Folclore: O pau de bater feijão
A. Seixas Neto
Muita gente pensa — crê mesmo — que folclore é somente o registro das antigas festas rituais; outros entendem que são unicamente as rezas, ladainhas e orações. Daí o folclore girar, programado, nas recomposições atuais, em torno de paus de fita, vilão, cacumbi, boi-mamão, no panorama festivo, o que não passa, afinal, de uma repetição de rituais que se não estudaram bem ainda; há um certo orgulho ilhéu — da ilha de Santa Catarina — com respeito às rendeiras, já derradeiro artesanato existente, eis que a industrialização liquidou os que ainda se contavam pelos sítios da antiga Desterro, como tributo ao progresso. As rendeiras ainda não são bem folclore, mas um dia quando só forem simples notícia, o serão, como são hoje os fazedores de brinquedos e louças de barro etc. Mas o folclore artesanal ainda é lembrado, se não vigente ainda, nos sítios do litoral barriga verde e mesmo até às encostas da serra Geral.
Faz caso das minhas andanças meteorológicas que tive no extremo da orla canavieira do vale do Tijucas, em Major Gercino; nessas andanças, evidentemente, se encontram notícias e mesmo práticas inusitadas de viver popular; nessas andanças, vê-se quanto do passado histórico inda é atual; nessas andanças vê-se que o empirismo é a gênese mais profunda e mais inexplorada disto que ordenadamente chamamos ciência; vê-se a improvisação tornar-se uso e, depois, costume; vemos o folclore ativo, por fim.
Mas vamos ao caso. Em cesta roça agora que é tempo de colher o feijão, ou já seco da colheita de dias, sob o sol, em feixes de alguns pés, estendidos sobre cercas, varais, latadas, batia-se feijão. Bater feijão significa simplesmente, tirá-lo de dentro da vagem ressecada; e usa-se para isto um porrete de madeira bruta. Entre uma e duas bergamotas, colhidas fresquinhas à árvore, foi-se encaminhando a conversa com o lavrador, sua família e outros que ali acorreram, mais por curiosidade pela viatura kombi da Usina de Açúcar que carrega material meteorológico.
E pedi esclarecimento sobre o porrete que usavam: era o pau de bater feijão. Explico o instrumento. São duas varas de um metro cada uma, amarrada pelas pontas com pequeno laço de corda, cipós ou mesmo forte torcida de pano. Assim, uma das varas serve de cabo e a outra, movimentando-se livre, serve de batedor. E por mais força que se lhe imprima, o batedor choca-se sempre com o monte de plantas e vagens secas com a leveza de palmada em crianças manhosas — como imaginativamente figurou o roceiro — sem ferir o feijão novo, negro ou vermelho, macio. E ajuntando a isto, o avatar ritualístico: feijão batido assim não esquenta e não bicha. Trocado isto em linguagem da cidade: não ferido, não rebentada a casca, o feijão não fermenta em contato com o ar.
O pau de bater feijão é uma recordação das massas de combate medieval, parece-me, uma espécie de tacape de ferro, com esporões, tinha como cabo uma corrente longa. É sem dúvida um instrumento interessante o pau de bater feijão.
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