Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Fevereiro 2007 - Ano X - nº 99


Sumário

Festança
Com a verba do carnaval compraram a alforria de cinco (ou 12) escravos
Jota Efegê

Tribos de índios
Katarina Real

Dança do bate-coxa
Alceu Maynard Araújo

Cancioneiro
A mula doida demais
José Medeiros Lacerda

ABC da moça queimada

Vaidoso

Imaginário
O curupira e o seu alimento

Quero-Quero
Dimas Costa

Estórias de João Alfaia

Colher de Pau
Queijo do Ceará
Alceu Maynard Araújo

Alho
Mário Souto Maior

Alimentação dos habitantes de Belém do Pará
Alfred Russell Wallace

Oficina

Na mesma praça, no mesmo lugar

Pescar no lago já é profissão

Cultura do algodão
Oscar Canstatt

Palhoça
Folclore do cachorro
Marina de Andrade Marconi

Nosso folclore e os muçulmanos
Aluísio de Almeida

Das leis e da polícia dos índios tupinambás
Claude d'Abbeville

Panacéia
Palavras más
Hildegardes Viana

Erisipela
Osvaldo Orico

Santa cruz de beira de estrada
Gilvaldar de Campos Monteiro

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Festança
Textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...

Tribos de índios

Katarina Real

As tribos de índios saem com uma lancinha na mão direita e um escudo na mão esquerda. Não conduzem arco e flechada (preaca) como os caboclinhos recifenses. Vestem camisas de cetim, um tipo de camisa, um tipo de camisa de jogador de futebol, com um "papo" (um pequeno escudo) no meio, das cores da tribo. Algumas usam vistosos cocares de pena de garça branca, em vez de penas de ema, como é o caso nos caboclinhos. Todas as tribos de índio se pintam de tinta vermelha (porque são "peles vermelhas") e apresentam uma série de danças complexas e interessantíssimas, dentre as quais sempre aparece o tema de "morte e ressurreição" — nenhuma destas características presentes nos caboclinhos da cidade.

Quer dizer que não são caboclinhos recifenses? Que são, então? São a presença da Paraíba no carnaval do Recife. Esse carnaval já fabulosamente variado, está sendo enriquecido não somente por belos folguedos do interior de Pernambuco como também por folguedos dos estados vizinhos. Povo de outras zonas, outras regiões, outros estados vizinhos. Povo de outras zonas, outras regiões, outros estados, que vem ao Recife procurar "um ganho melhor", uma vida de maiores esperanças, trazendo em sua bagagem a riqueza de suas tradições populares.

Alguns irão criticar meu uso do termo "tribo de índio" para distinguir esses grupos dos caboclinhos recifenses. Os dedicados folcloristas brasileiros terão esse direito porque sabem muito bem que no brilhante estudo de Mário de Andrade, de 1928-1929, sobre os "caboclinhos" paraibanos, ele nunca registrou o termo "tribo de índio" [1]. O povo dos caboclinhos vai reclamar: "Mas, dona Katarina, a senhora sabe que nós também somos tribos". A esses respondo: "Sim, vocês são tribos, tribos indígenas, o termo que vocês preferem, mas todo o mundo os chama de caboclinhos. E aquele pessoá de ritmo diferente que não bota arco e flecha, vocês mesmos não chamam de tribo de índio?" E falando com o povo das tribos de índio, eles me dizem: "Não somos caboclinhos, não — somos tribo", às vezes a palavra tribo saindo como "tribi", "twibi", "tibre" e até "tíbia" (corruptelas da fala popular).

No período da pesquisa (1961-1965) existiam três tribos de índio na cidade. Eram estas, com datas da sua fundação no Recife:

Tribo de índio Tupi-Guarani (1951)
Tribo de índio Tupi-Papo-Amarelo (1962)
Tribo de índio Paranaguazes (1953)

O tupi-guarani desapareceu tragicamente logo antes do carnaval de 1962. Restam dois grupos atualmente, mas é bem possível que haja outros. Cada uma dessas tribos tem uma história para contar. Vamos ouvi-las:

Tribo Tupi-Guarani

É seu diretor e mestre, seu Perê, quem nos informa. Paraibano, quarentão, "assina somente o nome", baixo, forte, escuro. Desempregado, mas, às vezes, "trabalha na escultura" ("raspar chão com talco"). Grande senso de humor. Ótimo informante. "Nasci no mato. Sou matuto". Grande sorriso. Avó materna era "índia legítima" da tribo Canela. Pai era "descendente de africano". Separado da esposa, de quem ainda gosta muito. "Amasiado" com outra mulher que quer "botar pra fora".

Morava na roça, teve medo de índio. Com 9 anos de idade foi a João Pessoa com a mãe. Nunca tinha visto o carnaval. Fundou Índios Ipiranga Infantil aos 10 anos (1936). "Fundei porque sempre admirei muito os índios africanos. Comecei com lata e um canudo de mamão. Fiz dois zabumbas e uma gaita de taboca. Cada menino deu duzentos cruzeiros". Dez anos mais tarde (1946), o grupo tornou-se Índios Juvenil. "O pessoá dos Índios Africanos ficaram comigo. Acabou Africanos" [2]. "Foi campeão de carnavá todos os anos".

Em 1948, Perrê visitou o Recife. Assistiu ao carnaval. "Achei muito bonito". Resolveu: "Vou trazer todo o grupo para o Recife brincar". Em 1949, trouxe toda a Tribo do Paraíba para o Recife num vagão especial da Great Western. Cada um pegava 140 cruzeiros e veio "com fantasia, panela e prato". "Campeão do Carnavá, no Recife"! Voltaram a João Pessoa. 1950: Último carnaval em João Pessoa "brincadeira de despedida". "Botei 66 índios. Tirei outro primeiro lugar".

Perrê mudou-se para o Recife em 1950, com vários membros da tribo. Foram morar no bairro de Caixa d'Água, em Beberibe. Fundou Tupi-Guarani em 1951. Os associados que ficaram em João Pessoa vinham todos os anos brincar com a tribo (entre oito e dez). Perrê dava hospedagem, refeições e uma gratificação.

Na "brincadeira", Perrê era "rei, pajé, cacique" ("todo o mesmo"), também gaiteiro fabuloso. Fazia todos os capacetes com pena de garça branca, misturada às vezes com penas de galinha. Capacetes com veludo encarnado e aljofre. Lindíssimos. "Os cordões usam capacetes. No rei e rainha são coroas". Pintava todo o mundo de tinta vermelha. Comprava oito quilos de "Vermelhão 907" e "misturava em casa".

Insistia que uma índia da tribo Bororó e a sua filha haviam dançado com o grupo durante vários anos. "Se for verdade é incrível. Os bororó atualmente estão localizados em Mato Grosso).

Assistia a "sessão de caboclo" (catimbó). Disse-me: "Xangô não faz bom não. Catimbó feito na jurema é mais fácil de desmanchar. Catimbó feito por xangô é mais perigoso. Os "caboclos só fazem bem". Tenho o corpo selado. Estou protegido por três xangôs".

Saía também um "feiticeiro" na brincadeira. Era catimbozeiro na vida real. "Trabalha no xangô e na jurema. Tanto faz como desfaz. Na dança ele representa quem afasta todos os maus da tribo". Mas Perrê deu a impressão de não confiar muito nele. Disse-me várias vezes que o feiticeiro não estava trabalhando para o "bem" da tribo.

O cordão de índios representa os "guerreiros" da tribo, "saem com lança e escudo". "As meninas do cordão de índias saem com machadinha. Simboliza que vão pata a floresta tirar mel de abelha". 

Apresentação

Espião

Guia Guia
Porta-bandeira
Feiticeiro
Rei e Rainha
x x
x x
x x
x x
x x
x x
x x
x x
x x
x x
x x
Cordão de índios
11
"Porta-lança"
Cordão de índias
11
"Machadinhas"

Orquestra: 2 gaitas, 2 ganzás, 3 zabumbas

Danças

Quem lê a emocionante descrição de Mário de Andrade sobre estes grupos poderá sentir e até visualizar a "formidável coreografia bruta" dos dançarinos [3]. Danças com passos complicadíssimos, danças que atingem "um frenesi dionisíaco espantoso". Descrevê-las é inteiramente impossível. Só mesmo um Mário de Andrade poderia fazer isso. Devem — não — têm que ser filmadas. Venham, folcloristas, para documentar essas "danças fantásticas" brasileiras. Aqui vou transcrever a lista das que Perrê me deu:

1ª dança: Pisa-uva
2ª dança: Passo cruzado
3ª dança: selar o corpo
4ª dança: Tomba à direita / Tomba à esquerda
5ª dança: Vôo de costa
6ª dança: Espalha o arroz
7ª dança: Vamos escutá
8ª dança: Macumba. Dois passos: "Taupe do pé". "A cobrinha" (toque diferente)
9ª dança: Pisa-uva ("Ritmo principal")

Perrê contou-me várias vezes que se sentiu um fracasso no Recife. Trouxe a tribo de João Pessoa e desde então "nunca mais tirei em primeiro nem em segundo lugá". Durante a minha pesquisa, a tribo insistiu que eu fosse a sua "madrinha", e Perrê me presenteou a sua coroa de rei. Fiz tudo para animar Perré, mas sabia que a vida dele era um transtorno muito grande. Estava de briga com vários catimbozeiros, com problemas dentro da tribo e dentro de casa. Tive que viajar para os Estados Unidos em junho de 1961. Soube depois que a sede dos Tupi-Guarani pegou fogo com todo o material da tribo, e que Perrê tinha deixado o Recife. Sinto uma profunda tristeza, ao pensar no assunto.

Índio Tupi Papo-Amarelo

Nosso informante é seu Francisco, mestre e "chefe da tribo". Homem escuro, alto, bonito, simpático. Deve ter uns 35 anos. Fala baixinho, um pouco tímido, mas ótimo informante. "Nunca estudei na escola". Trabalha como "funcionário público" na Base Aérea de Prazeres. Nasceu em João Pessoa e começou a brincar no Papo-Amarelo em Paraíba, com a idade de doze anos. "Cheguei a ser chefe da tribo". Um dos fundadores da tribo, que trabalhava na base em João Pessoa, foi transferido para o Recife em 1954. Gostou. Foi morar em Prazeres. Vieram outras famílias da Paraíba que foram morar lá também. Arranjaram emprego na base. Todos são muito felizes no Recife. "A gente vive melhor aqui". Resolveram fundar a tribo com "o nome de Paraíba". "Todos somos de lá". "Somos quase como uma família". Festejam o aniversário de cada associado na sede.

Seu Francisco, o mestre, prepara todos os capacetes, que têm duas partes: o "talabado" e o "diadema". usa penas de garça branca, pombo, galinha, peru e pavão (poucos). Saem pintados de tinta vermelha. A tribo é ligada à "Linha Cabocla" — "tem caboclos atuando".

Apresentação [4]

Aproximadamente trinta figuras

Espião
Baliza
Tuxáu
(Mestre)
Contra-mestre
Guarda-de-honra Porta-bandeira Guarda-de-honra
2ª guia x 2ª guia
x
x
x
x
Cordão
(de 20, com duas moças)

Orquestra: 1 gaita, 4 bombos, 1 gonguê, 1 triângulo, 1 caracaxá

Danças

Segundo o mestre, o Papo-Amarelo tem "cinco sistemas de dança" quando sai no carnaval "na sua roupa de festa". Ele me deu esta lista:

1. Tombo de lado
2. Caída numa plancha
3. A coca
4. A morte: "Nesta dança, o contra-mestre mata todos os índios". "Era uma outra tribo que veio e matou". "O mestre vem levantar os índios e leva a tribo dele".
5. A macumba: "A pancada dos tambores é diferente. A tribo está atuada. Se é muito forte a pancada, a pessoa daquela linha fica atuada". "Vai com uma cobra, um tigre, um leão" (?)

Tribo de índio Paranaguazes

A terceira tribo de índio não é de origem paraibana mas de influência paraibana. O diretor-mestre "brinca de pajé" na tribo. Nasceu em São Lourenço da Mata e, de menino, brincou nos Canindés de São Lourenço (caboclinhos). Conheceu Perrê em 1947 e durante alguns anos ele e o seu cunhado brincaram no Tupi-Guarani. "Não se deram bem". "Sempre queria botar um brinquedo para mim até que botei esse". Em 1953, fundou Paranaguazes. Parece-me uma mistura de elementos de tribo de índio e caboclinhos, com influência do espiritismo. O mestre me contou: "Tem sessão de caboclo na sede. É sessão de espírito branco. Não é macumba, ou catimbó — é livre" (!) O "centro espírita" pertence a uma mulher que sai de "cacica" no carnaval. "Sai trajada de coroa, não de pena. Ela desfila atuada".

Os "índios" dessa tribo saem pintados "dum vermelho não muito vivo — quase um marronzinho. Compro vermelho em gris".

Na brincadeira, os meninos são "mengues" ("crianças da fala indígena"). Os homens  são "otomi"; as mulheres "madé". Será que estas palavras são dum idioma ameríndio mesmo? Sim, segundo o antropólogo Estêvão Pinto [5], são do idioma dos potiguares, tribo tupi no interior da Paraíba.

Apresentação

Pajé, porta-bandeira, cacique e cacica, cordão de índios e a orquestra de quatro figuras: 2 bombos, ganzá e gaita. Total: aproximadamente 25 figuras.

Danças

"A tribo puxa diversas danças"

1ª: A matrinada
2ª: A dança da macumba (outro toque)
3ª Baianinho (outro toque). "Três ritmos — muitas danças"

Versos — Enredo

"Quem puxa a fala é a cacica".

"Os índios vêm dançando. Uma moça fica no meio.

O cacique vem e corta ela com o machado. Ela cai gemendo. Todos gritam:

— Mataram este caboclo!

Aparece a cacica — é uma madé. A moça é da família de madé. A cacica vê a moça gemendo, e diz:

Mandaram a flecha na seta
Ela gravou coração
O sangue se derramou
A morena se lastimou
O meu Deus, que horror
Sendo assim eu sei que vou
Lutar muito nessa guerra
Para aprender essa flecha
Que atingiu o meu amor

Faz que bate na moça, que continua gemendo. Vem então o toque da macumba. Aparece o pajé, que fala com a moça para levantar ela:

Levanta-te, índia guerreira
Vá guerrear no Japão
Que eu como chefe, rei dos índios
Tenho quinhentos galeão
Vamos lá dá viva aos nossos
Com a sua lança na mão

Enquanto a moça se levanta, com a mão no ar, ela diz:

Eu andava de viagem
Encontrei com a cobra jibóia
Tirei vinte e cinco jóias
Deixe de chover no moia (sic)
Onde o pombo canta e grita
O planeta que corre no céu
A estrela d'Alva é bonita"

Segundo o mestre, foi ele mesmo quem inventou todos estes versos. Disse-me que tinha muitos outros, mas não houve tempo para registrá-los.

* * *

Sociologicamente, a vida das tribos de índio é parecidíssima com a dos caboclinhos — talvez um pouco mais ligada às atividades místicas. Estas tribos desfilam no centro da cidade na noite da segunda-feira de carnaval. Mas, para os que queiram delirar na beleza desse balé folclórico, recomendo que procurem assistir a uma apresentação de tribo de índio nos subúrbios do Recife — ou mesmo em João Pessoa, onde ainda existem vários grupos desse tipo.

Notas

1. Danças dramáticas do Brasil, v.2, São Paulo, 1959, p.179-199
2. É interessante notar que Mário de Andrade viu e admirou muito essa agremiação em João Pessoa, em 1929. Ibid. p.185.
3. Ibid. p.180-181
4. É fascinante notar que Bastide registra a apresentação do Papo-Amarelo em João Pessoa, em 1944/1945. Isto é, antes da sua transferência para o Recife. Evidencia poucas diferenças. Imagens do Nordeste místico, p.201.
5. Conversação pessoal

(Real, Katarina. O folclore no carnaval do Recife. Rio de Janeiro, Campanha de Defesa do Folclore Brasileiro,  1967, p.113-121)

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