Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Fevereiro 2010 - Ano XII - nº 133


Sumário

Festança
Jardineira, arco-de-flores ou balainhas

Cancioneiro
A festa dos cachorros
José Pacheco

Imaginário
A lenda dos tatus brancos
Maria Rosa Moreira Lima

Colher de Pau
Chimarrão; Na campanha rio-grandense, um círculo de fraternidade
J. A. P. de A.

Oficina
O rei café como ele é

Palhoça
Do nosso vocabulário popular
Paulino Santiago

Panacéia
Azar de Adão foi não ter um figa
Abdias Rodrigues

 

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Simplicitate Design

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Panacéia
Textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...

Azar de Adão foi não ter um figa

Abdias Rodrigues

As superstições e as lendas vêm de tempos imemoriais. E a mais sublime de todas é a que diz respeito à aparição do homem na face da terra e, ipso facto, à sua expulsão do éden. Perdeu Adão o paraíso... Porque? Cherchez la femme? Procurai a mulher — dizem os franceses. Ela é a responsável indireta por tudo que de bom ou ruim acontece ao homem.

Despreocupado, no seu isolacionismo, o primeiro varão parecia ser feliz no paraíso celeste. Mas veio Eva e com ela a primeira culpa e a primeira preocupação.

A perda do paraíso deu origem à criação do vocábulo — Felicidade. E desde então tudo o que os descendentes de Adão e Eva fazem neste mundo gira em derredor desta palavra mágica. Mas por mais que a humanidade se afadigue jamais conseguirá ser totalmente feliz. É que, assim como o mundo a palavra cresceu, tomou fundo, forma e significados diversos. Daí a sua relatividade humana: para um vaidoso, felicidade significa — dinheiro; para um doente, saúde; para uma moça, um bom partido, etc.

No fragor da luta pela vida nasceram a inveja, o despeito e a ambição de subir... E para livrar-se da influência maléfica o homem inventou os amuletos e talismãs e tornou-se supersticioso.

Os séculos sucederão aos séculos, as gerações às gerações, mas, enquanto o mundo for mundo há de haver sempre quem acredite que o 13 dá azar, a ferradura dá sorte e o trevo de quatro folhas é o símbolo da felicidade.

A muitos não importa saber o porque dos azares e das sortes. Também para que?!... "A vida é curta e o prazer raro". Os nossos ancestrais acreditavam em fetiches — dizem muitos — e isso é o bastante...

Quando se fala em coisas que dão azar vem logo à nossa mente o número 13. E tanto isso é verdade que nos Estados Unidos, há um clube para combater a superstição mediativa a esse número, na Europa não se encontram os quartos 13, 113, 213, etc.

A superstição conseguiu grandes progressos entre os aviadores e artistas de cinema. Quando deram a Greta Garbo a mesa número 13, num restaurante francês, a estrela sueca saiu tão depressa do restaurante que todos pensaram que houvesse uma cobra debaixo da mesa...

Em Hollywood, a crendice tornou-se coisa corriqueira. Nos dias 13 lá se trabalha também. Mas, se o filme fracassar, eis o pretexto: foi rodado no dia do azar...

A superstição ao 13 vem da Santa Ceia. Os profetas já haviam divulgado: "haverá uma ceia em que tomarão parte treze pessoas, inclusive o Messias. Uma delas trairá o Filho de Deus".

Se o leitor é supersticioso, naturalmente, agora, vai passar a ter terror ao número 13. De fato: se contarmos, da direita para a esquerda, os personagens da Santa Ceia, encontraremos 13 pessoas. E justamente a número 13 corresponde ao traidor — Judas.

O gato preto e o sapo sempre foram acessórios fatídicos, muitos usados pelas bruxas e feiticeiros. Do sapo adveio o famoso veneno — água tofana — muito usada por célebres envenenadores da Idade Média.

No esoterismo e cabalismo há muitos símbolos que servem para o bem como para o mal. Outras seitas secretas adotam emblemas impressionantes como a chamada "câmara de reflexão", onde o galo significa: "sou eu quem desperta o dia"; a foice dá idéia da morte, juntamente com o cavalheiro; a ampulheta, que foi o primeiro relógio, significa "o tempo passa ainda mais depressa que a minha areia". A estrela flamejante é o símbolo do gênio que eleva a grande coisas. E a estrela de cinco pontas é o símbolo do ser humano.

O pajé é tudo para os selvagens: sabedoria, coragem, felicidade. Dai ser muito comum encontrarem-se estatuetas desses índios nos lares cristãos, mormente nos adeptos do espiritismo.

A figa — mão fechada com o polegar mal oculto entre o indicador e o dedo grande, tem um história muito mais complexa do que se imagina. Quando se vê uma figa ornando o bracinho dos bebês, suspensa na pulseira ou pendente do cordão de ouro das crianças, mal se imagina o que apresenta, em sua origem e como o interpreta a psicanálise.

Usa-se hoje como um amuleto inocente, destinado a desviar o mau olhado e a preservar as crianças das consequências do "olho grande".

Explicando a doutrina de Freud, reporta-se o professor Franco da Rocha, à psicologia das nevroses, para mostrar como as forças da origem sexual se desenvolvem e tomam, muitas vezes, sentido diverso de forma primitiva. Está nesse caso o culto da figa, estilizado no seio de quase todos os lares como um poder benéfico para conjurar possíveis males. Ela é, entretanto um vestígio do culto fálico. Perdeu-se a ligação mental originária, isto é, a significação primitiva do objeto, mas ficou a feição física que lhe trai a origem. Sendo um simples objeto conjurador de males, a ética hoje, não impede que ele ande com as medalhas pendentes do pescoço das crianças e nas cadeias dos relógios dos homens.

O comércio de figas está muito desenvolvida em todo o Brasil. As figas de pau d'alho, guiné, guiné africano, arruda, azevinho e outras madeiras — Informa o padre Teschauer — protegem o indivíduo e, particularmente, as crianças contra o mau olhado, feitiço, invejas, pragas de toda sorte. Existem de todos os tamanhos e formatos.

"A ferradura pregada na porta principal, traz felicidade ao dono da casa" — dizem todos. Se a encontrarmos na estrada virada para nosso lado indica bons augúrios.

Ora, não há mentira sem um princípio de verdade. A ferradura fora, em outros tempos, motivo de felicidade.

Os chamados príncipes da igreja ferravam os seus cavalos com ferraduras de ouro. Como é natural, quando gastas, as ferraduras se desprendem-se dos cascos dos animais. Daí a alegria quando um pária encontrava na estrada ou no campo uma ferradura de ouro. Os tempos mudaram, mas o povo continua acreditando na lenda. É esse misticismo que alenta a vida. É a "fé que remove montanhas", que fomenta o milagre. Milagre como esse de se encontrar um trevo de quatro folhas — o símbolo da felicidade.

Quanta moça, em vão não tem buscado nos campos, o trevo milagroso?!... É muito difícil encontrá-lo. Constitui mesmo um milagre... Daí a crença geral de que são felizes aqueles que o encontram.

(Rodrigues, Abdias. "Azar de Adão foi não ter um figa". Correio da Manhã, Rio de Janeiro, 19 de agosto de 1962)

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