Ao receber alguns livros de autores da jovem Goiânia, louvo o belo Goiás de encantos ainda não totalmente revelados. Goiás que se vai visitar uma e se tem vontade de ficar para sempre por lá. Terra de gente que procura saber o que há de glorioso no seu passado ou de promissor no seu presente, para poder provar o belo futuro que tem pela frente.
Bariani Ortência escreveu um livro, A cozinha goiana. Assunto da ordem do dia principalmente porque é um livro de combate. Representa um esforço para resolver uma questão para os goianos de grande importância existe ou não uma cozinha puramente goiana?
Tal questão é levantada devido a um tópico do prefácio de Edison Carneiro para a primeira edição da Cozinha baiana, de Darwin Brandão, e que diz assim "Só há uma cozinha igualmente caracterísitca no país — a do Pará, herdada diretamente dos indígenas. Na Bahia, são os pratos africanos que a identificam, o vatapá, o caruru, o acarajé. Nos outros estados a culinária admite influências diversas, ora mais pronunciadamente africanas, ora mais declaradamente indígenas, de mistura com prática européias, especialmente portuguesas ou cosmopolitas."
O livro não é o que devia ser a esta altura, quando tudo obedece a uma técnica pré-estabelecida e tem de ser arrumadinho para poder ter jeito e aspecto de pesquisa. Ao mesmo tempo é o que devia ser. É um livro despretencioso, em que o autor segura o leitor pelo braço e leva a passear por tudo quanto já foi escrito sobre o que se come, como se come e porque se come isto ou aquilo em Goiás. É um relato divertido, desalinhavado, encerrando uma compilação de vários fragmentos de textos de outros indivíduos que viveram ou sentiram a magia de Goiás. O que se come na cidade, na fazenda, nas folias do Divino, na Sexta-feira da Paixão, as pipocas, amendoins, batata-doce e furrudum das festas de junho que por lá não há milho-verde na época.
O anedotário é grande, embora a maioria das piadas não seja original. O receituário propriamente dito bem alentado, relacionado 400 pratos, alguns típicos e outros comum a todo Brasil. Para nós baianos traz a novidade do acarajé goiano que provei sob as telhas acolhedoras do falecido Umbelino Galvão (seu Bi Galvão em Goiânia, anos atrás. Também o arroz de suã (arroz misturado com carne de porco), arroz de pequi.
O capítulo primeiro traz uma visão da vida da antiga capital de Goiás em tempos idos. Tem curiosidades como até 1920 a cerveja ter sido tomada em cálice como licor; até 1917 ninguém comia tomate grande com medo de fazer mal; só depois de 1920 os vilaboienses (termo que designa os nativos de Goiás Velho) tomarem conhecimento do prosaico bife, acostumados que estavam com a carne picadinha, carne recheada com carne moída; quase ninguém naquela época comia frutas, tendo os corajosos muito cuidado em não misturá-las quando se aventuravam a ingeri-las, porque cada uma tinha sua hora própria, sendo estas quentes, aquelas frias e aquelas outras reumosas.
Para provar que o mundo é pequeno, registra no capítulo das Técnicas: o hábito de enrolar carne verde em folhas de mamoeiro para ficar macia e o de murchar folha de bananeira no fogo para não quebrar. Técnicas empregadas pelas velhas quituteiras baianas e ainda anotadas pelas da nova geração, mormente as vendedeiras de acarajé e donas de barraca de comida.
Boneca, Bariani Ortêncio define ser um embrulhinho amarrado com alguma coisa dentro. A boneca que as cozinheiras antigas da Bahia chamavam de bruxa quando se tratava de colocar canela em pau, cravo e erva doce em canjica ou arroz doce. Creio que já deixou de ser bruxa no vocabulário comum de cozinha, embora continue a designar as bonecas de corpo de pano.
Há um desencontro entre Bahia e Goiás quanto ao significado de mão. Em Goiás a mão contém 60 unidades ao passo que na Bahia apenas 50. O goiano é generoso nas medidas. Enquanto os alqueires paulistas andam pelos 34.200 e 25.227 metros quadrados, respectivamente, o alqueire goiano atinge 48.400 metros quadrados e é capaz ainda de dar quebra.
Outro desencontro entre o baiano e o goiano é no sinônimo refogar. O goiano diz afogado. O baiano prefere recheado. Aliás Félix Bastos corrige a ortografia escrevendo rechiar. Rechiar seria fazer a carne chiar na gordura mais de uma vez. Se non é vero...
Embora não prove que haja uma cozinha goiana capaz de se emparelhar com a baiana ou a paraense, Bariani Ortêncio consegue quase que esgotar o assunto. Ou como diz Regina Lacerda, sua prefaciadora:"Não se limitou Bariani a colher receitas, cita literatura, registra costumes, compara técnicas, estuda influências como método e paciência, numa contribuição que excede as características de trabalho pioneiro".