"Eurico Alves, poeta baiano
salpicado de orvalho, leite cru e tenro cocô de cabrito
sinto muito,
mas não posso ir à Feira de Santana
não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça."
(Manuel Bandeira)
Não é necessário ser radical como o poeta Manuel Bandeira. Na Princesa do Sertão, como é conhecida Feira de Santana, diferente das outras cidades, a segunda-feira tem um significado especial. Nesse dia, uma esteira de gente e barracas com dois quilômetros e meio de extensão forma a maior e mais completa feira livre do país, onde se compra desde a tiririca de babado, erva pródiga na cura de impaludismo, até uma mobília completa de quarto e sala para os menos exigentes.
O povaréu serpenteia a maior avenida da região, a Getúlio Vargas, inunda as praças da Bandeira e João Florêncio, corta a avenida Senhor dos Passos em pleno coração da cidade para terminar em forma de um grande T pelas ruas Marechal Deodoro e Sales Barbosa, em mais de um quilômetro de barracas, colchões, farinha e gente.
Desde as seis horas da manhã que no tabuleiro sertanejo o sol já vai alto, cerca de trinta mil pessoas expoem, vendem, compram e trocam febrilmente mercadorias. É a feira grande como dizem os da terra.
Divisão
Desde a madrugada de sexta-feira um movimento intenso domina a cidade com a chegada dos feirantes em caminhões, caminhonetas, carroças, no lombo de animais e alguns a pé. Vêm de cerca de trinta municípios circunvizinhos e alguns feirantes saem na quinta-feira de suas roças em Alagoas e Sergipe para vender as suas mercadorias na Feira de Santana.
Na verdade são três feiras: a de sábado, que abastece a população da cidade, a intermediária no domingo, para os retardatários, e a grande feira na segunda, que atrai compradores até de Salvador, distante apenas 110 quilômetros da Princesa do Sertão, toda asfaltada.
A fim de facilitar aos compradores a localização das mercadorias, a secretaria de Agricultura nomeou as barracas. O resultado foram várias feiras dentro da feira: feira das verduras, feira das carnes, de confecções, frutas, passarinhos, de bicicletas, de artefatos de couro, de cerâmica, de fibras, de móveis, de plásticos, de farinha, de calçados, de colchões, de louças, de alumínios (aparelhos de cozinha, de requeijão, de rapadura, de bebidas, de brinquedos, de escultura popular em barro cozido — cada uma delas ocupando um espaço pré-determinado, ao longo da avenida Getúlio Vargas, praça da Bandeira e João Florêncio, continuação da avenida Marechal Deodoro e Sales Barbosa.
A maioria dessas mercadorias também são encontradas no Mercado Municipal que fica na praça da Bandeira, ocupando uma área de oitocentos metros quadrados e que está aberto durante toda a semana.
Feira do gado
Embora compondo a grande feira, a do gado tem local próprio no bairro da Queimadinha, a quatro quilômetros do centro da cidade. Ocupa uma área de dois mil metros quadrados, cercada de muro. Aí, ficam os currais de exposição do gado para corte, cria e engorda, que chega em vastos caminhões.
Desde cedinho os compradores se avolumam nos cercados e nas balanças. São fazendeiros, capatazes, vaqueiros na sua maioria vestidos a caráter: alpercatas de couro cru, perneiras, bermudas, jalecos (espécie de colete), gibão (paletó), luvas e chapéu, tudo em couro. Em torno dos currais escolhem os novilhos, os bois, que são levados à balança com capacidade para pesar até sessenta de uma vez. Acertado o preço, os animais são embarcados em extensos caminhões-currais, para as fazendas, se são para engorda ou cria, para o matadouro, se para frigoríficos.
Mas o que particularmente atrai o turista são as doze barraquinhas que vendem tudo para a montaria e cujos adornos já são comuns na decoração de residências: estribos de bronze, níquel, prata usados como argolas para puxadores de cortinas, chapéus genuínos de couro cru e curtido para paredes, caçambas (estribo em forma de sapato) de prata, bronze ou níquel usados em mesinhas de centro, ou paredes, rebenques (chicotes), estilizados, também para mesinhas ou consoles. A par disto, os jalecos de couro de carneiro e o gibão que podem ser vestidos nas estações frias. Os preços variam de dez cruzeiros novos (um estribo de bronze) até NCr$ 200,00 (traje de vaqueiro completo, ou caçambas de prata).
Além das alpercatas de vaqueiros em forma de sapato, as barracas vendem chinelos que lembram as alpercatas Ho Chi Min, cujo preço não ultrapassa os cincos cruzeiros novos.
Fora dos currais, beirando os muros, cerca de seis abrigos, cercados protegem os porcos, carneiros, ovelhas que também têm sua feira. Aí mesmo são pesados e colocados em camionetas para os matadouros ou fazendas
Ao lado do prédio onde se localizam as balanças, realiza-se a feira de montaria: éguas, jumentos, cavalos e burros são negociados avidamente.
Cerâmica
Visita obrigatória para quem vai à grande feira é a da zona dos caxixis: jarros, moringas, potes, panelas, gamelas de barro, cinzeiros, tudo em miniatura e pintado em cores berrantes.
O artesanato popular com suas esculturas de barro cozido, uma peça de Vitalino Filho, de Pernambuco custa até NCr$ 10,00. Geralmente reproduzem rusticamente, o casamento na roça, a prisão do ladrão de cavalo, o ladrão de galinha, o juiz, o advogado e o réu, o pregador e os ouvintes, e outros temas da memória popular.
E há louças de barro vidrado, panelas próprias para feijoada, para a maniçoba (os ingredientes da feijoada misturados a uma caldo grosso feito com a folha da mandioca) moringas e potes em tamanho normal.
Raizeiros e cantadores
Figura indispensável nas feiras do Nordeste, o raizeiro, como é chamado o vendedor de ervas e patuás, é a síntese da medicina popular, misto de curandeiro e comerciante que conhece todos os segredos das ervas e sua aplicação na cura milagrosa de qualquer doença.
Não tem lugar certo na feira e geralmente expõe sua mercadoria no chão, em cima de esteiras de sisal. São cerca de vinte em Feira de Santana. Seu negócio inclui: cavalinho-do-mar (cavalo-marinho) e a estrelinha, secos usados no tratamento da asma, pau-d'arco para coração, fígado, banha de jibóia e banha de ema para reumatismo e dores no corpo, semente da andiroba, cujo óleo é usado para tirar peste de cachorros, porcos e galinha, cipó de milone, cujo chá levanta as forças, alecrim-do-reino para histeria e nervosismo, mucuíba para ar de vento (vento mal que quando passa entorta as pessoas, segundo a crença popular), pimenta-da-costa para dores generalizadas, imburana de cheiro para o sangue, velaminho, erva para constipação, baba-teimão para ferimentos, além de defumadores para mau olhado.
O raizeiro Pernambuco, há dez anos negociante na feira da Princesa do Sertão, jura de pés juntos que "tudo isso cura". É preto e magro.
— Tem é gente boa que me procura porque os médicos da ciência não botaram eles com saúde.
Fala sério com os olhos fixos no espaço, certo de que possui toda a sabedoria do mundo.
Ao lado da igreja de Nosso Senhor dos Passos, esquina da Getúlio Vargas com a praça da Bandeira, os cantadores marcam seus produtos: a história da mulher que bateu na mãe e virou um carneiro, de como Roberto Carlos foi para o inferno, o livro de São Cipriano que ensina "ter parte com o diabo", Os diabos e alma, História de um barão.
Não muito distante, dois cegos cantam um desafio, religiosamente ouvidos por uma vintena de feirantes e curiosos. Não pedem esmola: a sanfona, o cavaquinho, o violão e o pandeiro atraem os fregueses generosos.
Lugar-comum nos cantos dos poetas populares, cantadores, trovadores são as façanhas de Lampião, do bandido Lucas da Feira, as lições do Padim Ciço (padre Cícero Romão).
Fartura
Assim é Feira de Santana nas segundas-feiras. De meia em meia hora, as duas empresas despejam seus ônibus vindos de Salvador na estação rodoviária da cidade: são os que não tem carro próprio que vêm.
E tem muita coisa: redes de dormir e rendas do Ceará, carne charqueada do Rio Grande do Sul, panelas de pedra-sabão de Nazaré das Farinhas, peixes dos açudes do Norte e do São Francisco, charutos e fumo de corda de Maragogipe, requeijão de Anguera e Tanquinho, artesanato de sisal de Serrinha, melado, rapadura e cachaça dos engenhos de Santo Amaro, carne-de-sol de Rui Barbosa, mármore, pedras ornamentais e cristais de Morro do Chapéu, madeira de Jequié, Prado e Medeiros, gado de Novo Mundo, prestidigitadores faquires, camelôs, plásticos do Rio de Janeiro e São Paulo.
Cerca de 120.000 habitantes na sede, o maior entroncamento de estrada de rodagem do Nordeste (cinco estradas federais e três estaduais), um Museu Regional que atrai cem visitantes por dia, um centro industrial em formação (Subaé — vinte e duas indústria já assinaram carta de opção), dois clubes sociais com piscinas, "a maior avenida do interior baiano" (a Getúlio Vargas), três mil pequenas indústrias, Feira de Santana não justifica o radicalismo do poeta Manuel Bandeira ao dizer: "Sinto muito mas não posso ir à Feira de Santana, não sou mais digno de respirar o ar puro dos currais da roça." Só a grande feira é tudo.