Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 86
Janeiro de 2006
Artigos deste mês em Cancioneiro
Florioso, colhido por Sílvio Romero

Moda dos canarinhos, por Pascoal Baer Guimarães

Belíssimo dicionário das moças, por José Pedro Pontual



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Florioso

Colhido por Sílvio Romero, em Lagarto, Sergipe

— Entre pedra e peneiras
Senhora, vamos a ver
Menina que estais na fonte
Dai-me água para beber

"Com licença do Senhor
E da Senhora da Guia
Dizei-me, senhor mancebo
Se vindes da companhia?"

— A companhia que trago
Já vos digo na verdade
Venho divertir o tempo
Que é coisa da mocidade

"É coisa da mocidade
Bem já me parece ser
Dizei-me, senhor mancebo
Se sabeis ler e escrever?"

— Eu não sei ler e escrever
Nem mesmo tocar viola
Agora quero aprender
Na vossa real escola

"Escola tenho eu de minha
Nange pra negro aprender
Juízo te dê Deus
Memória para saber"

— Nestas mimosas esquinas
Faz-se ausência muito mal
Eu sempre pensei, senhora
Que vós me queríeis mal

"Quanto a mim, eu não te quero
N'alma, nem no coração
Até só te peço, negro
Que não me toques na mão"

— Nas mãos eu não vos toco
Nem mesmo bulo convosco
Quero estar a par de vós
Pois eu nisto levo gosto

"Se tu nisto levas gosto
Desgostas por vida tua
Que esta cara que aqui está
É de outro e não é tua"

— Se é de outro e não é minha
Inda espero que há de ser
Menina, diga a seu pai
Que me mande receber

"Tais palavras eu não digo
Que inda sou muito escusada
Pois eu sou menina e moça
Não sou para ser casada"

— Inda mais moças que vós
Regem casa e têm marido
Assim há de ser, menina
Quando casardes comigo

"Mas eu não hei de casar
Porque não hei de querer
Eu não me meto a perigos
Quando vejo anoitecer..."

— Nem eu quero coisa à força
Senão por muita vontade
Eu quero gozar a vida
Que é coisa da mocidade

..........................................

"Donde vem o Florioso
Das melêndias penteadas?"
— Eu venho ser o vaqueiro
Das ovelhas mais das cabras

"Deste mesmo gado eu cuido
Da minha fina geração"
— Daquele que veste luvas
De cinco dedos nas mãos

"Já fui contar as estrelas"
— Eu já sei que estou no caso
"Eu sei agora, mancebo
Que tu só és o diabo"

— O diabo eu não sou
Ai! Jesus que feio nome!
Só peço ao Senhor da Cruz
Que este diabo vos tome

 

(Romero, Sílvio. Cantos populares do Brasil. Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954, p.120-123 (Folclore Brasileiro, 1; Coleção Documentos Brasileiros, 75))
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