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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

cancioneiro

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Cancioneiro
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São donos cantadores da palavra

A embolada da velha chica, um cordel de Francisco Sales Areda

Trova popular, por Guilherme Santos Neves
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Capa
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Festança
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


Trova popular

Guilherme Santos Neves

Ao ler o primeiro número de Cadernos de folclore, publicado pela Divisão de Turismo e Expansão Cultural do Departamento Estadual de Informações de São Paulo — coletânea que divulga poesias e adivinhas populares, recolhidas em São Paulo e colecionadas pelo folclorista Rossini Tavares de Lima — pude, mais uma vez, verificar a flagrante correspondência entre as quadrinhas populares do sul e as que as crianças cantam em terras capixabas.

Já havia eu anteriormente notado essa coincidência, confrontando as trovas aqui correntes e as que figuram no Cancioneiro guasca, de Simões Lopes Neto.

Na coletânea paulista — preciosa também pelos registros que traz — as poesias populares se distribuem  em quadrinhas amorosas (130), conceituosas (129) e jocosas (131), além de várias modas de viola, porfias, ladainha das moças ao milagroso São Raimundo e, por fim, 263 adivinhas versificadas.

Pretendemos, por ora, apenas apontar a identidade ou semelhança entre algumas quadrinhas amorosas do Caderno de Folclore, e as que pudemos recolher aqui em nosso Espírito Santo.

Quadrinha nº 1, São Paulo:

Mandei fazer um relógio
Da casca de caranguejo
Para marcar os minutos
Das horas que não te vejo

Conhecidíssima em nosso estado. Pude localizá-la em Vitória, Guarapari, Manguinhos, Ibitaçu, Linhares e Conceição da Barra. Em Itaguaçu, encontrei a seguinte variante:

Mandei fazer um relógio
Da folhinha do poejo
Para marcar os minutos
Das horas que não te vejo

Tal versão tem sua correspondente em terras gaúchas, como se lê do citado Cancioneiro guasca, página 74:

Mandei fazer um relógio
Da resina do poejo
Para marcar os minutos
Das horas que te não vejo

Esse "te não vejo", como que indica a procedência lusa da trovinha. E, de fato, lá está ela registrada nas Mil trovas, de A. Oliveira e Agostinho de Campos, sob nº 894:

Mandei fazer um relógio
Das pernas de um caranguejo
Para contar os minutos
Do tempo que te não vejo

Quadrinha nº 15, São Paulo:

Não botes lencinho branco
Para os lados onde eu ando
Dá-lhe o vento, abana o lenço
Penso que estás me chamando

Recolhi há tempo, em São Mateus, uma variante que estampei nos "Dois dedos de folclore e de linguagem", na Tribuna, de 10 de outubro de 1943. Diz assim:

Não botes lencinho branco
Para o lado aonde eu ando
Dá-lhe o vento, abre-se o lenço
Penso que me estás chamando

Como se vê, a quadrinha capixaba é quase igual à paulista. A paulista e a gaúcha, pois também vamos encontrá-la no Cancioneiro guasca, página 44.

A procedência, porém — como de tantas e tantas outras trovas — é evidentemente lusitana. Comprova-se isto com o registro das seguintes quadras, em cancioneiros portugueses, onde se nota a mesma imagem ingênua e pitoresca. No livro O que o povo canta em Portugal, de Jaime Cortesão, página 306, lê-se:

Cravos brancos à janela
Menina, não os tenhais
Dá-lhes o vento, balouçam
Eu cuido que são sinais

Também no Cancioneiro de Viana do Castelo, de M. Afonso do Paço, página 52:

Cravo vermelho no peito
Não quero que o tragais
Dá-lhes o vento, remanceia
Eu cuido que me acenais

E, mais evidente ainda, nos Fados, canções e danças de Portugal, de Joãodo Rio, página 508:

Manjericão à janela
Menina, não o tenhais
Dá-lhe o vento, bole a trança
Cuidam que vós me chamais

Quadrinha nº 21, São Paulo:

De encarnada veste a rosa
De verde, o manjericão
De branco veste a açucena
De luto meu coração

A mesma quadrinha, sem tirar nem pôr, se canta aqui em Vitória, em Guarapari, Nova Almeida e, creio, em quase todos os recantos do Espírito Santo.

É também de origem lusa, "Poesia popular", J. J. Nunes, em Revista de língua portuguesa, fascículo 13, página 26.

Quadra nº 27, São Paulo:

Com pena peguei na pena
Com pena de não te ver
Com pena larguei a pena
Com pena de te escrever

Difundida a valer por todo o nosso estado. Localizei-a nesta capital, em Vila Velha, em Guarapari, Santa Teresa, Manguinhos, Itaguaçu, Araçatuba e Viana, em variantes diversas. Cito aqui apenas esta:

Com pena peguei na pena
Com pena de ter escrevê
A pena caiu do dedo (ou da mão)
Com pena de não te vê

Sílvio Romero recolheu versão gaúcha, em seus Cantos populares do Brasil, página 286, variante da que também se lê no Cancioneiro guasca, página 62.

A quadrinha, porém, importamo-la de Portugal, onde, parece, todas as coletâneas a mencionam. Cfr., por exemplo, Cancioneiro de Viana do Castelo, nº 273; Cancioneiro de Entre Douro e Mondego, de Arlindo Souza, nº 981; Mil trovas, nº 873; Cantares do Minho, volume 2, de Fernando de Castro Pires de Lima, nº 1316.

O paralelismo entre as trovas paulistas e as capixabas prossegue evidente pelo Caderno a dentro. Hoje, ficamos por aqui, apenas nessas quatro quadrinhas — todas elas, como se vê, de remota procedência portuguesa, o que, a evidência comprova a íntima relação e dependência do nosso lirismo popular à singela e amorosa alma lusitana.

(Neves, Guilherme Santos. "Trova popular". A Tribuna. Vitória)