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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

A MISSA DE NATAL

ANO VI - EDIÇÃO 62
JANEIRO 2004

Festança
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A burrinha

Desfiles e cortejos populares, por Edison Carneiro

Meu Senhor dos Navegantes, por Leão Rozemberg
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Capa
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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Almanaque
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FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


Desfiles e cortejos populares

Edison Carneiro

Em geral, os desfiles e cortejos em que se exprime boa parte da lúdica popular brasileira têm (ou tiveram) intenção religiosa.

Os mais antigos, ao que tudo indica, são a folia do  Divino e o rei Congo, que correspondiam outrora, e até certo ponto ainda correspondem, aos setores branco e negro, respectivamente, da população. São folguedos trazidos de Portugal. A folia provém, diretamente, do tipo de comemoração que os portugueses imprimiram a uma festa móvel do calendário católico e implantaram em todas as suas colônias — o Império do Divino Espírito Santo. Para o maior brilho da comemoração escolhia-se por sorte, entre as pessoas gradas previamente inscritas, o festeiro do ano. O costume ainda permanece, por exemplo, em Pirenópolis, Goiás. Em certas cidades brasileiras a festa envolvia a sagração de um imperador, um menino branco, de cabelos compridos e cacheados, que, de coroa, cetro e manto, ocupava um trono montado no centro da nave da igreja. A folia do Divino era o bando precatório que, em contínuas andanças, durante muitos dias, pela freguesia, angariava as espórtulas dos fiéis para a festa de largo. Debret a fixou, numa das suas gravuras, no Rio de Janeiro. Quanto ao rei do Congo, constitui uma adaptação do velho costume dos reinados às condições especiais da escravidão, primeiro em Portugal e em seguida no Brasil.

A folia do Divino persiste, ainda hoje, em pontos isolados do estado do Rio de Janeiro, Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso, levando consigo dois símbolos católicos do Espírito Santo — a bandeira, encarnada, tendo no cimo do mastro a pomba que o representa, e a coroa, conduzida sobre uma almofada também encarnada. Ao porta-bandeira dá-se o antigo título militar de alferes ou, por extenso, alferes-da-bandeira. Os demais foliões são músicos, dançarinos e cômicos. Constitui uma honra, para o visitado, receber em casa as representações materiais da divindade. Os foliões cantam e dançam, ao som de viola, pandeiro, caixa, comem do bom e do melhor, em localidades do interior se acomodam para dormir, finalmente entoam a despedida-agradecimento:

O Divino lhe agradece
a bela oferta
que vós deu de coração

É esse perambular pela freguesia que garantia o êxito da festa. A contribuição dos fiéis pode ser em dinheiro, que o vigário utiliza na ornamentação da igreja e do adro, ou em objetos, em bolos e doces, em animais de criação (sobretudo galinha e porcos), que são sorteados ou leiloados durante a noite. Em Itaipava, São Paulo, Emílio Willems notou como a festa se tornou vazia e inexpressiva quando o novo vigário proibiu a saída da folia que a anunciava em todos os lugarejos do município.

A folia do Divino inspirou, como veremos, outras folias no Brasil.

Do rei do Congo as notícias mais antigas vêm de meados do seculo XVIII, em Pernambuco. O seu ponto de apoio eram as Irmandades do Rosário, mais tarde do Rosário e de São Benedito. Em começos dos século passado, Debret retratou a corte do rei do Congo disposta em torno da igreja do Rosário, no Rio de Janeiro, recolhendo dinheiro para Irmandade, enquanto Henry Koster descreveu, com sarcasmo, a cerimônia de coroação do rei em Itamaracá, Pernambuco. A escolha recaía, habitualmente, num negro de idade, respeitado e respeitável, mas também ordeiro e pacífico, pois uma das suas obrigações era manter em obediência e quitação os demais escravos. Os senhores pressionavam a Irmandade, apoiando ou vetando certos candidatos, e, para ganhar a coroa, o futuro rei devia obter o pronunciamento favorável das autoridades policiais. Um pomposo cortejo, precedido por batedores, acrobatas e músicos, levava o rei e a sua companheira, protegido por uma guarda de  honra, até a Igreja, onde o vigário (branco) lhes impunha a coroa, logo após a missa. O dia era de licença geral para os escravos. E, quando o rei voltava à rua, tinham início as homenagens, os comes-e-bebes, as danças, a ruidosa alegria com que os negros comemoravam o acontecimento.

O cortejo, na forma antiga, desapareceu muito antes da Abolição, mas o rei — o reis, como diz o povo — sobrevive, em pontos isolados de São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, sobretudo naqueles lugares em que se registra a congada, representação popular que se desenrola no reino do Congo. Embora ainda respeitado e respeitável, o rei perdeu muito da importância e do esplendor de sua realeza de papelão, tão bem estudada por Mário de Andrade.

Desde fins do século passado, tanto em Pernambuco (maracatu) como na Bahia (afoxé), o cortejo real passou a constituir um acontecimento carnavelesco, mantendo o rei e a rainha, a guarda de honra, a banda de instrumentos de percussão, etc., mas entoando cânticos de xangô e candomblé.

Da folia do Divino se originou a folia de São Benedito. Esta desapareceu, há muito, da região centro-sul, onde provavelmente nasceu, ligada ao grande surto de irmandades do Rosário no século XVIII, mas floresce ainda na Amazônia, onde, por imposição do ambiente, vai ao encontro dos fiéis de rio abaixo e rio acima embarcada em canoa, conduzindo a bandeira e a coroa do santo.

Em louvor de São Benedito desfilavam, outrora, as taieiras, devotas associadas à sua Irmandade. Sílvio Romero e Melo Morais Filho notaram as do Lagarto, Sergipe, mulatas, que se deslocavam cantando quadras entremeados por um estribilho tradicional:

Inderé-ré-ré
Ai, Jesus de Nazaré

Estas pareciam as últimas taieiras do Brasil, mas há alguns anos já que se sabe da existência delas em São Miguel, Alagoas, onde competem com os folguedos do Natal. É possível, também que a marujada de Bragança e Quatipuru, Pará, em que as mulheres da Irmandade de São Benedito, em trajes especiais, tendo à cabeça uma cartola de papelão coberta de penas brancas de galinhas, percorrem as ruas das duas cidades a 26 de dezembro, seja a forma que as taieiras assumiram naquela parte da Amazônia.

Cantatas e tocatas de Reis se estruturaram, finalmente, talvez em começos do séculoXIX, em associações populares conhecidas como ternos e ranchos, sobretudo na Bahia, mas também em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Os brincantes, moças nos ternos, mas nos ranchos sem distinções de sexo ou de idade, faziam longas caminhadas noturnas, ao som de canções próprias, com acompanhamento de violas e pandeiros, sob a luz de lanternas chinesas, para render homenagem aos Reis Magos em presepes públicos e particulares. Os amigos, os admiradores, os comerciantes e as pessoas abonadas da vizinhança contribuíam com dinheiro para as despesas e era costume que o terno ou rancho os visitasse em casa, numa noite combinada de antemão, e que o visitiado mantivesse portas e janelas fechadas até a sua chegada, quando todo o grupo cantava pedindo licença para entrar elogiando a família, em versos tradicionais:

A dona da casa
é boa de dá
garrafa e vinho,
doce de araçá

Os ternos viveram apenas um momento nos estados do Sul, mas na Bahia ternos e ranchos — Arigofe, Bonina, Bacurau, Sol do Oriente, Robalo, Sempre-Viva, Cardeal, Rosa-Menina, Bentevi, Pidão... — resistiram até mais ou menos 1930 e, depois de um eclipse de cerca de vinte anos, estão de volta, encantando a noite dos Reis.

Trazidos da Bahia para o Rio de Janeiro, nos anos de 1870, os ranchos não vingaram como desfile de Reis, mas, posta de lado a intenção religiosa, pastoras, tenores, alegorias, mestre-sala e porta-estandarte criaram alma nova no Carnaval carioca e passaram a liderar, em esplendor e em apoio popular, as demais associações carnavalescas. Mimosas, Cravinas, Kanangas do Japão, Flor do Abacate, Ameno Resedá, são alguns dos famosos ranchos antigos. Foi deles que partiu a inovação do motivo central do desfile, diferente de ano para ano (enredo), que se impôs como modelo a todos os desfiles de carnaval contemporâneios e posteriores.

À estrutura do rancho acomodou-se a escola-de-samba, surgida por volta de 1920, mantendo e ampliando em número as pastoras, os tenores (academia), as alegorias, o mestre -sala (baliza) e a porta-estandarte (porta-bandeira), mas substituindo as ciganas, que outrora saracoteavam em torno do rancho, pelas baianas. O rancho, de base pequeno-burguesa, sustentado pelo comércio, entrava então em decadência. A base social da escola, proletária, e mesmo plebéia, e o ritmo vigoroso do samba, que ditou a substituição da orquestra convencional do rancho por instrumentos de percussão, fizeram toda a diferença. E, quanto ao enredo, a escola lhe deu tal prestígio que dele não podem prescindir nem mesmo cordões, blocos e frevos, que pertencem a outra linhagem carnavalesca. Tendo conquistado a Guanabara, a escola vai ganhando, paulatinamente, outras capitais, tanto no Norte como do Sul.

Cantatas e tocatas de Reis tomaram, na região centro-sul, não a forma de ternos e ranchos, mas a de folia de Reis, tendo por modelo remoto a do Divino. Esta não tem uma igreja a apoiá-la, é uma associação particular e informal que se funda na devoção tanto do mestre, um homem suficientemente lido no Novo Testamento para compor os hinos (profecias) que se cantam, como dos foliões, que, para obter a cura de enfermidades ou para vencer dificuldades de vida, fizeram a promessa de repetir simbolicamente durante sete anos, a peregrinação dos Magos a Belém. Precede-a a bandeira, um quadrado de madeira que emoldura uma estampa da Adoração, conduzida por um dos penitentes que, a exemplo da folia do Divino, tem o título de alferes ou alferes-da-bandeira. Os foliões são cantores e músicos, exceto dois ou três deles, os palhaços, cômicos mascarados e descalços, em trajes extraordinários, armados de porretes, que representam os soldados de Herodes. A folia deve sair no dia de Natal e recolher-se na madrugada seguinte ao dia dos Reis, uma  jornada contínua que os foliões empreendem nos vilarejos do interior, visitando conhecidos, amigos e devotos dos Magos no estado do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, São Paulo, Paraná e Goiás, mas que se reduz a domingos e feriados onde quer que os penitentes tenham emprego regular, como na Guanabara. Esta folia, pobre e pouco numerosa no interior, forma companias de pelo menos 12 homens na área metropolitana do Rio de Janeiro e desfila com o mais variado conjunto instrumental conhecido dos folguedos populares — violas e cavaquinhos, caixa harmônica, triângulo, pratos, bumbo.

Também se relaciona à folia do Divino o esmoler de Santo Amaro, Bahia — uma associação informal, de gente humilde, cantores, dançarinos e músicos descalços, que, levando um estandarte, pede espórtulas para missa festivas para este ou aquele santo de devoção popular. Há cerca de cinqüenta anos preenche esta junção o bando precatório do Lindo Amor.

(Carneiro. Edison. "Desfiles e cortejos populares". Brasil Açucareiro.  Rio de Janeiro, agosto de 1969, nº 2, ano 40, v.70)