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Edison Carneiro
Em geral, os desfiles e cortejos em que se exprime boa parte da lúdica popular
brasileira têm (ou tiveram) intenção religiosa.
Os mais antigos, ao que tudo indica, são a folia do Divino e o rei Congo,
que correspondiam outrora, e até certo ponto ainda correspondem, aos setores
branco e negro, respectivamente, da população. São folguedos trazidos de
Portugal. A folia provém, diretamente, do tipo de comemoração que os portugueses
imprimiram a uma festa móvel do calendário católico e implantaram em todas as
suas colônias — o Império do Divino Espírito Santo. Para o maior brilho da
comemoração escolhia-se por sorte, entre as pessoas gradas previamente
inscritas, o festeiro do ano. O costume ainda permanece, por exemplo, em
Pirenópolis, Goiás. Em certas cidades brasileiras a festa envolvia a sagração de
um imperador, um menino branco, de cabelos compridos e cacheados, que, de coroa,
cetro e manto, ocupava um trono montado no centro da nave da igreja. A folia do
Divino era o bando precatório que, em contínuas andanças, durante muitos dias,
pela freguesia, angariava as espórtulas dos fiéis para a festa de largo. Debret
a fixou, numa das suas gravuras, no Rio de Janeiro. Quanto ao rei do Congo,
constitui uma adaptação do velho costume dos reinados às condições
especiais da escravidão, primeiro em Portugal e em seguida no Brasil.
A folia do Divino persiste, ainda hoje, em pontos isolados do estado do Rio
de Janeiro,
Minas Gerais, São Paulo, Goiás e Mato Grosso, levando consigo dois símbolos
católicos do Espírito Santo — a bandeira, encarnada, tendo no cimo do mastro a
pomba que o representa, e a coroa, conduzida sobre uma almofada também
encarnada. Ao porta-bandeira dá-se o antigo título militar de alferes ou, por
extenso, alferes-da-bandeira. Os demais foliões são músicos, dançarinos e
cômicos. Constitui uma honra, para o visitado, receber em casa as representações
materiais da divindade. Os foliões cantam e dançam, ao som de viola, pandeiro,
caixa, comem do bom e do melhor, em localidades do interior se acomodam para
dormir, finalmente entoam a despedida-agradecimento:
O Divino lhe agradece
a bela oferta
que vós deu de coração
É esse perambular pela freguesia que garantia o êxito da festa. A contribuição
dos fiéis pode ser em dinheiro, que o vigário utiliza na ornamentação da igreja
e do adro, ou em objetos, em bolos e doces, em animais de criação (sobretudo
galinha e porcos), que são sorteados ou leiloados durante a noite. Em Itaipava,
São Paulo, Emílio Willems notou como a festa se tornou vazia e inexpressiva
quando o novo vigário proibiu a saída da folia que a anunciava em todos os
lugarejos do município.
A folia do Divino inspirou, como veremos, outras folias no Brasil.
Do rei do Congo as notícias mais antigas vêm de meados do seculo XVIII, em
Pernambuco. O seu ponto de apoio eram as Irmandades do Rosário, mais tarde do
Rosário e de São Benedito. Em começos dos século passado, Debret retratou a
corte do rei do Congo disposta em torno da igreja do Rosário, no Rio de Janeiro,
recolhendo dinheiro para Irmandade, enquanto Henry Koster descreveu, com
sarcasmo, a cerimônia de coroação do rei em Itamaracá, Pernambuco. A escolha
recaía, habitualmente, num negro de idade, respeitado e respeitável, mas também
ordeiro e pacífico, pois uma das suas obrigações era manter em obediência e
quitação os demais escravos. Os senhores pressionavam a Irmandade, apoiando ou
vetando certos candidatos, e, para ganhar a coroa, o futuro rei devia obter o
pronunciamento favorável das autoridades policiais. Um pomposo cortejo,
precedido por batedores, acrobatas e músicos, levava o rei e a sua companheira,
protegido por uma guarda de honra, até a Igreja, onde o vigário (branco)
lhes impunha a coroa, logo após a missa. O dia era de licença geral para os
escravos. E, quando o rei voltava à rua, tinham início as homenagens, os
comes-e-bebes, as danças, a ruidosa alegria com que os negros comemoravam o
acontecimento.
O cortejo, na forma antiga, desapareceu muito antes da Abolição, mas o rei — o
reis, como diz o povo — sobrevive, em pontos isolados de São Paulo, Minas
Gerais e Rio Grande do Sul, sobretudo naqueles lugares em que se registra a
congada, representação popular que se desenrola no reino do Congo. Embora ainda
respeitado e respeitável, o rei perdeu muito da importância e do esplendor de
sua realeza de papelão, tão bem estudada por Mário de Andrade.
Desde fins do século passado, tanto em Pernambuco (maracatu) como na Bahia
(afoxé), o cortejo real passou a constituir um acontecimento carnavelesco,
mantendo o rei e a rainha, a guarda de honra, a banda de instrumentos de
percussão, etc., mas entoando cânticos de xangô e candomblé.
Da folia do Divino se originou a folia de São Benedito. Esta desapareceu, há
muito, da região centro-sul, onde provavelmente nasceu, ligada ao grande surto
de irmandades do Rosário no século XVIII, mas floresce ainda na Amazônia, onde,
por imposição do ambiente, vai ao encontro dos fiéis de rio abaixo e rio acima
embarcada em canoa, conduzindo a bandeira e a coroa do santo.
Em louvor de São Benedito desfilavam, outrora, as taieiras, devotas associadas à
sua Irmandade. Sílvio Romero e Melo Morais Filho notaram as do Lagarto, Sergipe,
mulatas, que se deslocavam cantando quadras entremeados por um estribilho
tradicional:
Inderé-ré-ré
Ai, Jesus de Nazaré
Estas pareciam as últimas taieiras do Brasil, mas há alguns anos já que se sabe
da existência delas em São Miguel, Alagoas, onde competem com os folguedos do
Natal. É possível, também que a marujada de Bragança e Quatipuru, Pará,
em que as mulheres da Irmandade de São Benedito, em trajes especiais, tendo à
cabeça uma cartola de papelão coberta de penas brancas de galinhas, percorrem as
ruas das duas cidades a 26 de dezembro, seja a forma que as taieiras assumiram
naquela parte da Amazônia.
Cantatas e tocatas de Reis se estruturaram, finalmente, talvez em começos do
séculoXIX, em associações populares conhecidas como ternos e ranchos, sobretudo
na Bahia, mas também em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul. Os brincantes,
moças nos ternos, mas nos ranchos sem distinções de sexo ou de idade, faziam
longas caminhadas noturnas, ao som de canções próprias, com acompanhamento de
violas e pandeiros, sob a luz de lanternas chinesas, para render homenagem aos
Reis Magos em presepes públicos e particulares. Os amigos, os admiradores, os
comerciantes e as pessoas abonadas da vizinhança contribuíam com dinheiro para
as despesas e era costume que o terno ou rancho os visitasse em casa, numa noite
combinada de antemão, e que o visitiado mantivesse portas e janelas fechadas até
a sua chegada, quando todo o grupo cantava pedindo licença para entrar elogiando
a família, em versos tradicionais:
A dona da casa
é boa de dá
garrafa e vinho,
doce de araçá
Os ternos viveram apenas um momento nos estados do Sul, mas na Bahia ternos e
ranchos — Arigofe, Bonina, Bacurau, Sol do Oriente, Robalo, Sempre-Viva,
Cardeal, Rosa-Menina, Bentevi, Pidão... — resistiram até mais ou menos 1930 e,
depois de um eclipse de cerca de vinte anos, estão de volta, encantando a noite
dos Reis.
Trazidos da Bahia para o Rio de Janeiro, nos anos de 1870, os ranchos não
vingaram como desfile de Reis, mas, posta de lado a intenção religiosa,
pastoras, tenores, alegorias, mestre-sala e porta-estandarte criaram alma nova
no Carnaval carioca e passaram a liderar, em esplendor e em apoio popular, as
demais associações carnavalescas. Mimosas, Cravinas, Kanangas do Japão, Flor do
Abacate, Ameno Resedá, são alguns dos famosos ranchos antigos. Foi deles que
partiu a inovação do motivo central do desfile, diferente de ano para ano
(enredo), que se impôs como modelo a todos os desfiles de carnaval
contemporâneios e posteriores.
À estrutura do rancho acomodou-se a escola-de-samba, surgida por volta de 1920,
mantendo e ampliando em número as pastoras, os tenores (academia), as alegorias,
o mestre -sala (baliza) e a porta-estandarte (porta-bandeira), mas substituindo
as ciganas, que outrora saracoteavam em torno do rancho, pelas baianas. O
rancho, de base pequeno-burguesa, sustentado pelo comércio, entrava então em
decadência. A base social da escola, proletária, e mesmo plebéia, e o ritmo
vigoroso do samba, que ditou a substituição da orquestra convencional do rancho
por instrumentos de percussão, fizeram toda a diferença. E, quanto ao enredo,
a escola lhe deu tal prestígio que dele não podem prescindir nem mesmo cordões,
blocos e frevos, que pertencem a outra linhagem carnavalesca. Tendo conquistado
a Guanabara, a escola vai ganhando, paulatinamente, outras capitais, tanto no
Norte como do Sul.
Cantatas e tocatas de Reis tomaram, na região centro-sul, não a forma de ternos
e ranchos, mas a de folia de Reis, tendo por modelo remoto a do Divino. Esta não
tem uma igreja a apoiá-la, é uma associação particular e informal que se funda
na devoção tanto do mestre, um homem suficientemente lido no Novo
Testamento para compor os hinos (profecias) que se cantam, como dos foliões,
que, para obter a cura de enfermidades ou para vencer dificuldades de vida,
fizeram a promessa de repetir simbolicamente durante sete anos, a peregrinação
dos Magos a Belém. Precede-a a bandeira, um quadrado de madeira que
emoldura uma estampa da Adoração, conduzida por um dos penitentes que, a exemplo
da folia do Divino, tem o título de alferes ou alferes-da-bandeira. Os foliões
são cantores e músicos, exceto dois ou três deles, os palhaços, cômicos
mascarados e descalços, em trajes extraordinários, armados de porretes, que
representam os soldados de Herodes. A folia deve sair no dia de Natal e
recolher-se na madrugada seguinte ao dia dos Reis, uma jornada
contínua que os foliões empreendem nos vilarejos do interior, visitando
conhecidos, amigos e devotos dos Magos no estado do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas
Gerais, São Paulo, Paraná e Goiás, mas que se reduz a domingos e feriados onde
quer que os penitentes tenham emprego regular, como na Guanabara. Esta folia,
pobre e pouco numerosa no interior, forma companias de pelo menos 12
homens na área metropolitana do Rio de Janeiro e desfila com o mais variado
conjunto instrumental conhecido dos folguedos populares — violas e cavaquinhos,
caixa harmônica, triângulo, pratos, bumbo.
Também se relaciona à folia do Divino o esmoler de Santo Amaro, Bahia
—
uma associação informal, de gente humilde, cantores, dançarinos e músicos
descalços, que, levando um estandarte, pede espórtulas para missa festivas para
este ou aquele santo de devoção popular. Há cerca de cinqüenta anos preenche
esta junção o bando precatório do Lindo Amor.
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