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O vinho do porto e o folclore

Marques da Silva

Folclore é a ciência que trata dos costumes dos povos, na sua arte, na sua música, nas suas danças, nas suas cantigas, nos seus trajes, nas suas comidas, nas suas tradições, enfim.

Um povo rico em folclore é um povo que não perecerá e por isso, Portugal é eterno.

Sendo o vinho do porto como no número passado declarei, o maior embaixador de Portugal, ele nos oferece, através de suas metamorfoses, uma riqueza folclórica ímpar.

É o trabalho da casa, em março e o da redra (cava profunda) em maio.

É em setembro e outubro a ida em ranchos, do pessoal da roga, provenientes das terras vizinhas de Trás-os-Montes e das Beiras, para a faina das vindimas, que, a par do seu trabalho indispensável levam às encostas, íngremes e pedregosas da região demarcada, a alegria de suas músicas, interpretadas pela sanfona, a viola, o bombo e os ferrinhos e, num vaivem constante e cadenciado, vão conduzindo das vinhas em cestos vindimos que mulheres, velhos e crianças enchem, já devidamente escolhidos, os belos cachos de uvas — Alvarelhão, Bastardo, Casculho, Cornifesto, Malvazia, Mourisco, Souzão, Roriz Côdega, Gouveia, Moscatel, Rabigato, sei lá quantas qualidades — para os lagares onde a própria pisa se constitui noutra característica alegre do folclore do vinho.

Chegado o momento próprio verifica-se o "abrir do lagar" fazendo passar o líquido para os tonéis onde será incubado, adicionando-se-lhe aguardente vínica nas quantidades técnicas indicadas, a fim de lhe sustar a fermentação, produzindo o "vinho tratado", mais ou menos licoroso, conforme se pretende, segundo o tipo de vinho do porto a que se destina.

E o folclore continua numa demonstração incomparável.

Colocado o vinho preparado em pipas trata-se de o enviar para os armazéns do Porto de Gaia, e, devido ao acidentado terreno, as pipas são conduzidas em carros de bois, cujos animais são ungidos por molhelhas, cujas rodas com dispositivo adequado fazem uma penetrante chiadeira, até a beira do rio, onde os espera os típicos "barcos rabelos", embarcações de fundo chato e características próprias para poderem vencer o pedregoso e incerto leito do rio Douro, e que conduzem entre 25 e 50 pipas cada um.

Desconhece-se, segundo Armando de Matos, a procedência desse tipo de embarcação, apenas se sabe que a sua identidade foi definida a partir de 1792, quando o marquês de Pombal criou a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro.

Para se auxiliarem na viagem, os barcos rabelos, cada um sob o comando do mestre — feitor da espadela, não obstante a presença do arrais — feitor da proa — que é o dono da embarcação e portanto aquele que contrata os "marinheiros" que ao todo formam uma tripulação de onze homens, cada um dos quais com sua missão definida, descem o rio em autênticas esquadras, cujo conjunto de barcos, com as velas enfunadas ao vento, tendo por cenário as verdejantes encostas, oferecem um dos mais belos panoramas que aos olhos já nos foi dado apreciar.

Já em si, o "barco rabelo" é folclore; esta faina fluvial de autênticos bergantins reais — porque conduzem o rei dos vinhos — constitui uma das mais belas demonstrações do folclore português.

E os barcos chegam ao cais da Ribeira, na margem direita ou ao cais Ramos Pinto, na margem esquerda, descarregando para serem conduzidas aos armazéns, as pipas de vinho, generoso, vinho do Douro, que ali vão receber o beneficiamento que, qual pia de batismo, o vai transformar no mais categorizado vinho do mundo — o vinho do porto.

 

(Silva, Marques da. "O vinho do porto e o folclore". Voz de Portugal. Rio de Janeiro, 05 de janeiro de 1958)
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