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Janeiro 2005 - nº 74 - Ano VII


Sumário

Festança

Festas de Natal no Rio de Janeiro do início do século XIX
Joaquim Manuel de Macedo

Formas de samba
Edison Carneiro

O culto de São Gonçalo
Ronaldo de Serigi

Cancioneiro

O menino gigante

A glória de Guararapes
Lourival Batista

A B C da seca dos Dois Setes
Antônio Batista de Melo

Imaginário

Lendas, mitos e crendices do Brasil

A corda do diabo
Figueiredo Pimentel>

Bakaru juko ro (lenda do macaco)

Colher de Pau

A cozinha goiana
Hildegardes Viana

O vinho do porto e o folclore
Marques da Silva

Fabricação de farinha de milho
Donald Pierson

Oficina

Artesanato folclórico do Rio Grande do Sul
Antônio Augusto da Silva Fagundes

A pesca de sururu em Alagoas é feita com muito primitivismo
Tobias Granja

Fabricação de carvão vegetal
Donald Pierson

Palhoça

Pente-fino
Mauro Mota

Cafuné: carinho e cultura

Nomes usados pelas paulistanas há 188 anos
J. David Jorge (Aimoré)

Panacéia

Uma oração egípcia no sertão
Gustavo Barroso

Árvores do bem e do mal
Ademar Vidal

Oração contra feitiço

Veja o que foi publicado em festança
Apoio Cultural
Simplicitate Design

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Festas de Natal no Rio de Janeiro do início do século XIX

Joaquim Manuel de Macedo

Admitindo que os meus companheiros de passeio principiem a interessar-se pela história que vou contando, sou obrigado a pedir-lhes perdão, porque é força que eu a interrompa por momentos, para dizer em duas palavras alguma coisa sobre as festas do Natal na cidade do Rio de Janeiro, tais como elas eram no século passado e ainda em alguns anos do atual.

As festas do Natal estendiam-se, como ainda hoje, do dia 25 de dezembro do ano que acabava até 6 de janeiro do novo que começava. Nelas, porém, predominavam os dias dc Natal, de Ano Bom e de Reis.

O dia de Natal era notável pela missa chamada do galo, pelas ceias alegres que a precediam e que tão famosas eram, e pelos presépios que se abriam ao público, e a que concorriam chusrnas de visitadores.

No fim do século passado, os presépios mais estimados do Rio de Janeiro eram três. O da ladeira de Santo Antônio, que os religiosos franciscanos apresentavam anualmente. O do Convento da Ajuda, mais pequeno que o precedente talvez, porém mais curioso e atrativo, porque ao mesmo tempo que se viam as figuras do presépio, se ouviam cantos religiosos e análogos ao assunto, entoados pelas freiras. E incontestavelrnente superior a ambos, o presépio do Livramento, na casa que fica ao lado direito da Capela de Nossa Senhora do Livramento.

Estes presépios conservavam-se abertos e patentes ao público em todas as noites, desde a do Natal até à de Reis.

O presépio do Livramento era propriedade e glória do célebre cônego Filipe. As figuras que ali se apresentavam eram de barro e tinham dois palmos de altura, e de tanta fama gozava esse presépio que o príncipe regente, depois rei dom João VI, o visitou por mais de uma vez.

Como já disse, o proprietário desse presépio foi aquele sempre lembrado cônego Filipe, que se imortalizoü por trinta mil simplicidades. Uma vez, por exemplo, indo esse cônego pregar em uma festa fora da cidade, hospedou-se na casa do festeiro, e, como chovesse muito durante a noite e houvesse uma goteira exatamente por cima da cama em que devia dormir o cônego, este passou a noite inteira sentado na cama, a receber no prato do rosto a água que caía da goteira. No dia seguinte, lamentou-se o pregador da sua triste e maçante vigília.

— Oh! sr. cônego! — disse o festeiro. Por que não afastou v. revma. para longe da goteira a sua cama?

— Homem! — respondeu o cônego. Você tem toda razão. Mas essa só lembra ao diabo!

E como esta muitas outras.

Ao dia do Natal seguia-se o de Ano Bom, que era o das visitas, dos presentes, dos banquetes e dos obséquios.

E enfim, o dia de Reis fazia-se muito apreciado pelas cantatas de reis, que começavam na noite de 5 e repetiam-se na de 6 de janeiro.

Eram numerosos os reis que corriam a cidade, cantando às portas das casas das famílias amigas, que ofereciam a esses obsequiadores ceias opíparas e riquíssimas e variadas mesas de doces. Havia cantador de reis que atacava dez ou doze ceias em uma noite e não tinha indigestão.

Os cantadores de reis compunham-se de mancebos e moças, de ordinário vestidos à camponesa, e de alguns grotescos mascarados, a quem competia alegrar as companhias, provocando risadas.

Percorrendo a cidade em diversas direções, reuniam-se enfim todos os cantadores de reis no pátio do Convento da Ajuda, onde terminava a festa alegremente, em um outeiro mais ou menos brilhante. As freiras davam motes do alto das janelas e por entre as grades, e os poetas glosavam como podiam e de improviso, mas quase sempre com metrificação livre.

Dou apenas uma ligeira idéia destas festas, de que espero tratar mais de espaço.

 

(Macedo, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1991, p.189-190 (Imagens do Brasil, 1))
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