Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Janeiro 2006 - Ano X - nº 86


Sumário

Festança
O povo louva a São Sebastião
Guilherme Santos Neves

Instrumentos musicais e danças dos negros
Robert Walsh

O enterro da cabeça do boi
Abelardo Duarte

Cancioneiro
Florioso

Moda dos canarinhos
Pascoal Baer Guimarães

Belíssimo dicionário das moças
José Pedro Pontual

Imaginário
Teresa Bicuda
José Aparecido Teixeira

O cafezal encantado
Joaquim Ribeiro

A centenária
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau
A moqueca

Baunilha
Richard Burton

Aguardente
José Pimentel de Amorim

Oficina
Um condutor poeta no bonde Tijuca
Américo Matos

O galo na cerâmica
Francisco Pati

Jangadas de Ilhéus
L. de Castro Faria

Palhoça
A grande feira da Bahia

Touradas
Rubens de Mendonça

O vocabulário de minha avó
Brito Broca

Panacéia
Bons e maus sinais

Ano Novo
J. Monteiro

Olhado
José Pimentel de Amorim

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

A centenária

Figueiredo Pimentel

Genoveva, a velhinha tia Genoveva, já tinha quase cem anos, um século de idade, um infinito de misérias e padecimentos!

Uma noite achava-se ela sozinha no seu quarto.

Estava a pensar na sua vida passada, em todas as suas desgraças. Tinha perdido primeiro seus pais; depois seus irmãos; seus parentes; seu marido; por último, seus filhos. Gerações e gerações passaram; crianças nasceram, morreram. Só ela ainda vivia.

No coração sentia tão profundo desgosto, que chegou a amaldiçoar o próprio Deus.

Engolfada assim nesses tristes pensamentos, pareceu-lhe ouvir tocar à missa das almas.

Admirada por ver que a noite correra tão velozmente, foi para a igreja.

Aí chegando, viu toda a matriz iluminada, não com as velas de cera dos altares, mas por uma claridade opaca, amortecida.

O templo estava repletíssimo de fiéis, sem haver um único lugar vazio.

Tia Genoveva quis sentar-se no seu banco, mas viu-o ocupado e reconheceu nessa gente todos os seus parentes, desde longo tempo mortos.

Uma de suas irmãs falecidas chegou-se perto dela e disse-lhe:

— Olha para os lados do altar-mor, que verás teus filhos.

A desgraçada mãe viu-os em verdade: um estava dependurado numa forca; o outro jazia no chão assassinado.

— Vês?! Aí tens o que lhes teria acontecido, se Deus os não chamasse para si, quando estavam ainda na idade da inocência.

A centenária caiu de joelhos, rendendo graças ao Senhor.

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da baratinha. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.54-55)

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