosso Espírito Santo.
Quadrinha nº 1, São Paulo:
Mandei fazer um relógio
Da casca de caranguejo
Para marcar os minutos
Das horas que não te vejo
Conhecidíssima em nosso estado. Pude localizá-la em Vitória, Guarapari,
Manguinhos, Ibitaçu, Linhares e Conceição da Barra. Em Itaguaçu, encontrei a
seguinte variante:
Mandei fazer um relógio
Da folhinha do poejo
Para marcar os minutos
Das horas que não te vejo
Tal versão tem sua correspondente em terras gaúchas, como se lê do citado
Cancioneiro guasca, página 74:
Mandei fazer um relógio
Da resina do poejo
Para marcar os minutos
Das horas que te não vejo
Esse "te não vejo", como que indica a procedência lusa da trovinha. E, de
fato, lá está ela registrada nas Mil trovas, de A. Oliveira e Agostinho
de Campos, sob nº 894:
Mandei fazer um relógio
Das pernas de um caranguejo
Para contar os minutos
Do tempo que te não vejo
Quadrinha nº 15, São Paulo:
Não botes lencinho branco
Para os lados onde eu ando
Dá-lhe o vento, abana o lenço
Penso que estás me chamando
Recolhi há tempo, em São Mateus, uma variante que estampei nos "Dois dedos de
folclore e de linguagem", na Tribuna, de 10 de outubro de 1943. Diz
assim:
Não botes lencinho branco
Para o lado aonde eu ando
Dá-lhe o vento, abre-se o lenço
Penso que me estás chamando
Como se vê, a quadrinha capixaba é quase igual à paulista. A paulista e a
gaúcha, pois também vamos encontrá-la no Cancioneiro guasca, página 44.
A procedência, porém — como de tantas e tantas outras trovas — é
evidentemente lusitana. Comprova-se isto com o registro das seguintes quadras,
em cancioneiros portugueses, onde se nota a mesma imagem ingênua e pitoresca. No
livro O que o povo canta em Portugal, de Jaime Cortesão, página 306,
lê-se:
Cravos brancos à janela
Menina, não os tenhais
Dá-lhes o vento, balouçam
Eu cuido que são sinais
Também no Cancioneiro de Viana do Castelo, de M. Afonso do Paço,
página 52:
Cravo vermelho no peito
Não quero que o tragais
Dá-lhes o vento, remanceia
Eu cuido que me acenais
E, mais evidente ainda, nos Fados, canções e danças de Portugal, de
Joãodo Rio, página 508:
Manjericão à janela
Menina, não o tenhais
Dá-lhe o vento, bole a trança
Cuidam que vós me chamais
Quadrinha nº 21, São Paulo:
De encarnada veste a rosa
De verde, o manjericão
De branco veste a açucena
De luto meu coração
A mesma quadrinha, sem tirar nem pôr, se canta aqui em Vitória, em Guarapari,
Nova Almeida e, creio, em quase todos os recantos do Espírito Santo.
É também de origem lusa, "Poesia popular", J. J. Nunes, em Revista de
língua portuguesa, fascículo 13, página 26.
Quadra nº 27, São Paulo:
Com pena peguei na pena
Com pena de não te ver
Com pena larguei a pena
Com pena de te escrever
Difundida a valer por todo o nosso estado. Localizei-a nesta capital, em Vila
Velha, em Guarapari, Santa Teresa, Manguinhos, Itaguaçu, Araçatuba e Viana, em
variantes diversas. Cito aqui apenas esta:
Com pena peguei na pena
Com pena de ter escrevê
A pena caiu do dedo (ou da mão)
Com pena de não te vê
Sílvio Romero recolheu versão gaúcha, em seus Cantos populares do Brasil,
página 286, variante da que também se lê no Cancioneiro guasca, página
62.
A quadrinha, porém, importamo-la de Portugal, onde, parece, todas as
coletâneas a mencionam. Cfr., por exemplo, Cancioneiro de Viana do Castelo,
nº 273; Cancioneiro de Entre Douro e Mondego, de Arlindo Souza, nº 981;
Mil trovas, nº 873; Cantares do Minho, volume 2, de Fernando de
Castro Pires de Lima, nº 1316.
O paralelismo entre as trovas paulistas e as capixabas prossegue evidente
pelo Caderno a dentro. Hoje, ficamos por aqui, apenas nessas quatro
quadrinhas — todas elas, como se vê, de remota procedência portuguesa, o que, a
evidência comprova a íntima relação e dependência do nosso lirismo popular à
singela e amorosa alma lusitana.
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