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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 68
Julho 2004

Almanaque
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O mamulengo no Nordeste brasileiro, por José Luís Ribeiro

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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


O mamulengo no Nordeste brasileiro

José Luís Ribeiro


Xilogravura de Marcelo Soares

Dentro dos processos culturais de um povo, o teatro surge como uma expressão plena. E maior ainda será a expressão comunicativa se encontrarmos o verdadeiro teatro do povo — aquele que ele mesmo faz.

Dentro de uma sedimentação cultural, existe um resquício de formas vitais que são resguardadas pelo sentimento do povo.

O mamulengo, forma teatral que prescinde das aparições do homem no palco, é um dos mais típicos exemplos da cristalização de cultura. É derivado da marionete. Seria catalogado como fantoche de luva. São formas manipuladas com a introdução das mãos dentro de luvas, ficando os dedos encarregados de dar movimentos aos braços e cabeças do boneco.

Dentro do repertório do teatro de mamulengo, encontram-se peças que lembram a literatura de cordel. Sempre existe um diabo e um espertalhão que o convence de modo a lográ-lo. Existe ainda a sogra petulante e enjoada. Um valentão e inúmeros animais.

Como o artista do Norte é geralmente pobre, ele comercializa sua arte.

Existe sempre uma mulher que canta e toca tambor, um cantador, geralmente violeiro, além de dois ou três manipuladores. Cada manipulador pode animar duas figuras.

Sempre lembrando ligeiramente a Comédia dell'Arte, a ação termina com pancadaria.

Entre os heróis, existe o santo, que aparece como um deus ex-máquina, o espertalhão, que muitas vezes é o João Grilo da literatura de cordel e também do Auto da compadecida, de Suassuna.

Entre os vilões existe sempre o cangaceiro matador e o diabo. Além destes há ainda personagens do nosso folclore, tais como o lobisomem e o caipora.

Expressões "virge", "santa mãe" e o "cão" surgem durante as cenas, que geralmente mantêm uma característica simples. Baseiam-se quase sempre em um conflito entre o bem e o mal, que evolui para grande aperto do herói que, no fim, consegue a vitória.

Lendas sobre a vida dos santos, tão comuns no misticismo do homem nordestino, são de pleno agrado.

A confecção do mamulengo exige pouco gasto monetário, mas bastante imaginação. Contas, trapos, meias vehas poderão compor um personagem que encantará o homem simples que vê o mamulengo.

Pela sua simplicidade, seus temas, os bonecos do mamulengo representam toda a alma pura do brasileiro que vive e morre numa terra rachada pelo sol e fustigada pela seca.

(Ribeiro, José Luís. "O mamulengo no Nordeste brasileiro". Gazeta Comercial. 27 de agosto de 1967)