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Ligeira anatomia da viola

João Chiarini

A viola é um instrumento português. O brasileiro gostou dela e por tal está em toda parte. Juca Violeiro (José Antônio Maria) fez tantas e nenhuma igual. Mulato que morreu de velho, residia ali, no Bairro Alto, em Piracicaba, à rua Morais Barros, esquina de Bernardino de Campos, numa casa que ainda existe. Mas Juca Violeiro nunca usou processos mecânicos para criá-las. Tudo era manual.

Pelo canivete e tesoura também são as realizadas por José Barbosa. Mas este foi além. Surgiu agora com as de lata. Dorival Caymmi, nos pavilhões do Centro de Folclore de Piracicaba, na Feira Folclórica que se deu nesta capital, adorou uma das suas. Agora, Luiz Peixoto e Hekel Tavares adquirem dele outras.

O Centro de Folclore de Piracicaba tem três notabilíssimas. A gente tem a impressão que as suas violas de lata não dão sons, em virtude de sua estrutura, não se falando das cordas que poderiam ceder. Nada disso acontece. A caixa de lata é boa e umas tantas posições (afinações) respeitam as chamadas das cravelhas. O cebolão vai muito bem nela. O cebolinha e o quatro dedos agüentavam as batidas, os rasqueados, os maiões, os ponteios etc.

Barbosinha outro dia mesmo tocou numa delas, a que o Hekel Tavares levou pro Rio de Janeiro e, então, o Joracy Camargo e o Luiz Peixoto ficaram espantados com a música do modinheiro e com o gênio inventivo do Barbosão. Tudo isso ali na rua do Porto, mais abandonada e esquecida do que nunca, ao lado dum cafezinho, que foi torrado em casa e mopido no pilão.

As violas do Barbosão não têm segredos. São simplíssimas. Mas as do Juca não. Antônio Estevam que à noite é modinheiro e de dia coveiro, no cemitério de Piracicaba, tem uma de sua lavra. É a Noiva de Colina. Benedito J. Duarte, abre um filme de folclore desta região com essa viola. No tampo estão flores e passarinhos coloridos. Não falta o elo de losangos pretos, no bordo do oitavado superior. Característico da viola de Juca Violeiro.

Os traços ou pontos não são menos do que 15 e não vão além de 21. No seu interior há macinhos de arruda, ou de guiné, ou guizo de cascavel. Todos estes amuletos evitam os efluvios maléficos. O violeiro, o modinheiro, o pedreste não gostam que estranhos toquem no seu instrumento. Na palheta estão presos os ex-votos (fitas). Entre as duas linhas paralelas de cravelhas, há uma perfuração retangular de uns 12 centímetros. Há embaixo um travessão, ligando a palheta ao braço, passando sob a pestana. A madeira do braço é de pinho, mas a da palheta é de pinho, obeto ou de riga. Que este é muito flexível, envergando bastante. Pode-se afiná-la nos tons altos. Eis pois a razão do corte. Ao leigo dá impressão que o Juca  fizera para embelezá-la.

Construiu violas de 10, 11, 12, 13 e 15 cordas. Cerca de 2.000 violas. As de 10 são as mais comuns. Apenas 5 ordes: companheira do canutio (amarela, nº 10), canutio (de seda), companheira da tuera (branca, nº 9), tuera (de aço, coberta), duas primas (brancas, nº 9), turina (branca, 9, amarela, 10), duas contras (brancas, 10). Esta é a colocação das cordas nas violas do Juca e do Barbosão. Noutras cidades não. As 4 primeiras seguem essa ordem, depois vêm amarela, turina, duas primas e duas contras, respectivamente quinta, sexta, sétima, oitava, nona e décima cordas. Não conhecemos viola de arame (guitarra) nem tão pouco de tripas feitas pelo Juca.

Outro aspecto curioso nas suas violas é que o braço vai até o orifício da caixa. Não morre portanto no seu início. Vimos poucas violas suas, que necessitam do trastijo.

Construiu-as somente com um orifício na caixa. Fez mochos. Violas oitavadíssimas, levíssimas. A parte mais larga não alcança 15 centímetros. Tem de altura 6 centímetros.

Antônio Adão (Antônio Rodrigues de Lara), o poeta das flores, tem uma do Juca. Cheia de fitas e flores de maravilha, que dá 12 posições: cebolão, cebolinha, casteiana, quatro-ponto, guariano, tempero-pro-meio, rio-abaixo, afinação de cururu (outra), gualaninho, gualanão, oitavado e temperão. Não o vimos fazer: som de guitarra e tempero mineiro.

Nas suas mãos ela falou romances, namoros, décimas, comédias, desastres, crimes, improvisos, cangaços, aventuras, louvações etc. É a viola natural (dez cordas) mais lírica que já sentimos. Ouvimos Bela França e Saudade de matão, ambas as valsas no cebolão, que deixariam muito longe o cego Aderaldo.

Finalmente, diremos que se não a pode afinar com o frio e com o calor intensos, que se não a deve encostar com o lado das cordas às paredes úmidas e que quanto mais tempo ela permanecer afinada, menos possibilidade haverá de negar. Pinho ou cedro são as madeiras usadas.

 

Ilustrações extraídas de Ribeiro, Manuel da Paixão. Nova arte da viola; que ensina a tocá-la com fundamento sem mestre. Coimbra, Real Oficina da Universidade, 1789.

 

(Chiarini, João. "Ligeira anatomia da viola". A Gazeta. Vitória, 23 de julho de 1949)
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